FST 2012

Um banho de chuva e democracia na abertura do FST 2012

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Samir Oliveira

A avenida Borges de Medeiros, no centro de Porto Alegre, verteu democracia na tarde desta terça-feira (24). Por toda a sua extensão, desde o Largo Glênio Peres até a avenida Ipiranga, circularam mais de 20 mil pessoas com diferentes bandeiras nas mãos, mas ancoradas num mesmo ideal: o de que um novo mundo é possível.

O relógio da Praça Montevidéu, em frente à prefeitura, marcava 16h40. E o termômetro informava que a Capital vivia sob um calor acachapante de 34 graus. Ali, ciclistas, militantes partidários, ambientalistas e integrantes de diversas ONGs se organizavam para acompanhar a marcha de abertura do Fórum Social Temático – nascido da costela do Fórum Social Mundial que movimentou Porto Alegre em 2001, 2002, 2003 e 2005.

No mesmo momento em que uma multidão esperava inerte a caminhada seguir seu rumo, outra parte já estava chegando ao viaduto com a rua Duque de Caxias. O fluxo era vivo, formado de energia pura. Seguia seu próprio ritmo, com avanços e solavancos repentinos. Praticamente uma alegoria para o progresso das causas defendidas pelos manifestantes.

Foto: Ramiro Furquim/Sul2

Foto: Ramiro Furquim/Sul2

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

A aglomeração de distintas centrais sindicais e partidos políticos – que pouco se misturavam em suas fileiras, assim como em suas ideologias e práticas – fazia da marcha quase um desfile de carnaval, onde cada escola tem sua vez. Identificados por camisetas e bordões, os militantes disputavam no grito a possibilidade de cravarem suas mensagens no público.

“Capitalismo nunca foi de quem trabalha”, bradava uma voz que saía do caminhão de som da Central Única dos Trabalhadores (CUT), enquanto, não muito distante, uma imensa faixa do PSTU acusava Dilma, Tarso e Fortunati de governarem ao lado dos patrões.

Foto: Ramiro Furquim/Sul2

Foto: Ramiro Furquim/Sul2

Foto: Ramiro Furquim/Sul2

Na calçada e nas janelas dos edifícios, a população alheia ao evento se amontoava para tentar entender o que estava acontecendo. Enquanto o asfalto era dominado pelo cortejo a passos lentos, um grupo de jovens rasgava a calçada aos pulos com um brado que caía bem ao momento: “A juventude! Não abre mão! Do socialismo! E da revolução!”.

A dianteira da marcha apresentava uma coloração diferente. Os tons de vermelho e laranja dos partidos e das centrais sindicais cediam lugar ao roxo e ao verde. Militantes de movimentos sociais distribuiam mudas de plantas aos pedestres e, logo atrás, simulavam o funeral da flora brasileira. O recado da faixa não deixava dúvidas e dava uma ordem à presidente da República. “Dilma, desligue a motosserra”, criticavam os integrantes de grupos ambientalistas, numca clara referência ao novo código florestal aprovado pelo Congresso e que ainda aguarda sanção — ou veto — do Palácio do Planalto.

Logo atrás, feministas empunhavam o roxo para exigir igualdade. “ Somos mulheres, não mercadoria!”, gritavam, sob o som animado de tambores. Na mesma linha, ONGs que defendem o direito dos homosssexuais desfraldavam a bandeira do arco-íris e exigiam “o fim da heteronormatividade”.

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Foto: Ramiro Furquim/Sul2

Como em todos os fóruns sociais que se realizaram em Porto Alegre – desde o primeiro, em 2001 –, os representantes políticos também se fizeram presentes. Misturados à multidão, o governador Tarso Genro (PT), o vice Beto Grill (PSB), o presidente da Assembleia Legislativa, Adão Villaverde (PT) e o prefeito da Capital, José Fortunati (PDT), marchavam atrás de uma faixa que convocava para a reunião Rio +20 – encontro das Nações Unidas que discutirá mudanças climáticas.

Apesar de estarem distantes do aparato oficial, os políticos dificlmente passavam despercebidos. A profusão de câmeras e flashes que se amontoava em volta deles denunciava que não se tratavam de desconhecidos.

“Mira! Allá hay alguien importante”, apontava uma senhora, ao que outra lhe respondia, orgulhosa da informação: “Aquél és el gobernador”. Ouvir conversas em espanhol não era incomum no ambiente, onde traços faciais denunciavam a descendência e bandeiras de outros países, como Chile e Argentina, envolviam alguns manifestantes.

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Foto: Ramiro Furquim/Sul2

Apesar dos diferentes matizes ideológicos da marcha – que abrigava desde a centro-esquerda até os anarquistas -, apesar das muitas bandeiras e cores, apesar dos múltiplos brados que insistiam em reivindicar avanços na democracia brasileira, foi das nuvens que despencou o exemplo maior de igualdade.

Como não se via há muito tempo, uma chuva torrencial caiu sob o centro de Porto Alegre. O temporal deu uma aula de democracia: encharcou os ponderados e os radicais, os apartidários e os filiados, os governados e os governantes. Tarso, Villaverde e Fortunati ficaram tão ensopados quanto o resto do grupo. E, mesmo assim, continuaram.

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

A cada trovoada, aumentava o ânimo dos manifestantes, como se os pingos grossos lhes dessem energias para buscar um modelo alternativo ao capitalismo. Não havia onde se abrigar, e a própria imprensa, incluindo este que vos fala, ensopou seus pés, seus blocos, suas canetas e suas narrativas.

Apesar de intensa, a chuva durou pouco. Logo que a marcha chegou ao Anfiteatro Pôr-do-Sol, foi brindada pelo mesmo astro que lhe dá nome. Ainda sob protestos de alguns pingos que teimavam em cair, o sol recepcionou os integrantes do Fórum Social Temático, que se iniciava banhado de democracia.

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Assista o vídeo produzido pela TV Sul21 durante a marcha de abertura do Fórum Social Temático 2012:

Comentários (9)
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Comentário de: Léo Pereira | 25 de janeiro de 2012 | 6:40

Que bela matéria! Salvei-a para a posteridade.
Mais uma vez, PARABÉNS AO SUL21!

Comentário de: Cátia Cylene | 25 de janeiro de 2012 | 9:33

Belíssima narrativa!
Abrazo

Comentário de: Hemerson | 25 de janeiro de 2012 | 10:07

Excelente texto…

Comentário de: Éverton Quevedo | 25 de janeiro de 2012 | 11:51

Samir, parabéns!

Comentário de: selminha | 25 de janeiro de 2012 | 13:23

Texto inspirado e fotos muito boas, cumprimentos.

Comentário de: volmir ricardo massena | 25 de janeiro de 2012 | 13:56

É incrível o entusiasmo da hipocrisia! Enquanto comem, bebem e mamam na imensa ‘teta’ do capitalismo, (e se não fosse o capitalismo vocês jamais existiriam) os novos ricaços do pedaço, marchando e berrando por um modelo de sistema alternativo ao ‘capitalismo’.
Vamos ser coerente! Raul Pont, Tarso Genro, Beto Grill, Adão Villaverde, José Fortunati e outros hipócritas de esquerda jamais irão querer mudar o sistema capitalista por outro sistema qualquer, pois ninguém sobrevive num mundo globalizado, sem observar o que acontece ao seu redor, e digo mais, todo mundo adora ‘capital’ (dinheiro) principalmente os
hipócritas da chamada esquerda.

Comentário de: Maria Lucia | 25 de janeiro de 2012 | 14:06

Excelente a matéria e as fotos.
Parabéns!
p.s. acho que o seu Volmir Ricardo está na TPM…

Comentário de: Fatima | 25 de janeiro de 2012 | 23:32

Parabéns Sul 21, e Ramiro Furquim, não pude fotografar a marcha, então obrigada pela belas imagens.

Comentário de: Igor Corrêa Pereira | 26 de janeiro de 2012 | 9:41

Lamentável a cobertura “contra-hegemônica” do FST 2012. O Sul 21 ainda é um pouco menos tendencioso do que o site oficial do evento. A evidente distorção da Marcha em prol dos movimentos “apolíticos” é revoltante. Só tem espaço na divulgação da Marcha quem defende o meio-ambiente ou é dos chamados “novos movimentos sociais”. Existe uma predisposição a blindar qualquer ação dos chamados movimentos “tradicionais”, porque eles são feios, são políticos, e política é ruim, não é mesmo?

Vocês não mostraram uma foto da festa dos trabalhadores de várias centrais, que caíram na avenida com suas bandeiras políticas – ui, que feio, tô falando em política – políticas sim! Porque milhares de trabalhadores se mobilizaram no FST 2012 pela disputa do poder político, e isso é legítimo, não escondam isso.

Não há palavras para esconder essa blindagem pós-moderna. Parece que o “outro mundo” do Sul 21 é o mundo de Deleuze, da classe média que vai no super com sacola de pano para e toma água em caneca para proteger a natureza, que vive na Cidade Baixa e no Bom Fim de Porto Alegre.

Parece que nas fotos do Sul 21 não cabem os meninos da Escola de Samba Cruzeiro do Sul de Novo Hamburgo, ou os metalúrgicos de Caxias, ou ainda os sapateiros de Campo Bom. Eles não tem esse arzinho livre de políticas da classe média pós-moderna. São feios porque políticos. E o Sul 21 e a organização do FST 2012 só mostram o “belo”. O que é “belo” em seu “outro mundo” das múltiplas identidades da classe média.

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