Marcelo Carneiro da Cunha

Yoani não é o problema

Estimadíssimos leitoríssimos, medo, muito medo, pois que devo fazer uma visita ao meu querido RS e,  segundo me contam, reina o calor subsaariano do qual eu fugi um dia. Eu lembro daquele sentimento de abrir um forno do qual não existe fuga, e tremo, prezados sulvinteumenses. Mas de um autêntico ex-morador da avenida Mauá se espera sempre o máximo, é com essa atitude altaneira que eu pretendo desembarcar no nosso Salgado Filho e encarar os trocentos graus que nos recebem já no finger do terminal 1, cimento da pista no terminal 2, com alguma diferença térmica entre um e outro.

Enquanto isso, acaba de acabar o morno Fórum Social, pelo que li, provavelmente a única coisa abaixo dos 40 graus que passou por Porto Alegre nos últimos tempos. Sinto por ele. Eu curti intensamente o Fórum Social Mundial, muito em especial o dia em que Arundhati Roy fez desaparecer o fraco Leonardo Boff em uma nuvem de vapor e conheci Breyten Breutenbach, um autêntico opositor do apartheid aqui mesmo, na minha cidade! Aquele Fórum Social Mundial teve disso. Se ele também teve seus momentos de disneylândia de uma certa visão romântica da vida e da política, ele teve méritos inegáveis, entre eles os de colocar Porto Alegre no centro de um certo mundo e trazer para a visibilidade uma muito necessária crítica dos caminhos propostos pelo neoliberalismo fukuyâmico. Entre Leonardo Boff e Fukuyama, quanta chatice já passou por Porto Alegre, minha gente. Entre Breyten, Arundhati e Lula, quanta inteligência, caramba.

Isso passou, não resistiu à tomada da cidade pelo nadismo fogaçiano, pela dissipação daquela energia por diversos cantos menos adequados desse mundo, vasto mundo. Pena.

E agora Dilma foi a Cuba.  Yoani Sanchez recebeu a sua benção para vir ao Brasil e setores da esquerda retrógrada, que é apenas uma outra maneira de ser direita, entraram em erupção simultânea, informando a todos nós que Yoani não passa de uma falsa, traidora, agente da CIA.

Por que tanta ebulição, estimada direita arcaica? Qual o problema com Yoani? Ela não gosta do regime, que obviamente não gosta dela, e daí? Não é permitido a um cubano não gostar do regime castrista? Se qualquer brasileiro pode sentir o que quiser pelo sistema brasileiro, por que isso seria negado a um cubano? Os brasileiros são melhores do que os cubanos? Mais merecedores desse bem intangível chamado liberdade de fazer e achar o que bem entender? Brasileiros que lutaram contra a ditadura são bons, cubanos que fazem a mesma coisa são maus? Cuba não é um país sob um regime autoritário, como o Brasil o foi?

Eu acho que tudo, incluindo assuntos de Zeppelin e traseiro de moça, como diria José Cândido de Carvalho, é tema e válido. Podemos discutir defeitos e méritos do nosso sistema como conhecedores e vivenciadores dele. Podemos debater os outros sistemas como visitantes externos ou curiosos. Yoani, até quanto eu sei, vive em Cuba e é cubana. Ela não pode opinar sobre o que vive e conhece por ser contra?

Eu nunca fui a Cuba e não pretendo ir. Depois de experimentar os regimes do leste europeu eu resolvi nunca mais ir até sistemas que me lembram de uma enorme agência do Banrisul, com o agravante de o gerente, qualquer gerente, poder cancelar o seu CPF por quaisquer motivos, inclusive os mais estúpidos.

Portanto, não opino de maneira pessoalmente informada sobre Cuba e seu regime, mas tenho sim sensações a seu respeito, em especial por ser um sujeito de esquerda. Sujeitos de esquerda detestam sistemas autoritários e não democráticos, e detestam sistemas dos quais os cidadãos não possam sair. Eu provavelmente adoraria Cuba e seus cidadãos, e detestaria seu regime autoritário e anacrônico e por conta disso, como verdadeiro ser de esquerda, eu acabaria preso.

Se quiserem saber mais, leiam essa entrevista de um amigo venezuelano e muito sério, Leo Felipe Campos, que por sinal, nesse momento, está no Brasil.

Dilma deu o visto para Yoani. Somente a nossa presidente poderia tomar essa decisão. Não foi Antonio Patriota ou alguém do segundo escalão do Itamaraty, foi Dilma Rousseff, ela mesma. O que isso quer dizer, é claro. Se uma cidadã latino-americana é convidada a vir ao Brasil, que venha, estamos prontos a receber a todos. Não precisamos proteger o tadinho do regime cubano. Se o respeitamos, precisamos acreditar que ele seja verdadeiro o suficiente para ser maior do que as críticas a ele. Se não acreditamos nele, não devemos ter medo de quem o apóia. O que devemos sim é entender que os cubanos são donos deles mesmos, e deveriam ser donos do seu país. Devemos ser solidários para com os cubanos, todos eles, os que apóiam e os que não apóiam o regime, porque todos vivem nele, querendo ou não. Devemos ser solidários para com todas as pessoas, cubanas ou não, que vivem em regimes que não permitem a elas escolher o seu governo, porque já vimos como é viver assim, e claramente não gostamos. Devemos respeito a todos os cubanos, por respeito a nós mesmos, a todos nós que sabemos da importância da liberdade sobre praticamente tudo.

Devemos a Yoani o respeito básico de admitir que ela é o que diz ser, uma mulher que construiu a sua própria plataforma para dizer simplesmente o que pensa. Negar a ela esse respeito, passar para esses ataques estúpidos e desnecessários é simplesmente afirmar a inferioridade moral e intelectual de quem os pratica. Yoani não tem nada com isso, nem nós deveríamos ter. Simples assim, simples assim, e mais nada.

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Comentários (32)
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Comentário de: Felipe X | 1 de fevereiro de 2012 | 9:32

Excelente análise sobre esta questão da Yoani. Só me impressionei com a frase “esquerda retrógrada, que é apenas uma outra maneira de ser direita”. Não, é uma maneira de ser esquerda que sempre existiu e já teve muito poder.

Comentário de: Gianfrancesco | 1 de fevereiro de 2012 | 11:06

O cara não é nem solidário com o estado em que viveu, está sempre arrumando uma picuinha, demonstrando um rancorzinho, alterando fatos, questionando situações sem as devidas informações, apenas pelo bel prazer de criticar – não se sabe com que intenção – e vem demandar respeito, solidariedade e aceitação. Vai te deitar, magrão.

Comentário de: Fernando | 1 de fevereiro de 2012 | 12:51

Hehehehehe…Vai desabar Edifício Copan na cabeça do Marcelo agora depois deste artigo, e vai ser a “direita” quem vai remover as colunas.

Comentário de: Nando | 1 de fevereiro de 2012 | 14:56

Belo texto, cara! Racional e sem esquizofrenia.

Mas concordo com o Felipe X.

Comentário de: caio flavio | 1 de fevereiro de 2012 | 16:24

Esse cara tá salvando o site com os artigos dele.

Comentário de: Celso | 1 de fevereiro de 2012 | 16:31

Está na Folha de S. Paulo (o sonho de emprego do MCC em Sampa) de hoje: O escritor Fernando Moraes afirmou que “é sabido que o blog de Yoani Sánchez é mantido no servidor do dono de uma empresa alemã que contrata pugilistas cubanos desertores.”
Com o acelerado processo de direitização extremada do colunista, típico dos migrantes jecas deslumbrados por morar e trabalhar na Pauliceia desvairada e depravada, aguardemos textos do colunista em defesa do ultracatólico governador paulista e de sua ardorosa, pacífica e incorruptível Polícia Militar. Manda um texto aí de SP falando do Pinheirinho, da cracolândia ou da privataria tucana.
CRITICAR A ESQUERDA RETRÓGRADA É APENAS A ENVERGONHADA MANEIRA DE SER DIREITA MILITANTE.

Comentário de: Fernando | 1 de fevereiro de 2012 | 17:05

Hehehehehehe…não disse?? O Celso já começou…

Comentário de: caio flavio | 1 de fevereiro de 2012 | 18:00

Certo, Celso. Não podemos criticar a esquerda retrógrada. Muito menos a esquerda. Só a direita.

E devemos, sim, acreditar piamente no escritor Fernando Morais, um notório ex-militante ARDOROSO do Dr. Orestes Quércia, não preciso nem comentar, e do Dr. Fleury Filho (aquele mesmo do “Massacre do Carandiru”, uma espécie de “Pinheirinho” da época).

Dr. Morais que é absolutamente coerente em sua defesa de CUBA, afinal, quem participou – como secretário – de um governo que ordenou o extermínio de um presídio inteiro, sem sequer corar, não deve lá dar muita importância para os Direitos Humanos – a “geni” brasileira – mesmo.

Tá certo o Marcelo: pau na esquerda que fede a mofo e no conservadorismo gaudério. Aliás, duas coisas que, muitas vezes, vêm, para nossa desgraça, misturadas no mesmo “pacote” discursivo.

Comentário de: caio flavio | 1 de fevereiro de 2012 | 18:20

“Devemos a Yoani o respeito básico de admitir que ela é o que diz ser, uma mulher que construiu a sua própria plataforma para dizer simplesmente o que pensa. Negar a ela esse respeito, passar para esses ataques estúpidos e desnecessários é simplesmente afirmar a inferioridade moral e intelectual de quem os pratica.”

Perfeito. É isso aí. E pau na esquerda tosca, conservadora, bitolada e acrítica que, com suas besteiras contra Yoani, demonstra, para alegria da direita, grande “inferioridade moral e intelectual” (pra não dizer outra coisa, mas vamos manter a elegância do colunista).

Comentário de: Ary | 1 de fevereiro de 2012 | 19:33

Raúl Castro deveria dar um pontapé no ânus daquela bunda-mole e jogá-la dentro de um barquinho para nuinca mais voltar à Cuba. A farsante não merece pisar aquelas areias.

Comentário de: Fernando | 1 de fevereiro de 2012 | 20:14

Ary…reeditando…Ame-o ou Deixe-o.
Quer me chutar do Brasil também?

Comentário de: carlos cordoves | 1 de fevereiro de 2012 | 21:49

VMarcelo Carneeiro

Yoani não é o problema

Parabens Marcelo, as dito aos extremistas comprometidos o que se les deve decir ,

A derecha em cuba não é a oposição, são os DITDORES CASTROS que continuam aferrado ao poder por mais de 50 ano de forma não legitio(sem eleções, com corrupção, com racismo de pele e de sexo, diseminnado a dupla moral entre o povo, diseminando a fome etc)

A esquerda os REVOLUCIONARIOS e a oposição, a dissidencia, os presos politicos , o povo de apé que não pode decir nada pois não existem meios como o brasil como Journais, radio, TV, internet etc) E a pesar de tudo existe oposição, dissidencia medicos, engenheros , obreros , negros, brancos, mistos, chinês etc

Yoani, nada temm que ver com a CIA como estos estremos esquerdistas jovenes e velhoestudaram em cuba o por meio dos agentes dos consulados e embaixada cubana em brasil quando visitan o sul o o pais

Por ultimo, e bom que se sepa que a maioria destos jovenes esquerdistas e velhos da velhab guarda estão totwlmenye comprometidos com sos ditadores pois han visitados , estudiao em faaculdades explorando o povo cubano, graça aos convenios que seus partidos e seus organizaçãoes tem desde 1980 com a ditadura dos castros, por isso não podem nem jamais falaram que os castros são ditadores, autoritarios, limitadores de liverdades ,racistas ,represivos, injustos. abusadores co seu povo, mentirosos, corruptos (fazzem com o dihero de cuba o que desejam e não dão conta a nem guem nem em congresso jamias nos mais dos 53 anos .
So menos do 5 % dos cubanos tem permisso para usar internet (censurada e revisada por os castro),e deste %, um 99 % são as pessoas que trabalham e estam comprometidos com a ditadura .Soamente menos de 800,000 cubanos são do partido comunista y gobernan a mais de 11 1/2 milhões de cubano sem eleções democraticas .Os dirigentes , os prefeitos, os governadores são indicados por o npartido e não existe possivilidade de introducir na candidatura a otras pessoas , este e o counismo o socialismo do seculo XXI que isa esquerda extremista e pro castrista ditadora quere para o brasil ? para os gauchos ? ese é o pais que antes de 1959 era autosuficente em alimento e exportaba para america latina e caribe e maior produtor de cana do mundo com a melhor tecnologia e ahora e um desastre, produze aqtualmente açucar a nivel do ano 1905 (dois milhhões de toneladas metricas ) .Pais que existiam 173 usinas e agora menos de 33 . Senhores o bloqueo pior de cuba é o estabelecido os ditadores castro ao povo de cuba em estos 53 anos
esta esquerda são os que a maioria estudam medicina , chirando as vagas aos cubanos, estudam estudos politicos nas escolas dos sindicatos, do partido comunistas, nas escola militares e de seguridade do estado(dedo duro) etc etc

Por isso estaraão por toda sua vida defender os ditadores e atuar com as mesmas definições e carimbo que os diitadores falam e eles aqui no sul do pais eles REPETEM em seus atividades politicas

Graçãs a deus o verdadeiro povo cubao de apé sabe quais brasileiros são pro ditadores equai defendem a liverdade e a democracia de cuba

Parabens !

Comentário de: Ary | 1 de fevereiro de 2012 | 23:19

Gostei, Celso! A gusana bem que poderia cavar um lugar ao lado do AN na in(Veja).

Comentário de: Sonia Montenegro | 2 de fevereiro de 2012 | 3:12

Discordo!!!
É importante divulgar quem ela é. Se não fosse o ‘tapete vermelho’ que a imprensa colonizada brasileira faz em torno dela, poderia e deveria ser ignorada, mas não é o caso, portanto, é importante sim, dizer quem ela é!!!

Comentário de: Nara | 2 de fevereiro de 2012 | 7:40

YOANI NÃO É PROBLEMA…. apenas pessoas que residem em Sampa e veneram o PSDB e a sua forma tirana de lidar com os sabidamente mais humildes. Morei em São Paulo por 13 anos e jamais me deixei levar pelo conservadorismo que rege os paulistas. concordo com CELSO.

Comentário de: Celso | 2 de fevereiro de 2012 | 9:28

Para que não admite citação de Fernando Morais e para quem é leitor da imprensa imparcial (Zero Hora, Veja, Folha de S. Paulo, etc) segue artigo e entrevista patética com Yaoni Sanchez, a nova musa da direita paulistana e dos ex-gaúchos convertidos em neopaulistanos assimilados:
http://www.blogcidadania.com.br/2012/02/a-ditabranda-de-yoany-sanchez/

Comentário de: Franklin Cunha | 2 de fevereiro de 2012 | 12:02

Na hora de falar do massacre de Pinheirinhos ( e de Carandiru e do estado que elege sistematicamente Maluf e outros pilantras) o cara está preocupado com uma jornalista mercenária e com a liberdade do povo cubano.
Não faz jus ao sobrenome.
Leiam a entrevista citada por Celso e vejam quão primária e falsa é a tal jornalista.

Comentário de: Jose Olavo | 2 de fevereiro de 2012 | 12:24

Recomendo a leitura da entrevista que a blogueira cubana concedeu a o jornalista frances Salim Lamranium, e que foi publicada hoje no blog do Eduardo Guuimarães. A entrevista é longa e é imperdível

Comentário de: MCC | 2 de fevereiro de 2012 | 14:04

Esse atormentador de palavras e leitores não pode deixar de corrigir um equivoco factual: o sobrenome do colunista, Carneiro da Cunha, é de nobre e antiga linhagem desconhecida e sem qualquer mérito, mas é certamente um nome apenas, composto de duas partes indissociáveis. Não há qualquer relação com Carneiros e Cunhas, que, igualmente nobres e ilustres, vivem soltos pelo mundo, sem qualquer parentesco com esse que os atormenta e elege livremente os seus temas, sem qualquer preocupação com o que seja momentaneamente desejável ou desejado.l
Atenciosamente,
MCC

Comentário de: Marcos | 2 de fevereiro de 2012 | 15:17

A moça já saiu e voltou, onde ela vai arrumar uma boquinha como essa? Talvez na folha para falar mal da Dilma, mas a folha não paga tão bem assim.

Comentário de: PAULO TIMM | 2 de fevereiro de 2012 | 16:08

Aos que quiserem ler a interessante entrevista da blogueira ao jornalista frances Salim Lamranium com artigo de introduçao de LUCIO DE CASTRO, vai aí a dica:

http://www.torres-rs.tv/site/pags/almanaque2.php?id=1519

Comentário de: Marcelo Tskin | 2 de fevereiro de 2012 | 21:30

Depois são os “direitistas” que ficam “raivosos” com opiniões divergentes hehehe

Comentário de: Claudia | 2 de fevereiro de 2012 | 22:15

Pelo menos é um parâmetro. Sua posição fica clara, concordar ou discordar é apenas pontual.
Refletir é o mais importante.
Tamém concordo como Celso.

Comentário de: Eugênio | 3 de fevereiro de 2012 | 3:40

Estava em busca dessa entrevista que tinha lido a uns dois ou três anos atrás. Obrigado Celso. http://www.blogcidadania.com.br/2012/02/a-ditabranda-de-yoany-sanchez/
É uma obra prima de jornalismo. Deveria servir como uma espécie de manual para uns e outros que escrevem pelos cotovelos, sem nenhum compromisso factual, movidos apenas pelo auto deslumbramento e pelo desejo de criar falsas polêmicas.
É interessante ver como o jornalista francês Salim Lamranium vai quebrando um a um os ossinhos da tal “blogueira”, usando informações que ela não consegue contestar. De contradição em contradição, Yoany vai sendo desnudada até as vísceras e o que acaba se revelando é uma pessoa tosca e oportunista.
Independentemente de posição ideológica ou de simpatias por essa ou por aquela personagem, é importante a leitura dessa longa entrevista para entender o que é jornalismo de verdade e o que é enganação. Isso, é claro, se as pessoas tem algum interesse em tratar das questões com um mínimo de seriedade.
A entrevista tem várias passagens interessantes, como a do Obama, o financiamento da “oposição” e o financiamento da própria “blogueira”. Mas para mim o ponto alto é o momento em que ela é confrontada com o papel que Cuba desempenhou no fim do regime segregacionista da África do Sul. A isso a “blogueira” responde com um “mas muitos cubanos morreram por isso, longe de sua terra”. Mais adiante, indagada sobre Possada Carriles, terrorista a serviço e protegido dos EUA, que colocou uma bomba num avião cubano, matando 70 pessoas, sua resposta foi: “é um tema político que não interessa às pessoas. É uma cortina de fumaça”. Estranha e contraditória resposta para quem manifesta tamanha preocupação com seus compatriotas. Ao que parece, todas as mortes de cubanos devem ser lamentadas, desde de que não sejam causadas por um assassino a mando dos EUA.
Logo a seguir, ao ser indagada pelo jornalista sobre se condenaria tais atos terroristas, ela responde: “Condeno todo ato de terrorismo, inclusive os cometidos atualmente no Iraque por uma suposta resistência iraquiana que mata os iraquianos”. Ao que Salim Lamranium contrapõe: “Quem mata os iraquianos? Os ataques da resistência ou os bombardeios dos Estados Unidos?” A resposta da “blogueira” a essa pergunta vem sob a forma de um singelo “não sei”. Uma resposta e tanto… para quem é formada em filosofia, segundo o amigo venezuelano do estimado colunista sulvinteumense. Essa, senhores, é Yoany Sanchez.
A rigor, a tal “blogueira” não teria a mínima importância mesmo, não fossem os interesses que a sustentam e os falsos polemistas na sua obsessão de atrair a atenção dos holofotes.
Mas, falsas polêmicas e holofote a parte, nem tudo está perdido, pois nosso estimado colunista, num lampejo de autocrítica que causaria inveja aos comunas do velho partidão, definiu-se como um “atormentador de palavras e leitores”. I-r-r-e-t-o-c-á-v-e-l.

Comentário de: Elson | 3 de fevereiro de 2012 | 18:07

É simples, senhores. Independente de qualquer coisa, de todo o viés de nossas e vossas análises, o dado concreto é que a blogueira, como praticamente toda a população da ilha, não pode exercer o básico direito de ir e vir. Tem que pedir permissão para sair de seu país! É refém de seu governo. Só esse dado diz tudo.
O resto é a boca torta do cachimbo ideológico de uma pretensa esquerda.

Comentário de: Paulo Cruz | 3 de fevereiro de 2012 | 18:20

Sou de esquerda, lutei pela democratização do pais no início dos anos 80, e por isso e da mesma forma me sinto embasado para concordar e apoiar esta BRILHANTE análise de conjuntura.
Parabéns Marcelo Cunha.

Comentário de: Elson | 3 de fevereiro de 2012 | 19:06

Fui ler a entrevista recomendada aqui. Dá pena, a blogueira é realmente massacrada, e se vê sua falta de bagagem política e até de formação/informação histórica. Agora, a entrevista não é nenhuma modelo de bom jornalismo como apontado aqui. Há momentos que se vê o jornalista discorrer muito mais, cheio de dados, se impondo à entrevistada. Ele foi à entrevista de maneira preconcebida, determinado a conseguir os resultados que lemos.
Não sei se conscientemente, mas é evidente que a blogueira é joguete de interesses anticastristas. Agora, nada deveria impedir seu direito de criticar o regime.
Ao impedir sua saída o regime castrista só potencializa mais ainda o nome da blogueira e tudo relacionado…

Comentário de: Eugênio | 4 de fevereiro de 2012 | 3:54

Leiam tudo, mas especialmente o último parágrafo.
A ‘promoção da democracia’ à moda EUA
31/1/2012, Mark Weisbrot, Guardian, UK
http://www.guardian.co.uk/commentisfree/cifamerica/2012/jan/31/american-democracy-promotion-rings-hollow

Não consegui não rir, ao ver o International Republican Institute (IRI) apresentado na imprensa internacional como “organização que promove a democracia”[1]. O IRI voltou agora às manchetes, porque o governo militar do Egito incluiu alguns de seus agentes numa lista de pessoas proibidas de deixar o país, o que significa que permanecem no Egito, e poderão ter sua vida e suas atividades investigadas e talvez sejam processados[2]. É quase inacreditável que haja jornalistas e editores ou tão crédulos ou tão mal informados. Se eu descrevesse o Center for Economic and Policy Research[3] como “organização de magia que converte sucata em ouro”, será que, dia seguinte, minhas palavras estariam nas manchetes, como descrição padrão do Centro onde trabalho?

O IRI é o braço internacional do Partido Republicano dos EUA.

Quem tenha estômago para assistir aos debates entre candidatos Republicanos, dificilmente acreditará que o IRI, do mesmo partido, algum dia promoveu ou promoverá alguma democracia.

Basta examinar o histórico dos movimentos do IRI, para saber do que se trata: em 2004, o IRI teve atuação destacada no golpe que derrubou o governo democraticamente eleito do Haiti[4]. Em 2002, o presidente do IRI celebrou publicamente o golpe militar (de curtíssima duração) que derrubou o governo democraticamente eleito da Venezuela[5]. E o IRI também atuava com grupos e indivíduos envolvidos no golpe.

Em 2005, o IRI esteve envolvido num esforço para modificar a legislação eleitoral no Brasil, para enfraquecer o Partido dos Trabalhadores, PT, partido do então presidente Lula da Silva[6].

Mais recentemente, em 2009, houve um golpe militar contra o governo democraticamente eleito de Honduras. O governo Obama fez o que pôde para favorecer o golpe e os golpistas[7], e apoiou “eleições” em novembro de 2009, para legitimar o governo dos golpistas. O resto do mundo – até a Organização dos Estados Americanos (OEA), pressionada pelas democracias sul-americanas – recusou-se a enviar observadores para emprestar legitimidade àquelas eleições. Houve repressão antes das eleições[8]: violência policial, ataques contra a mídia independente e o exílio forçado de opositores políticos, entre os quais o presidente democraticamente eleito.

Mas o IRI e o National Democratic Institute (NDI) – organização semelhante ao IRI, mas do Partido Democrata dos EUA – lá estavam, em Honduras, para legitimar a eleição-farsa. Ninguém precisa acreditar em mim. Aqui vai o que disse a USAID, agência do Departamento de Estado dos EUA e principal mantenedora e financiadora das atividades do IRI e do NDI, sobre o que foram fazer em Honduras (pdf[9]):

“A ausência da OEA e de outros grupos reconhecidos de observadores internacionais tornou ainda mais significativo, aos olhos da comunidade internacional, o trabalho de avaliação e observação realizado pelas nossas organizações NDI e IRI. A validação de um processo eleitoral livre, justo e transparente é forte argumento de apoio ao novo governo. […] A “convalidação” internacional pelo NDI e a “observação” pelo IRI, embora não preencham todos os padrões aceitos, alcançaram, pelo menos em parte, o impacto desejado.”

Sabe-se lá o que o IRI está fazendo agora no Egito. Mas sabe-se o que os EUA fizeram no Egito, ao longo de décadas: apoiaram uma ditadura brutal, até que as multidões nas ruas sugeriram fortemente que Washington não conseguiria impedir que Mubarak fosse derrubado, ano passado, por um movimento democrático real e popular.

Essas organizações, o IRI do Partido Republicano e o NDI do Partido Democrata dos EUA integram a National Endowment for Democracy, organização dedicada a atividades que “muitas delas” são “clandestinamente financiadas pela CIA” – como escreveu o Washington Post, quando a NED estava sendo criada no início dos anos 1980s. Algumas vezes, essas organizações apoiam a democracia, mas na maioria dos casos, não; e não raramente trabalham contra a democracia. Não porque sejam organizações inerentemente ‘do mal’, mas por causa da posição dos EUA no mundo. O governo dos EUA, mais que qualquer outro governo contemporâneo, governa um império. Por sua própria natureza, impérios têm a ver com manter o poder e controlar povos em terras distantes. Esses objetivos dos impérios muito frequentemente estarão em conflito com as aspirações democráticas e os anseios por autodeterminação dos diferentes povos.

Em nenhum outro ponto do mundo isso é hoje mais visível que no Oriente Médio, onde a política de sucessivos governos dos EUA, de colaborar com Israel e negar os direitos nacionais dos palestinos, continua a pôr os EUA em aberta oposição às populações locais. Resultado disso, Washington teme a democracia no Oriente Médio, porque ela fatalmente gerará governos eleitos que cerrarão fileiras com os palestinos e contra as ambições dos EUA na região (contra, por exemplo, a construção de bases militares e a permanência, lá, de exércitos norte-americanos). Mesmo no Iraque, onde Washington não se cansa de repetir que derrubou um ditador sanguinário, o povo teve de continuar resistindo aos exércitos de ocupação, até haver eleições e, afinal, conseguir expulsar de lá os soldados dos EUA.

Cria-se assim um círculo vicioso, no qual ditadores odiados apoiam as políticas dos EUA e, por sua vez, são apoiados pelos EUA, o que só faz aumentar a animosidade regional contra os EUA. Em alguns casos, essa animosidade levou a ataques terroristas contra instituições e cidadãos norte-americanos, o que foi então rapidamente usado pelos governantes para justificar longas guerras ou guerras intermináveis (por exemplo, no Iraque e no Afeganistão). Pesquisa de opinião pública árabe, realizada pela universidade de Maryland e pela Zogby International, e que incluiu o Egito, pedia que os respondentes citassem “dois países que mais o ameaçam diretamente”: 88% citaram os EUA; 77%, Israel; só 9% citaram o Irã.

Outro efeito danoso do patrocínio que os EUA garantem à “promoção da democracia” é que ajuda governos que nada desejam além de reprimir e fazer calar movimentos locais autênticos, eles, sim, pró-democracia. A maioria dos governos repressivos no Oriente Médio e no Norte da África, sempre que precisaram deslegitimar a oposição, acusaram-na de cumplicidade com Washington, acusação muitas vezes sem qualquer fundamento, mas nem por isso menos desmoralizante.

Aqui em Washington, poucos parecem dar-se conta de que os grupos que “promovem a democracia” custeados pelo governo dos EUA já não têm qualquer credibilidade, em praticamente todo o planeta. Mas é fato, e acontece mesmo quando um ou outro grupo não esteja trabalhando ativamente contra algum governo democrático.

Sempre que se cogitar de cortar gastos públicos nos EUA, boa ideia será começar por cortar o financiamento, com dinheiro público, a grupos e ONGs [e a blogueiras fascistas] dedicados a “promover a democracia” onde não fazem falta nem são bem-vindos.

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[1] Por exemplo, em http://www.npr.org/blogs/thetwo-way/2012/01/26/145921407/americans-barred-from-leaving-egypt-include-secretary-lahoods-son

[2] Em http://www.guardian.co.uk/world/2012/jan/30/americans-barred-egypt-cairo-embassy

[3] Em http://www.cepr.net/

[4] Em http://www.nytimes.com/2006/01/29/international/americas/29haiti.html?pagewanted=all

[5] Em http://www.nytimes.com/2002/04/25/international/americas/25VENE.html

[6] Em http://www.cepr.net/index.php/op-eds-&-columns/op-eds-&-columns/why-washington-cares-about-haiti-honduras

[7] Em http://www.cepr.net/index.php/op-eds-&-columns/op-eds-&-columns/obamas-continuance-of-bush-policies-in-latin-america-is-a-serious-mistake

[8] Em http://www.cepr.net/index.php/press-releases/press-releases/honduran-elections-marred-by-violence

[9] Em http://pdf.usaid.gov/pdf_docs/PDACQ723.pdf

Comentário de: Eugênio | 4 de fevereiro de 2012 | 4:19

Elson

Essa entrevista é um exemplo de bom jornalismo sim. Por que não seria? O jornalista teve de discorrer mais do que a “blogueira” em alguns momentos, para mostrá-la como a farsante que é. E é óbvio que ele foi a entrevista para desmascará-la, municiado com toda a informação possível sobre a entrevistada. Bom jornalismo se faz assim, com provas.
Ontem assisti uma entrevista na Rádio Cultura FM com o autor do livro sobre a privataria tucana. Esse jornalista enfatizava exatamente isso, ou seja, dizia que tudo o que ele afirmava estava documentado por provas.
No mais concordo com vc. Acho que Cuba deveria permitir a saída dessa farsante, para que ela se desmoralize de vez. Será igual ao caso dos “marielitos”, que liberados pela “tirania” castrista, ao chegarem a “terra da liberdade”, foram todos confinados em campos de concentração na Flórida (com arame farpado e tudo) e devolvidos a Cuba, depois de negociações que essa mídia salafrária, que fala tanto em liberdade, nunca fez questão de divulgar.

Comentário de: otoni | 4 de fevereiro de 2012 | 19:43

é isso ninguem deve discordar do autor do texto pois seremos da velha esquerda autoritária, sensacional.Uma ode a democracia. E depois de ver o leste europeu , que mesmo sendo leste, é como o nome diz europeu, não devemos mesmo acreditar em nada do que venha de uma ilhotinha do mar do Caribe a qual os americanos tanto desprezam que nem embaixada tem lá.

Comentário de: Celso | 8 de fevereiro de 2012 | 10:20

Encerrando minha participação na coluna PIG do Sul21:

A blogueira cubana Yoani Sánchez é colaboradora do Instituto Millenium, entidade financiada por um grupo de grandes empresas de comunicação (Estado de São Paulo, Abril e RBS) e de outros setores (Gerdau, Vale, Suzano, entre outras), para defender os valores liberais no Brasil. Entre eles, segundo informa o site da entidade, destacam-se a eficiência, a economia de mercado, a responsabilidade individual, a propriedade privada e a meritocracia.
Apresentada como webmaster, articulista, editora do portal “Desde Cuba” e criadora do site “Generación Y”, Yoani Sánchez faz parte do seleto grupo de colaboradores do Millenium que reúne nomes como Reinaldo Azevedo, Denis Rosenfield, Ali Kamel, Merval Pereira, Marcelo Madureira, Carlos Alberto Sardenberg e Carlos Alberto Di Franco, um dos integrantes mais ilustres da Opus Dei no Brasil.
Apesar de se apresentar como “apartidário”, o Instituto Millenium teve uma participação ativa na campanha presidencial de 2010 no Brasil. Em março daquele ano, em seminário promovido pelo instituto em São Paulo, representantes de grandes empresas de comunicação do país afirmaram que o PT é um partido contrário à liberdade de expressão e à democracia e que, se Dilma fosse eleita, o “stalinismo seria implantado no Brasil”. “Então tem que haver um trabalho a priori contra isso, uma atitude de precaução dos meios de comunicação. Temos que ser ofensivos e agressivos, não adianta reclamar depois”, disse na época o ex-cineasta Arnaldo Jabor.

Publicado hoje no blog O Esquerdopata

Comentário de: Marco | 11 de fevereiro de 2012 | 1:13

Coitada dessa menina…

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