Cláudia Rodrigues
Volta às aulas sem neuras
Inevitável que haja alguma ansiedade vinda das crianças na volta à s aulas. Perceber nossa própria ansiedade e administrar atitudes a fim de preservar os pequenos dos excessos de projeções culturais pode ser uma saÃda saudável o bastante para um reinÃcio de ano letivo tranqüilo.
Quando a ansiedade das crianças é enfrentada pelo adulto com resolução de compras, aquela correria em busca da mochila Y, do estojo X, da perseguição obcecada à lista da escola, a tendência é que aumente o sentimento de desamparo e suspense vivido pelas crianças. Consumismo não é a melhor solução para nossos problemas internos, a saÃda não está fora de nós. O que a criança deseja nos dias que antecedem a volta à s aulas é atenção de fato, conversa, aterramento, um fazer e estar juntos na calma do lar religando o ano que passou ao que vai começar, espaço para ser, sentir, revelar-se.
Muitos adultos julgam que a criança deve ter a cada ano uma mochila nova, uma lancheira nova, tudo estalando de novo no inÃcio do ano letivo. Eles reforçam assim os valores de corte e deslocam a continuidade para um segundo plano, o que atiça o medo do novo, natural em todos nós e mais intenso na infância. Muitas vezes não queremos ouvir de fato o que há por trás daquela manha por uma determinada cor ou marca de mochila e acaba sendo mais fácil atender à s demandas da casca da coisa toda. Vira um imbróglio de atendimentos a vontades e os desejos permanecem enterrados – pior do que isso, diminuÃdos. “Mas menino já não ganhou tudo o que queria, por que essa cara emburrada afinal?â€
O que falta e ajuda a criança a encarar o novo ano com serenidade, segurança, confiança e alegria, não se compra, não tem preço, mas exige tempo e espaço para ser, pensar, produzir em relação. Os pequenos podem se beneficiar bastante da reutilização e reaproveitamento de materiais do ano anterior. Macroecologia e microecologia andam juntas, formam uma parceria integrada, equilibrada.
Pode ser à noite, depois do trabalho. Em vez de a mãe aparecer de superpoderosa na porta com as novidades já compradas, jogando o ano anterior inteiro no lixo ou prometendo a viagem às pressas até a papelaria para o dia seguinte, ambas as atitudes investidoras de mais ansiedade, pode apenas sentar com as crianças e começar o trabalho de processamento da ansiedade. Nada pode ser mais enervante para uma criança do que uma mãe sempre correndo atrás das providências e circunstâncias sem tempo para estar, ficar, deixar fluir.
Enquanto pais, mães e filhos apontam lápis ainda bons, arquivam cadernos, riscam itens da lista, inevitavelmente surgirão falas dos pequenos sobre suas recordações do ano anterior, medos, sonhos a realizar, boas e más lembranças. E é assim, vendo a cara da mãe concentrada no lápis ou a careta feia quando a enésima ponta quebra bem na hora perfeita, ouvindo o que ela diz, as histórias que conta dos seus tempos de infância, que as crianças relaxam, desinflam de suas ansiedades e vão sentindo-se mais fortes e mais aptas para enfrentar a novidade de dentro para fora.
Muitos pais e mães julgam que a criança cercada de objetos novos e reluzentes se sentirá mais protegida, por isso investem tanto em consumismo. Julgam que a mochila do Ben 10 – 2012 servirá como uma armadura contra eventuais ataques, que a mochila da Barbie 2012 entrará com tudo para que a menina se sinta a melhor. É uma pena porque funciona ao contrário: o que mais desejam esses pais de bom para seus filhos são o que menos alcançam. Na busca por dar vitórias compradas retiram das crianças o direito à s subjetividades. Fica difÃcil para a criança desenvolver sentimentos de incomparabilidade, unicidade.
A volta à escola, vista e vivida por pais e crianças como uma arena de disputas de ego entre pessoas-coisas, enfraquece os melhores sentimentos do ser humano e enaltece os piores. Não, não estamos falando de caráter, de ser bom ou mau, maniqueÃsmos, mas da sensação de bem-estar interna, auto-estima, da antÃtese do pânico em relação ao outro, em relação ao mundo.
O recheio humano interno sólido não é apenas incomprável, pode ser atrapalhado pelo excesso de consumo e é o que ocorre com muita frequência nas escolas privadas, embora as públicas não estejam totalmente de fora dessa realidade.
O medo é o guia por trás da necessidade de consumir e quanto mais medo, mais ansiedade, mais investimento nas aparências e nas coisas que adornam as projeções em cima das crianças, maior a tendência da vida interna singularizada se reduzir. Quanto mais crescem as coisas em torno da criança, menor e mais desamparada ela se sente de fato em seu mundo Ãntimo.
Reciclar, reutilizar e reaproveitar material escolar não é apenas uma questão de consciência ambiental externa, coisa de natureba, gente mão-de-vaca ou duranga. Nos bastidores dessas atitudes ambientalmente corretas há confortos para a alma e fortalecimentos de relações que viemos perdendo desde que a obsolescência planejada pelo mercado chegou achacando o tempo e o espaço para o Ser.
Comentários (4)
» Deixe seu comentárioClaudia, por conta de sua coluna sobre dormir ou nao com o bebe, comprei seu livro e gostei bastante. Gostaria de saber se voce tem outras indicacoes de livros relacionados a crianca dentro da linha de Reich , Lowen, etc.
Tambem gostaria de saber se vc conhece algum ligar no RS que promova cursos, workshops ou palestras nessa linha.
Abracos
Olá Gustavo, muito grata. Reich escreveu vários livros, alguns já traduzidos para o português. Análise do Caráter é seu livro mais completo, incontestável mesmo no meio psicanalÃtico. Escuta- Zé Ninguém é um excelente livro também, ele ele o escreveu na cadeia, foi preso a mando da FDA. É uma viagem esse livro, muito contestado, absolutamente não-acadêmico, mas de grande poder reflexivo. A Função do Orgasmo é bastante interessante também. Reich foi amigo pessoal de A.S Neill, da Summerhill. Muito amigos, trocaram ideias, mas Reich era ainda mais libertário e havia diferenças entre eles. Mais tarde, Elsworth Baker foi quem melhor, na minha opinião, traduziu o que Reich pensou sobre educação. A ideia reichiana básica é de prevenção de neurose dos adultos e não de trato na criança. Para Reich a criança nasce livre, sadia e vai sofrendo marcas impostas por uma sociedade adulta ignorante do ponto de vista emocional.
Estou tentando dar um curso em Porto Alegre sobre educação-prevenção de neuroses entre 0 e 6 anos- uma abordagem reichiana para escolas. Já enviei o projeto para várias das poucas que considero mais libertárias, mas ainda não obtive retorno.
Mudei para Porto Alegre em março último e até agora só conheci a professora aposentada da psicologia da PUC-RS Reolina Cardoso, muito simpática. O trabalho reichiano ainda é visto como perigoso, há muitos tabus sobre o corpo e as ideias libertárias de Wilhelm Reich em pleno 2012. As psicologia voltada para atender a necessidade dos pais e “consertar” as crianças ainda é a psicologia que se adequa melhor ao status quo, por razões óbvias.
Acaba sendo muito desconfortável para pais e professores encarar a própria forma, o próprio conteúdo e suas projeções no corpo infantil. Enfim, vamos aguardar que alguma escola se interesse em tratar pais e professores para que tenhamos crianças mais livres, serenas e criativas.
Oi Claudia!!! Bom demais esse texto. A mãe ou o pai apontando o lápis, encapando o caderno e aquela sensação de segurança gostosa e hj parece que as crianças não tem mais esse privilégio, ou algumas ainda tem talvez, é , é possÃvel que algumas crianças tenham sim, mas a maioria está mesmo no outro caminho, as mochilas da moda, tudo da moda e o pior, a maioria dos materiais ilustrados com os personagens da Disney.
Acredita que já é um hábito procurar os seus textos? No final da noite eu venho aqui procurar aqueles que ainda não li, só para ter o prazer de ler algo que me faz muito bem!!!Esse eu quero encaminhar para a diretora de uma escola que conheço, lá de Monte AprazÃvel.
Parabens pela clareza do texto e das ideias. Como e bom poder pensar de forma concreta no consumismo e nas consequencias que ele traz pra nossas criancas. Fala-se muito mas sempre na superficie. “Na busca por dar vitórias compradas retiram das crianças o direito à s subjetividades. Fica difÃcil para a criança desenvolver sentimentos de incomparabilidade, unicidade.”
Me ajudou a construir um pouco melhor a mae que quero ser. Muito obrigada!