Paulo Timm
PT: 32 anos esta noite… (II – Final)
Trinta e dois anos esta noite, celebra, portanto, a grande vitória do PT, sobre as três grandes alternativas que disputavam, no inÃcio da década de 80, a hegemonia sobre o processo da redemocratização: O próprio PT, o PDT e o PSDB, ou melhor dizendo, dos seus lÃderes, o Lula, o Brizola e FHC, respectivamente. Esta celebração, como se disse, não está propriamente, nos ganhos de cada uma destas alternativas, mas na identificação do capital que cada uma delas reunia para enfrentar os anos que se seguiriam. Não cito, aqui, os comunistas, fossem do PCB ou do PCdoB porque eles, naquele ano, não se dispunham a disputar a hegemonia sobre o processo polÃtico. Arrastavam-se sob o discurso da “Unidade das Oposiçõesâ€, diluindo-se na sigla oriunda do MDB, onde se haviam aninhado, como outros segmentos da esquerda, durante a ditadura, condenando-se a figurar como sombras do futuro.
Das três alternativas autônomas à hegemonia, a mais visÃvel, em 1980, era o PDT de Brizola, quem seria eleito Governador do Rio dois anos depois. Brizola contava a seu favor uma grande experiência polÃtica pessoal e um razoável patrimônio eleitoral consagrado em duas unidades expressivas da federação: Rio e Rio Grande do Sul, tendo contra si a histórica resistência paulista ao trabalhismo. Com esta cabedal, ao qual procura juntar algumas lideranças regionais de menor expressão, como Neiva Moreira, no Maranhão e Julião em Pernambuco, Brizola tentará levar sua candidatura até as eleições diretas à Presidência, o que viria a ocorrer apenas em 1989, colhendo-o, então, com um Partido sem articulação com os Movimentos Sociais organizados, nem grandes alianças regionais, numa histórica derrota frente à Lula. Vale lembrar que, desde seu retorno ao Brasil, Brizola assume-se com um perfil social-democrata, associado à II Internacional Socialista, valendo-lhe, com isto, a repulsa da velha esquerda, e se afirma como tal, propondo um Plano para o Brasil calcado no impulso à educação e defesa da soberania nacional contra as perdas internacionais. Má hora. A conjuntura hiper-inflacionária capitalizaria muita mais a agenda da recomposição das perdas salariais, própria aos sindicatos controlados pelo PT, do um projeto nacional.
Fernando Henrique, em 1980, já vivia seu ocaso ideológico, evidente desde que abdicou de seu projeto de reconstrução do Partido Socialista em 1978 para se unir, por pura conveniência pessoal, à tese da Unidade das Oposições. Naquele ano, quando dá inÃcio à etapa do esquecimento de suas próprias palavras, já havia relegado todos os que o acompanharam nas discussões sobre o imperativo da urgente reconstrução partidária publicando o seu famoso “O Caminho das Oposiçõesâ€. Qual…? Alinhado à s lideranças liberais do MDB. Mas Fernando Henrique tivera grande importância nas nascentes profissões voltadas à s Ciências Humanas durante o regime militar e seus artigos circulavam como moeda corrente nas Universidades e cÃrculos intelectuais, com epicentro em S. Paulo. Fizera, pois, seu grande capital, não como Brizola, senhor de várias vitórias polÃticas, mas ao pé da orelha, como PrÃncipe da Inteligência. Astuto, sentindo-se forte para retomar o projeto de Partido próprio, capaz de disputar a hegemonia sobre o complexo processo da redemocratização, percebeu o momento de saltar fora do já PMDB, em 1988, e correu à fazer seu PSDB como uma alternativa “à esquerdaâ€dos velhos liberais, levando consigo esquerdistas como Joáo Gilberto , no RS, Sigmaringa Seixas, no Distrito Federal e Euclides Scalco, no PR, só para lembrar alguns deles. Contou apenas com sua habilidade de bastidores e imagem de integridade intelectual. Esperou o momento certo e, no vazio da crise “qualunquistaâ€de 1994, vendo perdidas suas esperanças de contar com o apoio da esquerda, já consolidada em torno do PT e de Brizola, chega ao poder em 1995 para uma dupla jornada (1995-2002). Sem qualquer apoio nos Movimentos Sociais organizados, distante de todas as lideranças históricas da esquerda do paÃs, cada vez mais suspeito aos olhos da própria intelectualidade, excitado pelos radiantes apelos de uma “terceira via†que perseguia o receituário de uma Grande Moderação entre social-trabalhistas europeus, liberais e neo-keynesianos, resta à Fernando Henrique a tarefa de estabilizar a moeda e sanear as contas públicas. Fá-lo, sob o acicate das esquerdas, mesmo ferindo de morte a dignidade nacional com as apressadas privatizações. Deixa como legado um paÃs mais estável e menos soberano.
O PT, porém, em 1980, não dispunha nem de capital polÃtico-eleitoral, próprio do Brizola, nem da inteligência polÃtica que permitiria a um Senador eleito em sub-legenda por S.Paulo, em 1978, derrotado para a Prefeitura da Capital para Jânio Quadros, fazer-se Presidente da República. Seu capital eram os Movimentos Sociais e o carisma pessoal de seu lÃder: Lula. Mas sem os primeiros, o segundo dificilmente teria decolado. Assim, faz sentido dizer-se, nos 32 anos do PT, que seus primeiros 22 foram os mais importantes.Mas como toda a realidade é contraditória e carrega no seu ventre os germens de sua transformação, é precisamente este fato- a forte presença no interior do PT de movimentos sociais – que implica seu maior risco: o de cooptar estas lideranças na perpetuação de um projeto que nada tem, na verdade, de forte conteúdo de mudança, a não ser, claro , o seu próprio meio, que é a mensagem a ser preservada em nome da autonomia dos excluÃdos rumo a uma sociedade mais justa. Foi este “meioâ€, aliás, que levou muitos a se ligarem ao PT, na crença de que, por este fato, dado o caráter revolucionário atribuÃdo pela doutrina ao proletariado, o Partido romperia os limites do populismo e se afirmaria como uma esquerda revolucionária. Dupla ilusão: da doutrina e dos doutrinados. Se há algo que o PT passou a limpo neste paÃs foi tanto a maldição estalinista da social-democracia quanto o sociologismo uspeano. Doravante, serão todos iguais, unidos no reformismo democrático: trabalhistas, comunistas e petistas. Mas tomara que se diferenciem no tocante ao tipo de relação que manterão com os agentes sociais. As correntes ortodoxas da esquerda não hesitarão na tentativa de manipulação em benefÃcio último da doutrina; já as heterodoxas poderão fundar um novo estilo de composição tanto em termos de alianças horizontais com outros Partidos, quanto verticalmente com os movimentos sociais.
E aqui enganam-se os que acham que Dilma poderá sair-se melhor do que Lula. Por uma simples razão: O que lhe sobra em inteligência, fazendo-a cortejada por parte das elites, talvez lhe falte em humildade, levando-a pensar que a PolÃtica é uma Ciência da Gestão Pública e não a Grande Arte de trilhar utopias, sem escabelar-se. Mas, se à s vezes eu me engano, por que não estaria eu, também, enganado.
Comentários (4)
» Deixe seu comentáriosabiamente o colunista conclui.. sim.. estas enganado.. assim como o PT iniciou (por motivos justificaveis) tardiamente sua caminhada, tb tardiamente chegou ao poder, e ha de fato um novo mundo em transicao, as antigas visoes ja nao sao mais o que o povo quer.. o mundo evoluiu mas as propostas pouco mudaram.. enquanto ha um clamor intenso para mais democracia, o partido se ve preso em um emaranhado de amorais coligacoes…
promessas nao foram cumpridas e mudancas (para pior) vem ocorrendo…
sintetizo o partido hoje, como “a promessa que nao aconteceu”.
Esclarecendo a leitora Gabriela:
Não se trata, aqui, de meros nomes. Mas de duas teses que estavam em jogo em torno de 1980 e que acabaram definindo a importância de cada um dos grupos que a defendia, nas décadas seguintes. De um lado, comunistas, socialistas, “autênticos†do heróico MDB, intelectuais independentes, defendiam a tese da UNIDADE DAS OPOSIÇÕES e combateram duramente o que entendiam como manobra divisionista do General Golbery, figura importante no processo de transição. De outro, ficaram Brizola, com o PDT, e Lula, com o PT , ambos com a idéia de que era chegada a hora da auto-organização popular que poderia retirar o processo da abertura do controle liberal. Os “comunistas†do PCB e PCdo B lideraram a campanha da UNIDADE DAS OPOSIÇÕES e se não se voltaram à auto-organização, foi porque eram contrários à ela. Isto dificultou muito a organização inicial do PDT e do PT. Veja-se, por exemplo, o resultado eleitoral pÃfio que tiveram em 1982, do qual só sai melhor o Brizola, precisamente pelo capital eleitoral que dispunha no Rio. E refletiu-se, também, na sobrevivência do PMDB como o “Partido que comandou a luta contra a ditaduraâ€, até os dias de hoje. Como fundador do PDT à época vivi intensamente esse perÃodo, tendo, inclusive, sido candidato pelo Partido ao Governo de Goiás, em 1982, a pedido de Brizola, com o objetivo de convalidar, pela presença nacional do Partido com a difÃcil nominata para todos os nÃveis, uma eventual vitória no Rio. O que ocorreu. Em nenhum momento pretendi desmerecer a importância dos comunistas na luta contra a ditadura. PCB e PCdoB, entretanto, selaram, ali, seu futuro. Tornaram-se, ambos, aliados de projetos hegemônicos. Não condutores.
Vitoria o cacete, partido desmoralizado, traiu tudo que se esperava dele, se prostituiu completamente.
Como assim?? Sobre os comunistas: “Arrastavam-se sob o discurso da “Unidade das Oposiçõesâ€, diluindo-se na sigla oriunda do MDB, onde se haviam aninhado, como outros segmentos da esquerda, durante a ditadura, condenando-se a figurar como sombras do futuro.”
Te esqueceu que em 1980 os partidos comunistas eram proibidos de existir???
Só foi possÃvel aos comunistas saÃrem da clandestinidade em 1985!!!