Futebol
Primeiro turno do Gauchão será decidido em grená e anil
Igor Natusch
Houve um tempo em que prever o campeão gaúcho era uma barbada. Para se consagrar como Nostradamus amador, bastava o vivente chutar que Grêmio ou Inter venceriam o certame, com chance de acerto de 50%. Quem apostou na fórmula mágica da dupla de Porto Alegre neste 2012, porém, corre sérios riscos de quebrar a cara. A Taça Piratini, por exemplo, será decidida longe de Olimpico ou Beira-Rio – mais precisamente, na Arena do Vale em Novo Hamburgo, no Vale dos Sinos. Disputarão a final do primeiro turno, à s 22h da próxima quarta-feira (29), Caxias e Novo Hamburgo – e um deles garantirá vaga na finalÃssima do Gauchão, isso se não inventar de ganhar também a Taça Farroupilha e sagrar-se campeão antecipado. Uma decisão que pode ser bissexta – como a própria data do jogo comprova – mas nem por isso perde seu profundo significado simbólico.
Ambas as vagas foram conquistadas em casa – o que mostra também a justiça dos finalistas, uma vez que tiveram o privilégio de jogar em seus domÃnios graças ao fato de terem feito as melhores campanhas durante a competição. Em comum, os dois clubes tiveram também a definição da vaga nos últimos instantes de seus confrontos. O Caxias enfrentou o Grêmio, na estreia de Vanderlei Luxemburgo, e perdia até os 39mins da etapa final, quando um empate providencial sacramentou o 1 a 1 e arrastou o jogo para os pênaltis e daà para a classificação. O Nóia, por sua vez, foi ainda mais dramático: após ceder o empate ao Juventude aos 40mins da segunda etapa, conseguiu a improvável vitória já nos acréscimos, fazendo um 3 a 2 espetacular e heroico. O fato é que, seja tingida em tom grená ou anilado, a Taça Piratini estará sem dúvida em boas mãos.

Kleber fez boa partida, marcou gol, mas Caxias conseguiu sustentar melhor campanha e qualificou-se para final | Foto: Lucas Uebel / Grêmio FBPA
Grêmio sai na frente, cede empate e Caxias triunfa nos pênaltis
O jogo no Centenário foi bastante parelho, de modo geral. O Grêmio fez uma partida digna, ainda que não tenha repetido o alto nÃvel da vitória no Gre-Nal. Jogadores bastante destacados no meio de semana, como Marco Antônio, foram no máximo discretos, enquanto a volta de Marquinhos acabou sendo um surpreendente decréscimo em relação a Léo Gago, já que criou pouco e foi discretÃssimo na marcação. O Caxias chegava de forma insinuante, aproveitando a velocidade de seus homens de frente (em especial Vanderlei, de ótima partida) e criava alguns embaraços a Victor, ainda que quase sempre de fora da área. O Grêmio também chegava, é verdade, mas sem muito volume de jogo – sendo justo dizer que, apesar do placar zerado, o Caxias foi ligeiramente superior na etapa inicial.
Na volta dos vestiários, o Grêmio melhorou. Souza, que tem se mostrado boa contratação gremista, foi adiantado, deixando ao inseguro Fernando uma posição mais fixa na defesa. Com isso, ambos cresceram, e o Grêmio começou lentamente a se impor. Mesmo assim, o Caxias teve uma chance de ouro aos 13mins, quando Julio Cesar salvou em cima da linha após uma saida equivocada de Victor (seu único erro visÃvel na partida, aliás). Mesmo assim, o gol de Kleber aos 17mins foi justo, resultado de uma série de tentativas pelos lados do campo.

Marquinhos substituiu Léo Gago, afastado por ter se auto-medicado contra uma gripe, mas não chegou a ter boa atuação | Foto: Lucas Uebel / Grêmio FBPA
Com o gol, o Caxias se perturbou e o Grêmio cresceu. Algumas boas chances de matar o jogo surgiram, mas acabaram desperdiçadas – e a falta de efetividade gremista abriu espaço para o empate grená. Que não poderia, aliás, ter sido mais gremista: bola alçada na área, desvio de cabeça de Marcos Paulo e uma jogada indefensável. Uma jogada familiar aos gremistas, desta vez usada à perfeição pelo adversário. O Caxias por pouco não virou, em outro cabeceio de Marcos Paulo, defendido à queima-roupa por Victor. Mas o empate em 1 a 1 acabou sendo consolidado, restando o desempate nos pênaltis.
E a marca da cal acabou fazendo justiça a quem fez melhor campanha na Taça Piratini. O Grêmio, que só entrou na fase decisiva graças aos pontos perdidos pelo Cruzeiro, acertou quatro das cinco cobranças – Marco Antônio, aparentemente determinado a não dar certo no OlÃmpico, desperdiçou a sua. O Caxias, por sua vez, manteve nas penalidades a mesma competência que o marcou durante toda a campanha até aqui, acertando todos os chutes – inclusive o decisivo, a cargo do goleiro Paulo Sérgio, que chegou a ser defendido por Victor, mas bateu na trave e entrou. Restou a Vanderlei Luxemburgo, usando terno desabotoado e sem gravata, engolir o desagradável caroço de uma eliminação justo na partida de estreia. Um resultado chato para os gremistas, claro, mas excelente para o futebol gaúcho como um todo. E justo, acima de tudo.
CAXIAS 1 x 1 GRÊMIO (5×4 nos pênaltis)
CAXIAS: Paulo Sérgio, Michel, Lacerda, Lino e Fabinho; Umberto (Allison) Paraná, Mateus e Wangler (Juninho) Caion (Marcos Paulo) e Vanderlei. Técnico: Paulo Porto.
GRÊMIO: Victor, Gabriel, Gilberto Silva, Naldo e Julio Cesar; Fernando, Souza, Marquinhos (Vilson) e Marco Antônio; Kleber e Marcelo Moreno (André Lima). Técnico: Vanderlei Luxemburgo.
Gols: Kleber (Grêmio) aos 17mins e Marcos Paulo (Caxias) aos 39mins do segundo tempo.
Pênaltis: Grêmio – Kleber (gol), André Lima (gol), Gilberto Silva (gol), Marco Antônio (erro) e Fernando (gol); Caxias – Mateus (gol), Michel (gol), Fabinho (gol), Paraná (gol), Paulo Sérgio (gol).
Cartões amarelos: Lacerda e Lino (Caxias); Marquinhos, Souza, Gilberto Silva, Kleber e Gabriel (Grêmio).
Ãrbitro: Anderson Daronco.
Local: Estádio Centenário, Caxias do Sul (RS).

Juventude saiu ganhando logo no começo da partida, mas Novo Hamburgo reagiu e venceu com gol nos acréscimos do segundo tempo | Foto: Divulgação / Esporte Clube Juventude
Em partida eletrizante, Novo Hamburgo supera pressão e faz gol no apagar das luzes
No Estádio do Vale, por sua vez, a partida começou de forma intensa e elétrica. Logo aos 3mins, Jardel abriu o placar para o Juventude, dando pinta de uma final caxiense para o primeiro turno. Logo em seguida, porém, o Novo Hamburgo empatou com Mendes. Foram cerca de 15mins de um jogo eletrizante e franco, que deu uma natural diminuÃda de ritmo a partir daÃ. De qualquer modo, ainda que a defesa do Novo Hamburgo estivesse bastante nervosa e cometesse erros com preocupante frequência, a partida ganhou tons definitivamente anilados, com o Novo Hamburgo impondo-se em campo e dando pinta de que podia virar a qualquer momento.
Curiosamente, foi uma falha da zaga do Juventude, e não do Nóia, que desempatou a partida. Em uma confusão danada na área alviverde, a defesa foi frouxa na hora de afastar, e a bola bateu em uma série de jogadores antes de ir para as redes – segundo o árbitro, quem fez o gol foi Alexandre, embora o mais provável é que todos nós morramos sem jamais ter certeza se foi isso mesmo. Era, de qualquer modo, um resultado justo pela imposição do dono da casa. E o Juventude tinha motivos até para comemorar o placar não ter sido ampliado antes do intervalo, já que perdeu-se no jogo e passou a sofrer uma pressão deveras preocupante para si – em especial pelo seu lado esquerdo de defesa, com Alan em péssima jornada e abrindo uma verdadeira via expressa para as iniciativas aniladas.
De volta ao gramado, o Juventude pareceu ter colocado a cabeça no lugar, e passou claramente a dominar as ações na segunda etapa. Atacava com intensidade, buscando o jogo pelas duas pontas ofensivas – enquanto o Nóia adotava uma postura bastante cautelosa, valorizando o resultado ainda precoce de forma um tanto temerária. A aposta do anilado estava nos contra-ataques – um deles, aos 24mins, deixaria Paulinho MacaÃba na cara do goleiro, mas foi anulado de forma duvidosa pela arbitragem. De qualquer modo, se o Nóia atacava pouco, o Juventude chutava de forma um tanto intermitente, rondando a área adversária, mas um pouco comedido nas conclusões.
Nos últimos dez minutos, a partida virou jogo de um time só. Necessitando do gol de empate, o Juventude passou a pressionar de forma muito incisiva – enquanto o Novo Hamburgo, dando sinais de cansaço, encaixotou-se atrás e segurava as pontas do jeito que dava. O empate desenhava-se inevitável. E aconteceu aos 40mins, chute de Athos após confusão defensiva e que chegou a desviar em Alexandre antes de entrar. Empate frustrante para os donos da casa, mas que parecia justo para a papada, que foi outro time e lutou bastante depois de voltar dos vestiários.

Gol no final da partida consagrou melhor campanha do primeiro turno e colocou Nóia na final da Taça Piratini | Foto: Bruno Colombo/ECNH
Quem achou que estava acabado e terÃamos uma disputa de pênaltis, porém, enganou-se. Sob pressão, Eduardo Martini deu um chutão para afastar a bola. Márcio Hahn penteou de cabeça, deixando Paulinho MacaÃba livre para, com tranquilidade, fazer o gol que lançou a torcida anilada em frenesi. Pode ter sido um 3 a 2 um pouco cruel com o Juventude, mas marcou de forma incontestavel uma partida das mais emocionantes – e consagrou de vez as duas melhores campanhas do Gauchão, além de tirar um pouco dos argumentos daqueles que dizem que Gauchão não presta para nada. Que bela competição estamos tendo aqui no Rio Grande, senhoras e senhores.
NOVO HAMBURGO 3 x 2 JUVENTUDE
NOVO HAMBURGO: Eduardo Martini; Chicão, Alexandre, André Paulino (Russo) e Pedrinho; Zaquei, Marlin, Márcio Hahn e Juninho (Pedro Silva); Juba e Mendes (Paulinho MacaÃba). Técnico: Itamar Schulle.
JUVENTUDE: Jonatas; Rafael Toledo (Ramiro), Rafael Pereira, Bruno Salvador e Alan (Everton); Deoclécio (Nico MartÃnez), Nem, Jardel e Athos; Jonatas Beluso e Eraldo. Técnico: Antônio Picoli.
Gols: Jardel (Juventude) aos 3mins, Mendes (Novo Hamburgo) aos 9mins e Alexandre (Novo Hamburgo) aos 33mins do primeiro tempo; Athos (Juventude), aos 40mins e Paulinho MacaÃba (Novo Hamburgo) aos 46mins do segundo tempo.
Cartões amarelos: Rafael Toledo e Nico MartÃnez (Juventude).
Ãrbitro: FabrÃcio Neves Corrêa.
Local: Estádio do Vale, em Novo Hamburgo (RS).

E a qualidade dos times, sejam eles grandes, médios ou pequenos, cada vez pior…nosso regional é um fiasco, em todos os sentidos, menos na RBS que faz uma maquiagem quase hollywoodiana…assim é o futebol dos últimos anos que virou negócio-futebol, capitaneado pelos Ricardos Teixeiras, Globos e Trafics da vida…e o torcedor, aprisionado em seus fanatismos convive hipocritamente com essa realidade…