José Dirceu

Nossa liderança e o impasse

As perspectivas positivas que animaram o Brasil nos últimos anos e a projeção que teremos nos próximos anos tendem a, cada vez mais, ampliar nossas responsabilidades no plano regional — especialmente no Mercosul. A questão de fundo é saber que tipo de liderança exerceremos na região e que grau de legitimidade receberemos dos demais países nesse processo.

Geralmente, quem trata da questão delineia duas alternativas: liderança com traços imperialista, impositiva e exploratória; ou liderança fragilizada e desacreditada, que peca por não defender seus interesses —e perde, inclusive, o potencial de coordenar. Contudo, as diretrizes de política externa que o Brasil traçou a partir de 2003 nos obrigam a adotar um terceiro caminho. Talvez mais árduo e tortuoso, mas certamente mais profícuo e duradouro.

No momento atual, temos um imbróglio diplomático e comercial com a Argentina, que pode servir de teste para nossa nova condição regional. Nosso governo e o Itamaraty estão numa situação difícil frente à Argentina: o governo argentino anunciou que, a partir de 1º de fevereiro, exigirá “pedidos de licenças de importação não automáticos” para todos os produtos do exterior, quaisquer que sejam suas procedências. A medida se soma às dificuldades à entrada de produtos brasileiros da linha branca —como máquinas de lavar e geladeiras—, além de artigos têxteis, calçados, baterias e tratores. E, como era esperado, provocou reação dos setores produtivos e exportadores no Brasil.

A melhor saída para o impasse precisa ser construída em conjunto com a Argentina. Para isso, o primeiro passo é conhecer o contexto de cada país. Nesse sentido, precisamos primeiro entender que as medidas argentinas decorrem da queda do preço da soja e da necessidade de o país manter a reserva em dólares para enfrentar a crise internacional. Um problema, frise-se, que o Brasil não tem.

Assim, nosso desafio é compreender as dificuldades vizinhas sem parecer condescendes. Nossa relação com o principal vizinho que temos exige muito jogo de cintura, mas fundamentalmente uma política desenvolvimentista que inclua a integração na sua prática e não apenas em sua estratégia. Ou seja, se não podemos simplesmente aceitar as medidas adotadas pela Argentina, não podemos, também, cair no mesmo jogo defendendo interesses corporativos internos da indústria, o que é importante, mas não resolve o impasse e o problema de fundo, que é a paralisação da integração.

A solução para a atual situação só pode ser na direção da integração das cadeias produtivas e de investimentos associados. E tais caminhos dependem muito das instâncias multilaterais de decisão, notadamente, o Mercosul, portanto, implica em fortalecer a integração regional. Nessa pauta, está, por exemplo, a criação do Banco do Sul. Ou, ainda, do Eximbank brasileiro. Ambas são instituições de estímulo às exportações e com condições de nos preparar, nacional e regionalmente, para disputar, inclusive com os chineses, o mercado latino-americano. Os dois bancos são urgentes para financiar as exportações de serviços, tecnologia, capitais, além de alimentos e manufaturas para toda região. Mas, principalmente, para financiar o desenvolvimento de nossos países, as infraestruturas, as pequenas e médias indústrias, o acesso e o desenvolvimento tecnológico, a integração energética, entre outras urgências.

Se optarmos por uma mera defesa das medidas protecionistas da Argentina, estaremos dando às costas ao nosso próprio futuro como liderança regional. Portanto, o caminho é o de avançar na integração. Até porque temos um superávit de US$ 5,8 bilhões com a Argentina, a partir de um comércio bilateral que somou no ano passado US$ 39,6 bilhões. Essa relação comercial sólida reforça a importância de nos desenvolvermos juntos.

Ora, como fiadores do Mercosul e da Unasul (União das Nações Sul-Americanas), precisamos sopesar uma resposta dura a ações protecionistas, de um lado, mas também não perder de vista nossa estratégia de integração regional e quem são os nossos verdadeiros adversários, de outro lado. É um duplo movimento, fundamental às nossas pretensões.

Solucionar esse impasse e superar as dificuldades momentâneas nas relações comerciais com a Argentina é, na verdade, um dos muitos ensaios que o Brasil terá nos próximos anos. O êxito nessa empreitada significa mais do que sanar um entrave diplomático e comercial. Significa provar que é possível exercer uma liderança sem tibieza ou sem imposições. Em jogo, está o futuro de nossa política externa e também do Mercosul.

José Dirceu, 65, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT

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Comentários (18)
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Comentário de: Assis | 1 de fevereiro de 2012 | 11:29

José Dirceu, 65, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT, e, esqueceu-se de dizer, o maior pilantra que esse país já teve nos últimos 50 anos.

Comentário de: Pedro Carraro | 1 de fevereiro de 2012 | 17:48

E também responsável direto pelo fim da VARIG, ao forçar o governo a não pagar o que devia à companhia, bem como impedir outras possíveis soluções que não a sua liquidação. E por que? Para favorecer a TAM e a família, que tem intere$$e$ na TAM.

Comentário de: Jeferson | 1 de fevereiro de 2012 | 19:13

Acho que devemos ponderar antes de representar o campo político a partir de noções como “verdadeiros adversários” etc. De toda maneira, minha leitura fica um pouco viciada, pois não consigo respeitar a ala do PT que está por aí prestando grandes assessorias e tentando compreender o mundo do ponto de vista do capital.

Comentário de: Ary | 1 de fevereiro de 2012 | 19:29

José Dirceu de Oliveira e Silva ainda será presidente do Brasil. Em 2022, logo após mais dois mandatos de Lula.

Comentário de: Paulo Sátiro | 1 de fevereiro de 2012 | 20:40

Ary, meu estômago gelou ao ler seu comentário. Estou batendo na madeira até agora. Essa aposta sua vai de contra até mesmo da profunda estupidez do eleitor brasileiro.

Comentário de: Ary | 1 de fevereiro de 2012 | 23:22

Bater na madeira talvez seja a última estratégia. Vá que funcione…

Comentário de: Paulo Sátiro | 2 de fevereiro de 2012 | 6:14

É. Levar uma granja inteira de galinha preta pra uma encruzilhada para eleger Dirceu, também.

Comentário de: Ary | 2 de fevereiro de 2012 | 11:16

Sou contra o sacrifício de animais em qualquer tipo de ritual, bem como a utilização deles como alimento, trabalho, dviersão, cobaia, laser ou vestuário. Boa parte dos nossos problemas no campo social, econômico, ambiental, emocional e espiritual, deve-se à maneira utilitarista com qual nos relacionamos com as demais formas de vida. Quanto a eleição de José Dirceu (que teve a grandeza de enfrentar um processo de cassação quando poderia ter renunciado e se elegido), veremos.

Comentário de: Paulo Sátiro | 2 de fevereiro de 2012 | 12:09

Que bom, Ary. Assim não precisa tirar a vida das galinhas em vão.

Comentário de: DUARTE ROCHA | 2 de fevereiro de 2012 | 13:57

JOSE DIRCEU PARA PRESIDENTE URGENTE. MOTIVO: ELE NAO É UM NEOLIBERAL COMO FHC, LULA E DILMA. PORISSO FOI PERSEGUIDO PELA DIREITA RAIVOSA. VIVA O SOCIALISMO !
Socialismo: substituição do poder burguês pelo poder popular.
O PROBLEMA DO SOCIALISMO É QUE MUITO VAGABUNDO RICO VAI TER QUE TRABALHAR.

Comentário de: Elias Queiroz | 2 de fevereiro de 2012 | 17:25

O único vagabundo rico que estou vendo nesse post é o próprio Dirceu.

Comentário de: Carlos | 2 de fevereiro de 2012 | 18:05

Pô Sul 21, já não bastava o reacionário do Adeli Sell, tem que colocar o capitalista do Dirceu a dar as suas opiniões pseudo-pragmáticas sobre os rumos do país… Desse jeito não dá…

Comentário de: josé | 2 de fevereiro de 2012 | 21:47

Faltou nos comentários alguma palavra sobre o texto escrito pelo autor que, mesmo não pertencendo ao meu campo político, numa entrevista na rádio guaiba em 2001, disse que se o lula atendesse economicamente os mais desfavorecidos, ficaria oito anos no poder. Embora seja necessário pensar alternativas ao atual sistema econômico, é necessário certo senso prático que, por vezes, a extrema-esquerda, não admite. No poder, mandariam estatizar as multinacionais e o sistema financeiro? Teriam coragem para quebrar o sistema que é abastecido por poupanças de “velhinhos” e “velhilhas” ( em média 5.000, 00) além, do próprio governos com seus títulos???

Comentário de: Jo | 3 de fevereiro de 2012 | 1:07

Parabéns Zé , tu és 10. A tu trajetória é de sucessos . O Brasil não te merece , povinho atoa que só diz m”…
Zé para Presidente desta mucufa.

Comentário de: Eder | 3 de fevereiro de 2012 | 6:11

Povinho à toa mesmo, só que contra o Dirceu já se está vacinado. O Collor tem mais chance.

Comentário de: Rosaline | 3 de fevereiro de 2012 | 14:12

stalinismo+capitalismo=josé dirceu

Comentário de: Malu | 4 de fevereiro de 2012 | 18:53

Reacionário é adjetivo apropriadíssimo para este povo que se manifesta aqui…Aff

Comentário de: Fernando Saraiva | 4 de fevereiro de 2012 | 19:31

Tem gente por ai fazendo comentarios sem qualquer propriedade; ou não lê jornal ou esta brincando com coisa séria.

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