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Lei das Queimadas: um debate que vai muito além da política

Foto: Paulo Brack

Samir Oliveira

A lei promulgada pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul no dia 30 de janeiro, autorizando a prática de queimadas em campos gaúchos, não durou nem 15 dias. Nesta quinta-feira (9), o Tribunal de Justiça (TJ-RS) considerou a medida inconstitucional. A lei 13.391 apenas seguiu o destino de suas antecessoras. Outras duas tentativas de regulamentar as queimadas já haviam sido aprovadas no Parlamento e, em seguida, consideradas inconstitucionais pelo Tribunal de Justiça (TJ).

Em 1992, uma medida com o mesmo teor da atual norma foi aprovada no Legislativo e derrubada no Judiciário. E em 2002 uma emenda alterou a Constituição Estadual, que, em seu artigo 251, determina que cabe ao Estado desenvolver ações de proteção, restauração e fiscalização do meio ambiente, incumbindo-lhe, primordialmente, “combater as queimadas, responsabilizando o usuário da terra por suas consequênciasâ€.

A emenda constitucional tinha sido vetada pelo então governador Olívio Dutra (PT), mas a oposição, em maioria, conseguiu derrubar o veto a aprovar a medida. Novamente, a norma foi considerada inconstitucional pelo Tribunal de Justiça.

Desta vez, o governo gaúcho não vetou a medida. Tampouco sancionou. O governador Tarso Genro (PT) deixou passar o prazo regimental para subscrever ou rejeitar a lei. O projeto voltou ao Legislativo, onde o então presidente, Adão Villaverde (PT), também se eximiu de promulgar a proposta, que acabou levando a assinatura do 1º vice, José Speroto (PTB).

Ambientalista cobra auxílio técnico do Estado aos produtores

A disputa política é a face menor de toda essa discussão. A prática das queimadas envolve um complexo debate técnico, ambiental, social, cultural e econômico.

Paulo Brack defende maior diálogo entre Estado, academia e produtores | Ramiro Furquim/Sul21

São, na imensa maioria, pequenos e médios produtores rurais e pecuaristas da região dos Campos de Cima da Serra que utilizam o fogo para limpar o pasto morto e quebradiço que o rigoroso inverno gaúcho deixa. Isso coloca os próprios ambientalistas numa saia justa: acostumados a combater o agronegócio e os latifundiários, não se sentem à vontade para atacar agricultores familiares, muitas vezes pobres, que perpetuam uma prática secular para sobreviver.

O professor do Departamento de Botânica da UFRGS, Paulo Brack, acredita que é preciso superar a discussão sobre proibir ou legalizar. O ambientalista avalia que nenhuma das duas opções resolve totalmente o problema e defende a busca de alternativas às queimadas.

“A lei é demagógica e pode consagrar um procedimento que é ruim para o solo, queima minerais, elimina nutrientes, agride a biodiversidade e emite gases do efeito estufa. Mas não adianta também criminalizar os pecuaristas. São práticas que existem há pelo menos 200 anosâ€, explica o professor.

Brack entende que o poder público deveria fornecer assistência técnica e possibilidades reais para que os agricultores encontrassem outras maneiras de limpar seus campos – que são, na maioria, acidentados, com inclinações e muitas pedras, o que dificulta o roçado. “O Estado tem que fornecer assistência, trabalhar com pesquisa e incentivo para que os pecuaristas possam utilizar outras técnicas comprovadas que ainda não entraram em prática. Há pesquisas que comprovam que é possível fazer um bom manejo em campos acidentados, aumentando a produção, sem que haja a queima. São técnicas que muitas vezes não estão próximas dos produtores, por isso é preciso haver um diálogo entre o Estado, a academia e os agricultoresâ€, cobra.

O ambientalista aponta que, enquanto pequenos produtores são criminalizados por queimadas, outro problema muito maior assola a região: o crescimento dos cultivos de batata, milho e pinos, que demandam uma grande quantia de agrotóxicos. “Os campos de cima da serra estão desaparecendo rapidamente. O agronegócio está tomando conta e transformando tudo em lavouras. Está havendo um processo de concentração de terra nas mãos de algumas empresas e os pecuaristas são os que acabam sendo criminalizadosâ€, comenta.

“Outras tecnologias implicariam na mudança do sistema de produção e até de vidaâ€, aponta ecologista

A mestre em Ecologia pela UFRGS, Josielma Hofman Macedo, conversou com 71 produtores dos campos de cima da serra para realizar seu estudo sobre a prática das queimadas na região. Ela observa que bastante complicado substituir esse procedimento por outras técnicas.

“Outras tecnologias implicariam na mudança do sistema de produção e até de vida dessas pessoas. Teria que ser considerado o número de cabeças de gado por área, aí o produtor ficaria dependente de vender uma quantidade determinada de gado no inverno, sendo que a produtividade maior é no verãoâ€, explica.

Bom Jesus Jaquirana 040

Foto: Paulo Brack

Josielma ressalta que os pecuaristas da região valorizam a independência que possuem em relação ao mercado. “Não é como quem planta grãos, que precisam vender o produto na época da safra, independente do preço que conseguir. Eles podem trabalhar numa lógica de diminuir os riscos e manter a propriedadeâ€, aponta.

Ela avalia que a criminalização dos pequenos produtores não é a melhor saída para o impasse. “A proibição, como está colocada, não funciona. As pessoas entendem como uma interferência arbitrária do Estado, que apenas proíbe e não fornece alternativas. Tratam os produtores como se fossem criminososâ€, critica.

Ex-técnico da Secretaria do Meio Ambiente critica fiscalização municipal

O agrônomo Renato Côrte Real, que se aposentou em 2006 como técnico da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema), acompanhou de perto a movimentação política que resultou na aprovação das duas leis anteriores que tentaram legalizar as queimadas no Rio Grande do Sul. Ele critica a nova regra por atribuir aos municípios o poder de fiscalizar a prática. “Sei muito bem quanto os técnicos municipais são pressionados para liberar até o que não consideram certo. Muitos são terceirizados e só recebem os honorários se fizerem um projeto favorável. Essa lei cria uma abertura muito perigosaâ€, observa.

Como licenciador florestal da Sema, Renato percorria os Campos de Cima da Serra para fazer autuações e lembra dos prejuízos causados pelas queimadas. “Cada vez queimavam mais, a ponto de não ser possível trafegar nas estradas. Em agosto e setembro aquela região virava só em fumaça, minha rinite alérgica ficava completamente atacadaâ€, conta o agrônomo.

O presidente da Associação dos Municípios dos Campos de Cima da Serra e prefeito de São José dos Ausentes, Erivelto Sinval Velho (PMDB), explica que, enquanto não forem implementadas alternativas às queimadas, essa será a única prática em uso para limpeza e renovação da pastagem. “Iremos caminhar para uma mudança, mas queremos tempo para conseguir outras soluções. No momento, essa é a prática que nos dá o sustentoâ€, justifica.

Especialista alerta que proibição de queimadas leva produtores a arrendarem terras para cultivos que demandam agrotóxicos

O diretor do Centro de Ciências Agrárias e Biológicas da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Alindo Butzke, realizou um amplo estudo sobre a prática das queimadas nos campos de cima da serra. Autor do livro Queimadas dos campos: O homem e o campo, a natureza, o fogo e a lei, ele e uma equipe de agrônomos e biólogos passaram dois anos dissecando a utilização desse procedimento em cinco municípios da região. O professor constatou que apenas 6,6% dos campos estudados por sua equipe comportavam uma tecnologia mecanizada para o roçado. “São muito poucos os que possuem área plana e permite o uso de roçadeiraâ€, explica.

Butzke reconhece que, para o meio ambiente, o melhor seria deixar crescer os capões e o mato que se desenvolvem nas terras dos produtores. “É óbvio que a capoeira acolhe mais espécies que uma área lavrada ou queimada. Mas há impacto em qualquer tipo de cultura feita pelo homemâ€, compara. O biólogo assegura que, ao contrário do que dizem alguns ambientalistas, as nascentes e os banhados não são prejudicadas pelas queimadas. “Constatamos isso nos locais. A destruição dos nascedouros não procede, o fogo não queima o molhadoâ€, comenta.

Butzke também observa que seus estudos comprovaram que, após cinco dias da queimada, uma nova camada de grama começa a brotar no solo, realizando a fotossíntese e neutralizando os efeitos gerados pela emissão de gases poluentes. “O fogo é rápido e não queima a raiz. É claro que a queimada emite muito gás carbônico, mas a planta, depois que brota, retira esse gás e tende a gerar um equilíbrioâ€, explica.

Para o professor, a consequência da proibição das queimadas é o arrendamento dos campos dos produtores da região para plantadores de batata e alho, cultivo que seria muito mais prejudicial que o manejo do fogo. “A quantidade de agrotóxico utilizada é impressionante, fora de qualquer parâmetro. Muitos rios e riachos da região não possuem mais peixes, foram esterelizadosâ€, critica.

“A legalização das queimadas vai na contramão da históriaâ€, critica Bordignon

Daniel Bordignon cobra programa estadual para os pequenos produtores | Ramiro Furquim/Sul21

A bancada do PT na Assembleia Legislativa votou contra a aprovação da lei que permite a prática de queimadas no Rio Grande do Sul. Para o líder dos petistas no Parlamento, Daniel Bordignon, a iniciativa “vai na contramão da históriaâ€.

O deputado avalia que não há justificativa para se manter em uso um procedimento secular. “É um absurdo dizer que não é prejudicial, que não mata animais. É um retrocesso brutal, tendo em vista tudo que a ciência está produzindo para evitar a destruição da naturezaâ€, avalia.

O petista considera que a derrubada total da lei no Tribunal de Justiça – que poderá ocorrer quando houver o julgamento do mérito da ação de inconstitucionalidade – é “incontornávelâ€. Bordignon diz que entende “a angústia dos pequenos agricultores da região†e cobra a implementação de um programa estadual de financiamento para que eles possam ter acesso a tecnologias e insumos que forneçam uma alternativa às queimadas. “Essa é a solução que precisamos. A legalização da queimada é uma capitulação ao senso comum e uma ilusão paliativaâ€, condena o deputado.

“Os promotores não precisam engordar boi para viverâ€, compara Alceu Barbosa

O deputado estadual Alceu Barbosa Velho (PDT), um dos articuladores para que a lei que autoriza a realização de queimadas no Estado fosse aprovada, não poupa críticas ao Ministério Público Estadual, autor da ação que derrubou a medida em caráter liminar no Tribunal de Justiça.

“Os promotores, sentados em suas cadeiras confortáveis, não precisam engordar boi para viver. O salário deles vem dos impostos, não se preocupam se os produtores rurais vão passar fome ou se terão que vender suas terras para grandes empresas. Prestam um desserviço ao homem do campoâ€, dispara o pedetista.

Barbosa Velho reconhece que haverá uma “batalha jurídica†para que a lei possa entrar em vigor, mas acredita que é possível vencer. “Será uma luta, mas a ação é totalmente contestável do ponto de vista jurídico. Vamos esperar pelo bom senso do tribunalâ€, comenta o deputado.

Comentários (10)
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Comentário de: Nei | 10 de fevereiro de 2012 | 8:08

Os Movimentos Sociais, Sindical, Estudantil, Centrais Sindicais, enfim, os Intelectuais, Educadores, Trabalhadores, vítimas em potêncial do neoliberalismo devastador, tem de se unir em DEFESA DA VIDA.

Comentário de: Juvelino Velho | 10 de fevereiro de 2012 | 9:53

Por ocasião da última campanha presidencial, sugeri à então candidata Dilma uma ideia para o problema das queimadas. Sem o apoio do poder público não há solução. O uso de máquina é muito caro para o pequeno produtor. A solução seria um programa nacional, a exemplo do Mais Alimentos, em que houvesse financiamento de máquinas destinadas a roçada (tratores e roçadeiras). Essas máquinas ficariam sob a guarda dos municípios, os quais prestariam o serviço de roçada aos pequenos produtores que hoje utilizam a prática de queimadas. A participação do produtor seria de pagamento de uma taxa/hora de serviço. Todos ganhariam, inclusive o setor industrial, mas principalmente o ambiente.

Comentário de: Plinio | 10 de fevereiro de 2012 | 10:17

Recomendo ao Sr. NEI do comentário acima que junte todos os “Movimentos Sociais, Sindical, Estudantil, Centrais Sindicais, enfim, os Intelectuais, Educadores, Trabalhadores, vítimas em potêncial do neoliberalismo devastador” e que certamente consomem produtos vindos de produtores daquela região – principalmente carne – e vá conhecer de perto a realidade daquela gente. Mas sem esse discurso decorado. Vá lá e veja. Ambientalista de gabinete é o que mais tem.

Comentário de: Lucas Gambogi | 10 de fevereiro de 2012 | 19:23

Recomendo que busquem informações com o setor de manejo de pastagens nativas da faculdade de agronomia da UFRGS. Existem trabalhos e experiências exitosas sem o uso do fogo nos Campos de Cima da Serra. O exemplo mais emblemático é do produtor e professor aposentado da UFRGS, Sr. Aino Jaques, que tem áreas de pastagem nativa sem uso de fogo há mais de 50 anos. O problema é a distância que exite entre a produção das informações (conhecimento científico) e do produtor, enquanto este estiver abandonado no campo o manejo será feito da maneira mais viável e tradicional, o que nesse contexto é o nocivo uso do fogo.

Comentário de: Junaro | 11 de fevereiro de 2012 | 0:49

as proteções ambientais são mais do que importantes.
Porém, as custas destas preservações sempre recaem sobre produtores, embora, os grandes poluídores e destruídores do meio ambiente estejam nas grandes áreas urbanas.

O que acham de prendermos quem joga papel no chão, usa plásticos (sacolas) de forma desnecessária.

Tenho a certeza que as queimadas poluem, mas bem menos que o impacto dos grandes centros, que não tratam esgoto, por exemplo.

Mas e, se não produzirmos, vamos morrer de fome?

Meio ambiente se discute com conhecimento e não com paixões políticas.

Comentário de: cezar | 11 de fevereiro de 2012 | 15:52

Outros problemas são mais graves: concentração de terras fim dos campos….Fim de um modo de vida peculiar e singular..

Comentário de: flavio cunha | 11 de fevereiro de 2012 | 18:47

O problema não é de falta de recursos para máquinas. O problema é o que fazer para substituir as queimadas em áreas dobradas(não dá para mecanizar). Acho que a única solução seria uma intensa dedicação da pesquisa nesse sentido, se é que já não haja, pois como diz a matéria esses setores estão muito distantes uns dos outros. Há um problema grave de queima de matéria orgânica e todo tipo de microorganismo que dá vida ao solo, perda de minerais, etc., além claro da poluição. Esse é um assunto tabu que precisa ser enfrentado de frente sem preconceitos, pois a solução tem que vir antes da punição.

Comentário de: Alice possamai | 12 de fevereiro de 2012 | 0:32

O planeta está sofrendo com o desequilibrio ecológico. As queimadas , além de intoxicar os humanos , aumentando gastos com a saúde das populações, termina com a biodiversidade. Queima tudo o que temos para reflorestar nossos campos naturalmente. Ai vem as sementes com os produtos tóxicos para as pastagens, para terem gado gordo rápido no mercado. Assim continuamos com bons lucros , mas fornecemos alimentos inadequados , para a saúde das populações. As LEIS DEVERIAM SER APROVADAS SEMPRE BENEFICIANDO O ECOSSISTEMA, PROMOVENDO BENEFÃCIO AO PLANETA. COM ESSA POLÃTICA EU ACREDITO EM SOLUÇÃO .. CASO CONTRARIO SÓ TEREMOS DESTRUIÇÃO> E AS GERAÇÕES QUE VIRÃO VÃO VIVER DO QUE? QUE ÃGUA IRÃO TER PARA SOBREVIVER?
A CIÊNCIA AS PESQUISAS Jà COMPROVARAM QUE TUDO SERà PERDIDO. VAMOS RECUPERAR O PLANETA APROVANDO LEIS QUE BENEFICIA NA VIDA. PRECISAMOS ser INTeLIGENtES E DEIxAR DE PENSAR SÓ NO HOJE.

Pingback de: Ambientalista do INGÃ debate queimadas em entrevista ao SUL21 « APEDeMA-RS | 12 de fevereiro de 2012 | 12:16

[...] Clique aqui e leia a matéria completa. Fonte: CP http://correiodopovo.com.br/blogs/cidades/?p=456 Share this:CompartilharTwitterFacebookEmailPrintGostar disso:GostoSeja o primeiro a gostar disso post. [...]

Comentário de: Alberto Fogaça | 14 de maio de 2012 | 12:07

É cômico que ainda haja pessoas cegas às consequencias nefastas da proibição da queimada de campos de cima da serra, caso do Deputado Bordignon.
A luta de agrônomos e desenvolvimentistas contra a prática da queimada é muito antiga, anterior à existência do ambientalismo. Nos anos 50 e 60, lutavam pelo uso mais intenso da terra, e tanto aqueles ansiosos pelo progresso técnico quanto aqueles defensores da socialização dos meios de produção não poderiam deixar de condenar uma prática tradicional ligada à pecuária extensiva e latifundista, visto que a preservação da natureza nem lhes passava pela cabeça.
Com as evidências da crise ambiental nos anos 70 e 80, o ambientalismo buscou soluções para mudar práticas ‘atrasadas”, a proibição de queima de pastagens parecia an´loga à proibição de queima de florestas, objetivo fora do alcance legiferante dos militantes gaúchos do ambientalismo.
Porém não perceberam as totais consequencias dessa proibição. Sem uso do fogo no seu manejo, a produtividade das pastagens naturais cai, o que só pode ser contornado com aporte de soluções intensivas que restringem a posse da terra aos detentores de CAPITAL inatingível a seus tradicionais possuidores.
Inevitavelmente a terra começa a ser desviada para usos como a plantação de floresas artificiais e lavouras intensivas e de alto uso de insumos e venenos agrícolas. Uma solução que os agRônomos dos anos 50 veriam como “progresso” é na realidade a maior agressão que a natureza sofreu na região em 250 anos de ocupação européia.

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