PolÃtica
Ibsen Pinheiro: “falta o discurso que pode ganhar a eleiçãoâ€

"Não existe ex-comunista", diz Ibsen Pinheiro, ex-integrante do antigo PCB: "O único jeito de romper é virar anticomunista, coisa que eu nunca fui†| Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Samir Oliveira
“Podes perguntar o que tu quiseres. Para mim não tem pergunta indiscreta, tem resposta infeliz.†Foi assim que o ex-vereador de Porto Alegre, ex-deputado estadual e federal e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Ibsen Pinheiro (PMDB), recebeu a reportagem do Sul21 para uma conversa de uma hora e meia em sua residência. Ibsen assumiu a presidência no partido no Rio Grande do Sul após o senador Pedro Simon renunciar ao cargo no final de 2010, quando os peemedebistas receberam um duro golpe nas urnas ao não elegerem José Fogaça governador do Estado, nem Germano Rigotto como senador.
Nesta entrevista ao Sul21, Ibsen faz um balanço de sua gestão à frente do PMDB gaúcho e explica porque não continuará mais no comando da sigla a partir de março. “A presidência do partido nunca foi meu objetivo. Foi meu primeiro cargo no partido desde que me filiei, junto com a sua fundação, em 1966. Nunca fui sequer vogalâ€, comenta.
O antigo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) foi a segunda filiação partidária de Ibsen, que formalizou o ingresso na legenda aos 41 anos. Antes, ele havia integrado o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o velho Partidão, como era conhecido. “Dos 14 aos 20 anos, fui adepto da rupturaâ€, recorda.
Advogado formado pela PUC-RS, Ibsen Pinheiro faz parte da geração que se desencantou com o comunismo ao perceber os rumos que tomava a extinta União Socialista das Repúblicas Soviéticas (URSS) e ficou por mais de 20 anos sem partido, até ingressar no MDB.
Hoje, aos 76 anos, ele não se diz um ex-comunista. “Não existe ex-comunista, porque não se renuncia a uma visão de mundo, se renuncia somente à militância num partido. O único jeito de romper é virar anticomunista, coisa que eu nunca fuiâ€, desabafa.
Nesta entrevista, Ibsen analisa também a conjuntura polÃtica nacional e estadual e comenta as eleições para a prefeitura de Porto Alegre este ano. Sem duvidar na resposta, o presidente do PMDB diz que o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati (PDT), teve “mais sorte do que juÃzo†quando convidou o PT para ingressar em seu governo e reconhece que há um forte desejo por candidatura própria no PMDB – que pode ocorrer em torno de seu próprio nome. “Imagine a dificuldade que essas três candidaturas (José Fortunati, Adão Villaverde e Manuela D’Avila)  terão para se combater. Os três terão que fazer o mesmo discurso. Está faltando o discurso que pode ganhar a eleição”.
“O erro de lançar apenas um candidato teve como consequência imediata a eleição de outro senador com o segundo voto do PMDB”
Sul21 – Hoje, passados quase dois anos, como o senhor avalia a derrota do PMDB nas eleições de 2010?
Ibsen Pinheiro – O resultado da eleição foi negativo. Mais do que negativo. A derrota faz parte do processo, mas uma derrota, no modo como aconteceu, é indicadora de que o partido contribuiu para que ela ocorresse. Então 2011 foi um ano em que fizemos uma autocrÃtica do PMDB. Com muita frequência as derrotas partidárias são seguidas de um inventário de culpas. Mas, no nosso caso em 2010, foi tão generalizada a conduta do partido na derrota, que também na autocrÃtica ela foi generalizada. Há um sentimento de que todo o partido deveria repensar-se. Pesaram pequenos erros táticos, mas a concepção global é que requer uma reflexão e um conjunto de medidas.

"A presidência do partido nunca foi meu objetivo. Foi meu primeiro cargo no partido desde que me filiei, junto com a sua fundação, em 1966. Nunca fui sequer vogal" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – O senhor falou em pequenos erros táticos. Foi correto o ex-prefeito de Porto Alegre José Fogaça deixar o comando da Capital para concorrer ao governo do Estado?
Ibsen – Foi um erro. Perdemos duas eleições em uma: a prefeitura e o governo. Se o preço era a aliança com o PDT, era melhor ter feito outra aliança. Tenho essa posição agora e tinha também na época.
Sul21 – E a opção por não preencher as duas vagas ao Senado, deixando apenas Germano Rigotto como candidato?
Ibsen – Esse erro fiz questão de tentar corrigir. Botei meu nome à disposição para uma segunda vaga e disse duas coisas: meu nome está disponÃvel e não vou disputar na convenção. Não queria brigar por isso, mas sempre disse que achava um erro o partido não ter dois candidatos ao Senado. O erro de lançar apenas um candidato teve como consequência imediata a eleição de outro senador com o segundo voto do PMDB. Tenho certeza que, se o PMDB tivesse dois candidatos, ninguém saberia quem seriam os eleitos. Não sei nem se o (Paulo) Paim (PT), que foi o mais votado, estaria no Senado hoje se os seus adversários fossem Ana Amélia (Lemos, do PP), Rigotto e Ibsen. Foi um erro do PMDB, que deu o segundo voto de presente, em vez de ganhar.
Sul21 – E por que o senhor decidiu que não continuará na presidência estadual do partido a partir de março?
Ibsen – A presidência do partido nunca foi meu objetivo. Foi meu primeiro cargo no partido desde que me filiei, junto com a sua fundação, em 1966. Nunca fui sequer vogal. Fui eleito numa circunstância que era uma obrigação, pois eu era o fator de unidade. Não estou renunciando ao compromisso que assumi. Sou presidente do PMDB e estou conduzido um processo de busca por um caminho. Mas não quero ser o próximo presidente.
Sul21 – Como foi esse processo de busca por um caminho? Uma grande queixa é que o PMDB no Rio Grande do Sul se afastou muito de suas bases.
Ibsen – O primeiro avanço foi a consciência e admissão desse problema. Hoje, prefeitos, vereadores e diretórios municipais têm na vida partidária uma influência no mÃnimo igual a das grandes lideranças. A consciência desse problema e a unidade orgânica que se aprofundou, junto com a definição de temas para a ação polÃtica, pode dar ao PMDB o protagonismo que acreditamos que poderá ter nas eleições de 2012 e 2014. O PMDB, por ser muito grande, sofreu muita influência em sua organicidade no nosso sistema federalista. É um partido, em suas somas regionais, produzindo um grande todo, mas de unidade difÃcil. Por isso precisamos buscar a unidade orgânica e os conteúdos temáticos em 2011, fazendo a autocrÃtica em cima dessas duas condutas. Fizemos a convenção em dezembro de 2010, onde costuramos uma unidade de cúpula para fazer uma chapa única à executiva depois do racha quase meio a meio que houve na eleição do diretório. Mas essa unidade de superfÃcie, costurada entre as lideranças, se não se aprofundar, tende a eternizar os conflitos, ao passo que a verticalização trás o conflito à tona e admite o tratamento dele. Então rodamos 15 mil quilômetros pelo Estado no programa “O PMDB que eu quero†e mais de 11 mil quilômetros em atos espontâneos nas bases municipais. No total, percorremos 26 mil quilômetros. Foi uma Coluna Prestes. Foi a busca da unidade orgânica. Mas isso não basta, os partidos precisam ter unidade para uma ação polÃtica. E essa ação polÃtica depende da definição de objetivos. Tomás de Aquino dizia que nos objetivos estamos sempre de acordo. O conflito surge é no processo. Então era preciso que houvesse definições temáticas, e aà o PMDB tem condições de enfrentar alguns problemas de um modo perfeitamente peculiar em relação aos outros grandes partidos.
“Os grandes partidos ocidentais hoje estão num meio caminho entre o conservadorismo e o liberalismo. Isso no Brasil se aplica aos três maiores partidos: PMDB, PSDB e PT”

Na visão de Ibsen Pinheiro, aliança entre PMDB e PT precisa ser "fecunda" e não meramente de sobrevivência: "O PMDB é um fator estabilizador" | Foto: Ramiro Furquim/Sul2
Sul21 – Como seria o modo de agir do PMDB e quais questões o partido precisa pautar na sociedade?
Ibsen – Um partido polÃtico se dedica a duas coisas: a tentar introduzir mudanças na sociedade ou a combatê-las. Há uma frase do (filósofo espanhol José) Ortega y Gasset que é muito interessante. Ele diz que, se não fosse o processo evolutivo das transformações, o mundo seria sempre um eterno combate entre os epiléticos e os paralÃticos. Os epiléticos são os que querem transformar tudo de qualquer jeito. E os paralÃticos, os que não querem transformar nada. O processo polÃtico é, por definição, um processo de transformação em que alguns querem e outros se opõem.
Sul21 – E como se insere o PMDB nesse processo?
Ibsen - O PMDB é um partido de feição social-democrata, na medida em que essa feição é preponderante. O partido não chega a escrever isso em seu programa. Mas, na verdade, os grandes partidos ocidentais hoje são todos mais ou menos social-democratas. Estão num meio caminho entre o conservadorismo e o liberalismo. Isso no Brasil se aplica aos três maiores partidos: PMDB, PSDB e PT. Os três sofrem a sedução do liberalismo, o risco do conservadorismo e acabam optando por um caminho social-democrático.
Sul21 – É possÃvel dizer que há grandes pontos de convergência entre PSDB, PMDB e PT?
Ibsen – Sem dúvida. Isso é bom e ruim. O aspecto negativo é a certa indefinição de contornos. Para ver a identidade basta ver os aliados. São iguais, são os mesmos. Mas tem um aspecto positivo: os partidos que se alternam no poder, sendo aproximados, geram a exclusão das propostas extremas. Não estamos hoje correndo risco de uma ditadura de direita, nem de uma revolução de esquerda, porque nenhum dos três grandes partidos trabalha com essas hipóteses.
Sul21 – E como o PMDB pode deixar uma marca de atuação em meio a esses outros dois grandes partidos?
Ibsen - O PSDB parece que vive uma crise de identidade, e o PT sofre os efeitos da brusca ampliação do seu espectro. O PT em algumas matérias fica imobilizado. Por exemplo, na questão ambiental. O PT tem vinculações históricas com minorias militantes nessa área, e essas minorias são radicais, é um preservacionismo sem atenção ao outro lado, que é a produção de alimentos e o desenvolvimento. Vivemos na natureza, mas também vivemos da natureza. E o PT tem dificuldade de conciliar essas duas posições. Um grande partido como o PMDB, que não seja prisioneiro da militância fanática, nem da motosserra, pode batalhar um mecanismo que se define com muita facilidade mas se pratica com extrema dificuldade, que é o desenvolvimento sustentável. Como objetivo, estamos todos de acordo. Agora, na hora de definir se em todas as encostas não se poderá plantar, é preciso olhar para as áreas que ficam disponÃveis para produção de alimento. O meio ambiente é um exemplo de uma matéria de grande relevância em que o PMDB pode ter um papel articulador, construtor, especialmente porque o principal partido do governo fica imobilizado. Teremos que votar, talvez já em março, a redação final do Código Florestal, que vem ao plenário com posições extremas. Ou se concilia, ou não passa nada. E o PMDB tem esse papel conciliador. É uma matéria de grande relevância que só um grande partido que não seja prisioneiro das extremidades pode conduzir.
Sul21 – Na sua opinião, o PMDB tem um papel moderador na aliança em nÃvel nacional com o PT?
Ibsen – O PMDB, quando enfrentando problemas pontuais, tem formulado uma maioria razoável para posições de um avanço moderado. O partido faz com o PT um eixo capaz de produzir resultados positivos, que brequem o reacionarismo e o radicalismo. A aliança entre PMDB e PT precisa ser fecunda e não meramente de sobrevivência. O PMDB é um fator estabilizador. Evito a palavra “centroâ€, porque pode indicar um equilÃbrio para não mexer em nada. E eu sou por mexer.
Sul21 – Nacionalmente, a imagem do PMDB é a de um partido fisiologista, que só se interessa em obter cargos na esfera pública.
Ibsen - A cobertura da imprensa valoriza extremamente a disputa de cargos, como se ela fosse negativa e como se fosse a única coisa que entre na pauta. A disputa de cargos é natural e inevitável. Não há nada de negativo no fato de os cargos serem exercidos pelas forças que disputam as eleições. A alternativa a isso é a ditadura. Mas é evidente que há distorções e elas não ocorrem só por causa da natureza humana. O nosso modelo favorece distorções. O modelo eleitoral em que cada candidato a deputado é um partido hipertrofia a importância dos cargos. Como não proponho mudar a natureza humana, que mudemos nosso sitema eleitoral.
“Com grande frequência, o conjunto de um partido é subordinado ao peso da grande liderança. Lula é um exemplo disso”
Sul21 – Que mudanças o senhor defende?
Ibsen – Por exemplo, numa eleição com lista pré-ordenada, os cargos em disputa têm preenchimento partidário. O partido é que faz a campanha. As grandes distorçoes do sistema eleitoral, que são as nomeações e o financiamento privado, diminuem dramaticamente num modelo de voto partidário. É preciso limitar o acesso ao poder pelo critério do voto, para que só se chegue ao poder quem tem voto. O Congresso Nacional tem 25 partidos e somente PMDB, PSDB e PT disputaram a eleição em todo o paÃs. Os outros aparecem numa coligação em forma de geléia junto com esses três, com variações as mais antÃpodas.

"A disputa de cargos é natural e inevitável. Não há nada de negativo no fato de os cargos serem exercidos pelas forças que disputam as eleições. A alternativa a isso é a ditadura" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – Aqui no Rio Grande do Sul, o PMDB viveu durante décadas sob a luz de uma liderança de grande projeção, que é o senador Pedro Simon. Ele já está se afastando da vida partidária. Como ficará o PMDB sem a sua atuação?
Ibsen – As lideranças carismáticas têm um significado positivo importante. Com frequência, especialmente nos momentos difÃceis, elas têm mais amplitude que o próprio partido. Um exemplo disso é o Lula. Essas figuras são boas para o partido, mas existem aspectos negativos. Com grande frequência o conjunto do partido é subordinado ao peso da grande liderança. Ninguém tem dúvida que um homem que nunca disputou eleição (o ex-ministro da Educação, Fernando Haddad, do PT) será candidato a prefeito de São Paulo porque Lula quis assim. E que Dilma chegou à presidência da República porque Lula quis assim. Então o apoio e os votos das grandes lideranas são positivos, mas há efeitos restritivos sobre a democracia interna de um partido. Isso aconteceu com o PMDB com o Ulysses (Guimarães) e no PMDB gaúcho com o Simon, com todos aspectos positivos que foram evidentes. Não se decreta substituição desse tipo de liderança, até porque essa espécie de liderança não se inventa, ela surge no processo polÃtico. Mas temos no PMDB um bom trabalho coletivo que tem tido a capacidade de expressar a variedade de sentimentos do partido. O partido hoje vive sua vida interna de um modo como há muito tempo eu não via.
Sul21 – Com a aliança entre PMDB e PT em nÃvel nacional, o PMDB gaúcho ficou meio deslocado, já que no Estado a relação entre esses dois partidos sempre foi de oposição. Como o PMDB se posiciona hoje em relação ao diretório nacional?
Ibsen – Eu gostaria que vivêssemos num Estado unitário, mas isso não se escolhe. A discussão sobre o modelo federalista nasceu junto com o federalismo moderno quando os Estados Unidos e suas lideranças perceberam que é impossÃvel a unidade formal e absoluta num paÃs de grandes dimensões territoriais. E aà precisamos buscar um compromisso entre a preservação da unidade nacional e a dificuldade na definição de objetivos. Construir um partido polÃtico numa federação é difÃcil. E o PMDB seguiu o caminho fácil de uma acomodação genérica entre as suas lideranças regionais. Isso produz uma indefinição nacional difÃcil de superar. O PMDB gaúcho tem uma caracterÃstica de aguerrimento e de definições temáticas, um pouco a ver com a própria história do Rio Grande do Sul. Os partidos aqui são cobrados a ter posição. É mau negócio não ter posição no Rio Grande do Sul. Por isso, temos tido diferenças com as posições nacionais. Não significa necessariamente enfrentamento. Já significou no passado, especialmente quando preponderavam nacionalmente no PMDB os setores de menor qualidade polÃtica… Para usar um termo delicado.
Sul21 – E atualmente, como está a relação do PMDB gaúcho, que integra o governo federal, com o PMDB nacional?
Ibsen – Temos uma convivência natural. O PMDB gaúcho não se sente oposição ao governo da presidente Dilma (Rousseff, do PT) e não se sente obrigado a apoiar seus atos. A ação polÃtica não se faz por decisões individuais: eu posso ser contra e ter que votar a favor. Essa definição está funcionando hoje entre o PMDB nacional e o gaúcho nas questões pontuais. Por exemplo, o PMDB gaúcho largou na frente para apoiar Dilma quando ela propôs um salário mÃnimo que cuidava também do equilÃbrio das contas. E o principal partido do governo, o partido da presidente, não conseguiu apoiar integralmente a posição dela e rachou, porque o PT é muito sensÃvel à s lideranças sindicais. Na questão do meio ambiente, o PT ficou muito sensÃvel à s ONGs e os partidos conservadores ficaram muito sensÃveis ao agronegócio. O PMDB pôde defender o meio ambiente e a produção primária. Foram dois momentos decisivos, em duas votações importantes, em que o PMDB teve uma posição aglutinadora e não precisou fazer o oposicionismo histérico, nem o apoio fisiológico.

"Escutei a presidente Dilma dizer que construiria um grande consenso nas reformas polÃtica e tributária. Desculpa, presidente, mas não construirá. A unanimidade é para não mexer nas coisas, para deixar como está" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“O PT exagerou, foi longe demais numa base ampla que é boa para fazer nada. Ficam prisioneiros da estabilidade”
Sul21 – O senhor entende que o PMDB tem uma função moderadora no governo federal. Mas como avançar em pautas cruciais para o paÃs se há sempre a tentativa de conciliar interesses?
Ibsen – O PT sofreu uma transformação que não foi casual. Surgiu quando Lula escolheu um empresário conservador como seu vice (José Alencar), assinou a carta aos brasileiros e disse: chega de ser candidato para perder. O ex-presidente (dos Estados Unidos, Franklin Delano) Roosevelt dizia que o radical é alguém que tem os dois pés plantados solidamente no ar. Lula perdeu e perderia todas as eleições que disputasse com as bandeiras radicais. Mas essa vitória tem um preço. O PT exagerou, foi longe demais numa base ampla que é boa para fazer nada. Ficam prisioneiros da estabilidade. Escutei a presidente Dilma dizer que construiria um grande consenso nas reformas polÃtica e tributária. Desculpa, presidente, mas não construirá. A unanimidade, ao contrário do que dizia Nelson Rodrigues, é esperta. É para não mexer nas coisas, para deixar como está. O consenso sobre as reformas polÃtica e tributária já está feito em torno desses modelos vigentes, que não são bons.
Sul21 – Então como agir para provocar mudanças necessárias?
Ibsen - É preciso aglutinar as forças interessadas na mudança para derrotar as forças adversárias. Sem esse enfrentamento, as coisas não mudam. É preciso construir maiorias em torno de propostas, e não definições consensuais. A bancada evangélica é extremamente conservadora. Tão conservadora que não disputa eleição. Cada candidato entra no partido da sua escolha, faz votos pelo seu proselitismo nada ideológico e chega no Congresso. São 80, é uma bancada que não foi eleita, embora os seus integrantes tenham sido eleitos. Eles se opõem a diversas discussões, como as questões do aborto ou de direitos aos homossexuais, por exemplo. O PT não precisa desse tipo de aliança, deve optar por alianças que acompanhem alguns caminhos. É difÃcil renunciar a apoio, mas o preço (de mantê-lo) é carÃssimo.
Sul21 – Isso imobiliza o andamento de pautas importantes no Congresso Nacional?
Ibsen – Imagina como é tomar uma decisão com tantos partidos na base aliada. Nesta última legislatura eu cunhei uma definição para o que acontece no Congresso Nacional. Só passam dois tipos de projetos: os do governo e os desimportantes. Os do governo, que nem sempre são importantes, passam porque ele banca. E os desimportantes passam porque não contrariam interesses. Então o dia nacional do agrimensor é aprovado por unanimidade. E o modelo da partilha na exploração do petróleo, que é um conflito econômico e ideológico brutal, é votado porque o governo bancou. A minha emenda dos royalties só passou porque grudou na garupa de um projeto vital para o governo. Um modelo que só aprova projetos do governo ou projetos irrelevantes precisa ser transformado. E isso não vai ocorrer consensualmente, somente por maioria. Esse é o desafio de um presidente que queira fazer as transformações. Espero que esse presidente seja a Dilma. Ela precisará ter a capacidade de renunciar a apoios. Terá que dizer: “Muito obrigado, seu apoio custa muito caroâ€.
Sul21 – Conversamos sobre PT e PMDB em nÃvel nacional, mas como o senhor avalia a relação entre esses dois partidos no Rio Grande do Sul?
Ibsen – Aqui, PT e PMDB têm jeito de Gre-Nal. A disputa já ganhou componentes emocionais a favor e contra. Não é apenas entre as cúpulas, é de alto a baixo. PT e PMDB hoje sintonizam os dois sentimentos preponderantes no Rio Grande do Sul, embora haja outros partidos de presença e estrutura. Há uma visão de Estado nessa oposição. No Rio Grande do Sul, o processo de aparelhamento do Estado produzido pela ampliação do PT não é tão agudo quanto nacionalmente, mas está se acentuando. O aparelho de Estado vai se tornando prisioneiro e paralisando tudo o que é importante. Esse é basicamente o PT gaúcho hoje: paralisado no fundamental e barulhento no que é acessório. O PMDB tem que fazer o contrário. É preciso definir questões centrais, como o papel do Estado numa estratégia de desenvolvimento. Um exemplo: o PT tem grande dificuldade de conviver com a liberdade de imprensa. O PMDB também, porque a imprensa sem limites acaba determinando caminhos de acordo com os seus interesses. Mas a visão do PT é a da limitação pelo Estado. A experiência história nesse sentido é péssima, porque em vez de matar o excesso de liberdade, mata a própria liberdade. O PMDB defende a criação de mecanismos não estatais para se combater o excesso da liberdade, sempre preservando a liberdade.
“Dizer que o PMDB gaúcho é de direita é tão impróprio quanto dizer que o governador Tarso Genro é de esquerda”

"José Fortunati teve mais sorte que juÃzo ao convidar o PT para integrar o governo. Se o PT entra por uma porta, o PMDB sai pela outra" | Foto: Ramiro Furquim/Sul2
Sul21 – O governador Tarso Genro (PT) diz que, no Rio Grande do Sul, o PMDB foi para a direita.
Ibsen – Antigamente era fácil rotular isso, porque a esquerda ia para a cadeia. Aliás, dizia-se que a esquerda só se unia no chilindró. Hoje, como ninguém vai para a cadeia, esquerda é quem se diz de esquerda. E como o charme está na esquerda, todo mundo se diz de esquerda, o que não é verdade. A mais velha definição sobre isso surgiu na convenção francesa e dizia que esquerda é para transformar e direita é para conservar. E nosso paÃs traduziu esse conceito mal até na questão geográfica. Na convenção francesa, a esquerda ficava à direita do plenário, porque estava à esquerda da mesa. E, no Brasil, a esquerda senta à direita da mesa. Confudimos os conceitos já na geografia. E hoje, na doutrina, a confusão é tal que perdeu objeto a definição. Hoje dizer que o PMDB gaúcho é de direita é tão impróprio quanto dizer que o governador Tarso Genro é de esquerda. Ambos têm um compromisso semelhante de jogar o jogo democrático. O PMDB cristalizou essa feição social-democrática que não prescinde do papel essencial do Estado na definição das estratégias, mas não quer também o Estado intrometido, como temos hoje.
Sul21 – E quanto às eleições municipais deste ano, o senhor acha que o PMDB deve ter candidato próprio à prefeitura de Porto Alegre?
Ibsen – Fizemos uma aliança aqui e o normal é mantê-la enquanto nossos aliados se mantiverem desejosos da parceria e leais. Nossa aliança correu um sério risco quando o prefeito (José) Fortunati (do PDT, ex-vice do peemedebista José Fogaça) convidou o PT para entrar na administração e o PMDB não foi consultado neste convide. Ora… Não se convida um adversário para integrar sua ação polÃtica num governo sob pena de produzir a geleia mais incompreensÃvel. É o que está ocorrendo em Canoas, por exemplo (governada pelo petista Jairo Jorge). Quando o poder se transforma em atrativo para todas as forças polÃticas, perde a capacidade de andar, fica majoritário para manter-se majoritário e continuar majoritário. O objetivo passa a ser simplesmente a maioria pela maioria. E o partido que produz esse inchaço paga o preço mais caro. Quando o prefeito convidou o PT, criou a seguinte situação: se o PT entra por uma porta, o PMDB sai pela outra. Ali, houve um sério risco. E há uma noção de que isso só não aconteceu porque o PT recusou o convite. O prefeito Fortunati teve mais sorte do que juÃzo nesse episódio. Será que, se o PT entrasse no governo, apoiaria o Fortunati na disputa eleitoral? Se o prefeito quiser recompor e manter a aliança, o PMDB terá que examinar essa possibilidade. Dentro do partido, há forças que acham que a aliança se esgotou e que é a hora da candidatura própria. A direção estadual não deve ignorar as eleições municipais, mas também não deve conduzÃ-las. Mas não podemos ignorar, porque 2012 e 2014 fazem parte do mesmo processo polÃtico.
Sul21 – O quadro atual apresenta as candidaturas de Adão Villaverde (PT), José Fortunati (PDT) e Manuela D’Ãvila (PCdoB). Todos esses partidos estão contemplados no governo estadual. Há espaço para uma candidatura de oposição a esse espectro polÃtico?
Ibsen – Neste quadro, não se sabe quem vai perder a eleição em Porto Alegre, mas se sabe quem irá ganhar: Tarso Genro. Isso é uma anomalia, porque deixa metade ou mais do eleitorado de fora da escolha. Imagine a dificuldade que essas três candidaturas terão para se combater. Os trẽs terão que fazer o mesmo discurso. Está faltando o discurso que pode ganhar a eleição.
“Os jornalistas me perguntam se serei candidato, mas eu digo que eles precisam me compreender. Eles vivem da antecipação. Eu vivo da administração do conflito”
Sul21 – Dentro do PMDB, diversas lideranças apontam no seu nome como candidato a prefeito de Porto Alegre. O senhor aceitaria concorrer?
Ibsen – A presidência de um partido, de uma Câmara ou de um paÃs é um exercÃcio de silêncio na maior parte do tempo. Se eu tivesse dito em qualquer momento uma das duas coisas que posso dizer, ambas criariam um imenso problema dentro do PMDB. Se eu tivesse dito que sou candidato, antecipava a disputa. Antes de definir qualquer alianças já estarÃamos definindo um candidato. TerÃamos toda a desgastante discussão de nomes antes de definir um modelo. Se eu digo que não sou candidato, desencadeio um processo ainda mais agudo entre os que querem ser candidatos. Então eu, na condição de presidente do partido, estaria atrapalhando o partido. Por isso não vou e não devo dizer nada. Os jornalistas me perguntam isso, mas eu digo que eles precisam me compreender. Eles vivem da antecipação. Eu vivo da administração do conflito. Não posso e não devo dizer. Minha opinião pessoal é extremamente secundária, porque nada indica que é ela que irá preponderar. Percebo que há um sentimento pela candidatura própria e que meu nome é uma alternativa. Mas falta de nomes não é o problema do PMDB. Falta de definição, sim, pode ser um problema. Quando o partido se definir, os nomes aparecem.

"Percebo que há um sentimento pela candidatura própria e que meu nome é uma alternativa. Mas falta de nomes não é o problema do PMDB. Falta de definição, sim, pode ser um problema" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Sul21 – E em 2014 o partido deve ter candidato ao Palácio Piratini?
Ibsen – O PMDB fatalmente terá candidato. Pelo número de votos, somos o maior partido do Estado. Governamos o Estado três vezes, temos belos nomes, como Fogaça, (ex-governador Germano) Rigotto, (o prefeito de Caxias do Sul, José Ivo) Sartori e (o ministro da Agricultura) Mendes Ribeiro Filho. São quatro grandes nomes: um prefeito da Capital que foi reeleito, um governador com uma bela gestão, um ministro de Estado e um prefeito com uma avaliação excepcional na segunda maior cidade do Estado. Quem tem quatro nomes como esses, terá que procurar um vice-governador entre os aliados.
Sul21 – O senhor arriscaria algum palpite sobre o resultado dessa eleição?
Ibsen – Farei a única profecia possÃvel: o PMDB, com qualquer desses quatro nomes, contra Ana Amélia e Tarso Genro, inevitavelmente estará num segundo turno. Mas não me peça mais profecias…
Comentários (8)
» Deixe seu comentárioEXCELENTE ENTREVISTA! Mantendo a qualidade do SUL21. Esperamos que continue nesta linha do ¨pluri”: quem ganha somos nós, leitores.
Muito boa a entrevista Ibsen é um ótimo estrategista,não sei se seria bom administrador o tempo dirá. Por que não se fala mais no PTB?
Boa Entrevista. Gostei da parte que fala , indiretamente, de Reforma PolÃtica (Voto em Lista) ; prova que Ibsen também tem uma visão de fortalecimento dos Partidos como meio de brecar o “business” , que se transformou a polÃtica.
Excelente entrevista, justamente, coloquei esta observação no questionário do sul21, pois em suma, havia entrevistas de setores ligados (in)diretamente ao PT. No entanto, existem outros atores sociais que fazem a polÃtica em nosso estado e um nome, por mais que não concorde com algumas opiniões, e que nunca deve ser deixado de ouvir é Ibsen Pinheiro. Parabéns, equipe do Sul21…
Excelente a entrevista. Ibsen é um quadro polÃtico. Sabe fazer mediações, sem sectarismos. As vezes entorna o bastão na defesa de suas posições polÃticas. Pena que o MDB como ele gosta de dizer sempre faz opções anti-PT. Apoiou a YEDA e sequer uma citação a ex-governadora que seria sofreria o impeachment não fosse a posição negocista do PMDB aqui.
Pagam alto preço por isso. Outra discordância em sua fala é em relação as posições liberais ou conservadoras presente nos Partidos no paÃs. Há uma posição progressista e outra conservadora e estas assumem posição ideológica em temas cruciais como o código florestal. Somos um paÃs contraditório: Na Amazônia derrubamos o mato para criar gado aqui no sul acabamos com o gado para plantar euxaliptos. Obvio que seria melhor ficar com estávamos….
sds socialistas
Então exigir democraticamente a regulamentação dos artigos da Constituição Federal que não regulamentados em relação a comunicação social, artigo 220 e 221 – é o que o PT quer – é para o nobre ex – deputado uma forma clarevidente de não saber conviver com a liberdade de imprensa?Olha, acho que esta asneira repetida pela grande mÃdia e seus capachos, que regulamentar os artigos da Constituição é atentando a liberdade de imprensa, já deu. Hoje mesmo na Zero Hora tem um artigo do senhor Bossard repetindo os cliches da grande mÃdia sobre o assunto e deitando falação sobre o Argentina e Equador, mas num desconhecimento sobre o debate da mÃdia nesses paÃses que é de dar pena. O problema é que o Brossard e o Ibsen, tenho absoluta certeza pois os leio, só se informam pela grande mÃdia, logo, querer o cumprimento da Constituição Federal em matéria de comunicação social ou é a volta da censura ou é não saber conviver com a liberdade de imprensa. Tenha dó.
Excelente entrevista, uma aula de PolÃtica. Pra quem quer ( e consegue enxergar) há aqui um sólida desconstrução de mitos: o do esquerdismo messiânico e o do conservadorismo reacionário. Só discordo das listas fechadas, pq onde foram implantadas, não funcionaram. Não se deve retirar do eleitor a primazia da escolha, ao contrario, deve-se sim educar para a democracia.
Excelente entrevista. Parabéns ao Deputado Ibsen e ao Sul21!