Cultura

Com apoio do governo, rap gospel Grazy Liz dá os primeiros passos

Rachel Duarte

Daqui um mês, o clipe “Fazendo a Diferença” estará concluído e rodando o mundo através da internet. A estrela principal é Priscila Graziela da Silva, agora conhecida como Mc Grazy Liz. Com apenas 20 anos, a canoense ganhou a gravação do videoclipe, a produção e gravação de um CD com 11 faixas e a divulgação do seu trabalho por meio de camisetas e folders. Ela venceu um edital Mais Cultura Microprojetos Território de Paz, parceria entre os ministérios da Justiça e da Cultura, que ela descobriu por incentivo da Casa das Juventudes de Canoas.

“Sei das dificuldades do rap", diz Grazy Liz: "Prefiro deixar acontecer" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

As chances de Grazy Liz no meio artístico não são poucas, uma vez que ela é uma das raras cantoras de rap gospel em atividade no Brasil. Cantora desde os 17 anos e evangélica, a jovem prefere manter o pé no chão em relação à carreira artística. “Sei das dificuldades do rap, principalmente deste segmento que eu escolhi, então, encaro tudo de forma normal. Prefiro deixar acontecer. Estou feliz pelo que está acontecendo, porque cantar é o que eu sempre quis fazer. Sei que é difícil, mas eu vou indoâ€, acredita.

A primeira vez que cantou de forma mais profissional foi atendendo a convite de um parente que já era rapper. Eles cantavam na igreja do bairro, mas, não foram adiante como dupla. “Ele largou e eu fiquei. Ai comecei a cantar com minhas irmãsâ€, conta.

O grupo UDI (Ungido de Israel) era composto por Priscila (Grazy Liz) e suas irmãs, Fernanda (22 anos), Letice (12 anos) e Andresa Nunes (17 anos). “Agora ela está gravando seu disco e tocando uma carreira própria. É uma conquista de todas nósâ€, conta Andresa, que tem participação no clipe de Priscila.

"É uma conquista de todos nós", diz Andresa, irmã e ex-parceira artística de Grazy Liz | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

As 11 músicas do CD “A Vida†foram compostas por Grazy Liz e gravadas no estúdio da Casa das Juventudes de Canoas, aberto para gravações gratuitas de artistas locais. Ela fala na linguagem dos jovens e passa uma mensagem de esperança por meio da fé, principalmente aos viciados em drogas. “Ela conta casos da vida dela, que são a realidade de muitas pessoas. Que perderam amigos ou familiares por causa do vício ou do crime. Ela também tenta passar uma mensagem contra o preconceito ao rap gospelâ€, conta o coordenador da Incubadora Social da Casa da Juventude de Canoas, Rafael Diogo dos Santos.

A cultura gospel e o movimento hip hop tiveram um encontro institucionalizado há 10 anos no Brasil, com o lançamento da gravadora 7 Taças. Foi a partir desta gravadora que se constituíram com mais clareza produtos comerciais religiosos com caráter de contestação social, o chamado ‘novo protestantismo’ praticado no Brasil. O grupo que deu origem ao selo é o Apocalipse 16, cujas letras imprimem no discurso religioso a crítica social típica do hip hop e que foi expressa, de maneira totalmente diversa, em alguns movimentos pentecostais. O Apocalipse 16, junto com os grupos Ao Cubo e a cantora Carol com K, são as principais inspirações de Grazy Liz.

Rafael também é rapper e vê potencial na jovem canoense. “Ela ainda tem muito que aprender, mas já começa como poucos começam, tendo um CD e todo um suporte de divulgação. Eu, que estou a 10 anos na estrada, ainda não consegui gravar o meuâ€, compara.

Grazy Liz compôs todas as músicas de seu CD de estreia, "A Vida" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

O empurrão que sempre falta

Para gravar o videoclipe e o CD, Grazy Liz se inscreveu no edital de microprojetos ligados ao Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci), que em Canoas foi implantado no bairro Guajuviras. Grazy Liz reside na comunidade e descobriu a Casa das Juventudes pela irmã Andresa, que foi a primeira a se inscrever. “Eu me inscrevi primeiro, mas ela foi chamada primeiroâ€, conta Andresa.

Depois de frequentar as oficinas de capacitação musical durante um ano, ela começou a pensar em aproveitar a estrutura e os contatos que fez na Casa e alçar vôo. Como ainda é muito jovem, ela recebe muito estímulo dos coordenadores do programa, para seguir forte no objetivo da carreira artística profissional e não desperdiçar a chance alcançada.

Além de Grazy Liz, outros 200 jovens são atendidos na Casa. O estúdio de música é completo: contém ilha de software, equipamento digital e possibilita gravações, produções musicais e ensaios. As inscrições para utilização do estúdio de forma gratuita estão abertas e são destinadas para os canoenses. Futuramente o estúdio será referência para os jovens de periferia que buscam na música uma forma de vencer na vida, conta o coordenador do estúdio Rafael Diogo dos Santos.

Gravações do videoclip ocorreram no bairro Guajuviras, em Canoas (RS) | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Rafael explica que outra ação disponível na Casa é o Observatório de Construção de Editais. “A gente fica atento aos editais públicos disponíveis no Ministério da Cultura e dispara para a nossa rede de artistas cadastrados. Aqui na casa temos oficinas de formação musical e ainda o estúdio disponível para gravações de forma gratuitaâ€, conta.

“Eu entrei para participar das oficinas. Trabalhava de manhã e estudava à noite, então, vinha a tarde para a Casa das Juventudes. Além de me ocupar, eu adorava vir aqui e vi que aqui poderia ser uma forma de visibilidadeâ€, conta Grazy Liz.

Depois de ter produzido o CD e ter lançado o single “O Sonho†em um show de divulgação do trabalho, Grazy Liz começou a ampliar os contatos nas redes sociais e receber propostas para shows.  O lançamento oficial do CD “A Vida†será no dia 10 de março, no festival de música “E agora como faz?â€, que irá incentivar novos talentos a seguir o exemplo da mais nova cantora de rap gospel do Rio Grande do Sul. A produção do álbum da nova MC foi feito pelos educadores de música da Casa das Juventudes Jeferson Moura de Melo (Maninho Melo) e Caio Dias, com produção executiva do educador social Rafael Diogo dos Santos. A tiragem será de mil cópias, a serem distribuídas e vendidas no estado.

"“Eu entrei para participar das oficinas. Trabalhava de manhã e estudava à noite" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Lançamento oficial do CD “A Vida†será em março | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

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