Impedimento

Chile e um trago de mote con huesillos

Duas coisas costumam despertar o consumista que se esconde em algum lugar do meu pâncreas: camisas de futebol e livros. Em geral a coisa pendia para os uniformes, mas, na última viagem que fiz, comprei muitos livros e nenhuma camisa, o que me pareceu uma tremenda falta de seriedade. Mesmo estando com os cofres tão rompidos pelo mercado editorial, algo que eu nunca leria é aquela série de 1001 coisas necessárias para a existência antes de morrer. Devem ser as listas mais tediosas do mundo, e só servem para o sujeito se revoltar com as ausências. Você certamente já viu um desses. São os mil e um discos que devem ser ouvidos, os mil e um filmes que precisam ser vistos, os mil e um livros imprescindíveis para se ler (nenhum da série) e até, desconfio, as mil e uma posições sexuais a serem executadas antes da impotência, que é uma espécie de morte. Por isso, nunca li algo como os mil e um lugares para se conhecer antes de morrer. Mas sei que deveria constar na lista a experiência de ver a Cordilheira dos Andes desde o céu, à noite.

Vi os Andes desde o céu não porque já tivesse morrido e fosse tarde demais para preencher qualquer uma das listas, embora deva admitir que a hipótese tornaria esse texto mais intrigante, mas por estar num avião. E odeio me valer do clichê de que me faltam palavras para descrever o que vi, esse recurso de todos os que não somos capazes ou temos preguiça de procurar as palavras ideais para descrever algo, mas nunca serei capaz de explicar como é ver de cima a cadeia de montanhas mais alta do continente. O que posso dizer é que você está lá, sobrevoando a Argentina, e o mundo abaixo de ti é negro, tudo é negro, as cidades são pequenos amontoados de luz amarela perdidos na escuridão em que pastos e rios se confundem, e de repente os Andes surgem, se elevam – extraordinariamente se elevam abaixo de ti –, e os Andes não são negros, mas azuis. Todos os tons de azul, se a lua permitir. Nesta época do ano, basta que a lua permita, pois o céu estará sempre limpo. Você está entrando no Chile, e o verão ali é previsível: ele se emenda com a primavera e forma seis meses de seca.

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