Cultura
Carnaval na Quarta Colônia: festa na rua e no salão de baile

Praça principal de Nova Palma no sábado de carnaval da Quarta Colônia | Foto: Vivian Virissimo/Sul21
Vivian Virissimo
O que levaria cerca de 28 mil pessoas deixarem de rumar para o litoral gaúcho ou catarinense e permanecer na região central do Rio Grande do Sul com as suas reconhecidas e elevadíssimas temperaturas? Além de fugir do insano tráfego e dos destinos convencionais, o motivo é o improvável Carnaval Regional da Quarta Colônia que ocorre em sete noites, em sete localidades diferentes.
O carnaval da Quarta Colônia vem ganhando fama como o “maior Carnaval de Salão do Centro do Estado”. Próxima de Santa Maria, a região tem esse nome por ter sido o quarto centro de imigração italiana no estado, depois de Caxias do Sul, Bento Gonçalves e Garibaldi. O carnaval acontece em Vale Vêneto, Dona Francisca, Nova Palma, São João do Polêsine, Ivorá, Agudo e Faxinal do Soturno. O sucesso é tanto que os organizadores estimam atrair 28 mil pessoas este ano.

Tradicionais famílias de Nova Palma, os Dalla Fávera acompanham o crescimento do carnaval na cidade e região | Foto: Vivian Virissimo/Sul21
Uma das noites mais concorridas ocorre na pacata cidade de Nova Palma, distante 60 km de Santa Maria, que vê sua população dobrar na noite de sábado de Carnaval. Com pouco mais de 6 mil habitantes, o município recebe aproximadamente 5 mil pagantes que entram no baile no clube e cerca de 2 mil pessoas que se aglomeram na principal praça da cidade. Em 365 dias do ano, possivelmente esse seja o dia em que mais pessoas circulam na cidade que ainda preserva a cultura de “observar o movimento” na frente da casa, como é o caso da família Dalla Fávera que reside em Nova Palma desde 1924.
Carnaval no interior: fórmula mescla blocos de carnaval e bailes tradicionais
Vários fatores determinam o sucesso do Carnaval da Quarta Colônia. O primeiro certamente é a iniciativa dos presidentes de clubes que se reuniram para criar a Avajaces (Associação Vale do Jacuí Centro de Entidades Sociais). A entidade é responsável pelo planejamento e organização das festas desde o fim da década de 1990.
“A Avajaces foi criada para não haver coincidência de datas de bailes nos municípios já que quase todos tem menos de 10 mil habitantes. Bailes em duas cidades na mesma noite, evidentemente, provocaria falta de público. Então foi criado pré-carnaval, baile na sexta, sábado, domingo, segunda e terça, pré enterro dos ossos e o enterro dos ossos. Assim não tem coincidência, todos os municípios têm seu baile”, contou o atual presidente, Arnildo Beno Wendling.
Outro fator importantíssimo para entender o sucesso da Quarta Colônia é o sistemático esvaziamento da festa na principal cidade da região. “Santa Maria teve problemas na organização do carnaval. Muitos clubes geraram muita concorrência o que elevou os preços de uma maneira geral. Além disso ofereceram resistência quanto a blocos e nós, pelo contrário, oferecemos uma alternativa”, relatou Wendling.
Os organizadores estimam que cerca de 70% do público seja de Santa Maria. É de lá que partem a maioria dos ônibus e vans que garantem a segurança dos foliões e trazem as pessoas que participam dos blocos, outra característica marcante do carnaval na Quarta Colônia. São 46 blocos cadastrados vindos não só de Santa Maria, mas também de outras cidades da região como Júlio de Castilhos, São Sepé, Candelária, Restinga Seca e Paraíso. O principal bloco, o Nagandaia, vai levar 850 pessoas para o giro nos municípios.
“O Carnaval da Quarta Colônia faz sucesso pela diferenciação de noites, pela maneira que a festa é realizada. Cada dia é uma estrutura e isso chamou atenção de uma parcela significativa de pessoas. Muda o foco do carnaval pois representa carnaval de clube e de rua ao mesmo tempo, que se confundem num só. Temos a opção de ouvir a bandinha dentro do clube, musica eletrônica e os hits do momento na rua. A tudo isso se soma que cada cidade tem um estilo diferente”, disse Lucas Machado, organizador do Nagandaia.

Adereços de carnaval fazem sucesso com o público do carnaval da Quarta Colônia | Foto: Luiz Otávio Ribas
A maioria do público é formada por jovens estudantes de Santa Maria, mas não foi difícil encontrar foliões da “velha guarda” e crianças entusiasmadas pelo batucada do carnaval. O grande movimento gerado pelas bailes e blocos também atrai alguns vendedores ambulantes. É o caso da comerciante Silvia Colombo viajou até Nova Palma para aproveitar a euforia dos foliões e vender adereços carnavalescos. Trabalhando em companhia da família, ela contou que já vende artigos de festa há três anos no roteiro de cidades da Quarta Colônia. Segundo ela, é possível faturar R$1000 em colares e pulseiras luminosas por noite.
Sobre marchinhas e baladas
Em termos musicais, portanto, a fórmula encontrada para alavancar a festa foi garantir a preservação da cultura das marchinhas de carnaval que fazem sucesso com os animados trenzinhos e reservar um bom espaço para as músicas de sucesso do momento, seja eletrônica ou o sertanejo universitário de Michel Teló. Todas as folclóricas marchinhas com seus saudosos refrões foram executadas pela banda: “Mamãe, eu quero mamar”, “A pipa do vovô não sobe mais”, “Eu mato quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato”, entre outros.
“Exigimos que a banda toque marchinhas em sequência para caracterizar um baile de carnaval. Claro que tocamos a outras músicas da moda. Mas tem que ter muitas marchinhas, senão acaba um balada, um boatão. Em Santa Maria não se vê isso e o público prefere que se remeta ao carnaval”, disse Arnildo.
Os preços baixos para entrar nos bailes também contribuíram definitivamente para a consolidaçao da Quarta Colônia como um carnaval alternativo. Os ingressos saem por R$20 e quem participa de blocos desembolsa R$17. Cada baile é produzido pela diretoria do clube Local em conjunto com a Avajaces que fixa o preço não só do ingresso, como também das bebidas comercializadas no baile. Começando timidamente com 9.070 foliões pagantes em 1999, a Avajaces se orgulha de divulgar em seu site que o último ano contabilizou um público de 23.816 pessoas.
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