Arthur de Faria
A Era do Rádio (parte IV)
O Sul21 está publicando, em capítulos, o livro Uma História da Música de Porto Alegre, do compositor e jornalista Arthur de Faria. Aqui, os capítulos já publicados.
Quem entra arrebentando, no ano do centenário da Revolução que lhe dá nome – 1935 –, é a Rádio Farroupilha. E chega querendo tudo do bom e do melhor, tanto que já chega tirando da Gaúcha o Jazz de Paulo Coelho. A terceira emissora de Porto Alegre entra em cena como a mais potente do Brasil: são 25 kW, que só seriam superados dois anos depois, pelos 26 kW da Tupi de São Paulo (ambas do mesmo dono, o poderoso Assis Chateaubriand, chefe das Emissoras Associadas, então aliado do governo de Getúlio). Até importar maestro, importa: traz da Itália Salvador Campanella, que vai ser figura central na emissora ao longos de décadas.
A inauguração da emissora conta com as presenças ilustríssimas de Carmen Miranda e Mário Reis, dois dos maiores cantores do momento, importados da capital federal para o evento. Já o elenco contratado pela autointitulada “A Mais Potente” vai reunir Paulo e sua orquestra, Horacina Corrêa e, entre outros, o grande cantor Alcides Gonçalves – que vai, inclusive, armar com Coelho a dupla “O Gordo e o Magro”.
Nesse mesmo ano de 1935, dois escritores dividem os comentários literários na cidade. Erico Verissimo, que lançava seu segundo romance, Caminhos Cruzados – e ganha com ele o prêmio nacional de romance do ano dado pela Fundação Graça Aranha. Por outro lado, seu então amigo Dyonélio Machado causava impacto com o revolucionário Os Ratos. O livro de Dyonélio seria um clássico, o de Érico ficaria como um detalhe em sua obra – mas, mesmo assim, seu sucesso seria imensamente maior que o do amigo. Os dois nunca resolveram bem a questão.
Em 1937, Getúlio acha que sete anos no poder não foram suficientes e dá um golpe, instituindo o Estado Novo. No Rio Grande do Sul, o governo intensifica o combate aos cassinos, com aprovação da imprensa conservadora, e vários deles fecham – ainda não como irá acontecer em 1946, quando são postos fora da lei.
Neste mesmo 37 morre uma lenda da fotografia da cidade: Virgílio Calegari, que desde 1893 foi o principal responsável pelos registros clássicos que hoje se tem da Porto Alegre da Belle Époque. Seu Atelier Calegari forneceu material pras principais revistas da cidade – Máscara, Kodak e a gloriosa Revista do Globo. Sem falar nas medalhas: ouro e prata na Exposição de Saint Louis (EUA), em 1904; Paris, 1906; Londres, 1907; Rio de Janeiro, 1908; Roma, 1911… E ainda tem na parede o título de Cavaliere do Império Italiano ganho do próprio rei Vitor Emanuel III. Te mete.
Agora, uma pequeníssima palhinha da genialidade do cavaliere Calegari:
A cidade vivia também o florescer da geração boêmia que vai reinar até meados dos anos 1960. Por quatro décadas, a vida seria uma festa para nomes como Johnson, Rubens Santos, Alcides Gonçalves ou o já tão citado Lupicínio – que formavam uma espécie de confraria, com eventuais associações e dissidências.
Outro da turma era Ovídio Chaves, já citado como um dos incontáveis discípulos de Octavio Dutra. Nascido dia 27 de julho de 1910 na então minúscula Lagoa Vermelha (320 km ao norte de Porto Alegre), Ovídio trabalhava como músico desde os 15 anos, começando como um dos violinistas da orquestra que tocava no cinema de sua cidade. Sai de lá só em 1932, para estudar no Conservatório de Música de Porto Alegre. Acaba estudando violão com Dutra e virando jornalista do Correio do Povo, como seu irmão, o também compositor Hamilton Chaves.
Já tinha lançado três livros de poesia quando, em 1939, tenta pela primeira vez compor alguma coisa. E arrasa: aos 29 anos, sua primeira canção é justamente um dos maiores sucessos nacionais já saídos de Porto Alegre: Fiz a Cama na Varanda, parceria com a cantora maranhense (nascida em Viana, em 25 de setembro de 1913, mas criada em Porto Alegre) Dilú Mello.
Formada em violino pelo mesmo Conservatório aos 13 anos de idade (com medalha de ouro), é Dilú quem, em 1943, registra a canção pela primeira vez. Neste momento, depois de formar-se também em canto lírico e pesquisar o folclore gaúcho, ela já está no Rio de Janeiro e agravação é sucesso instantâneo: Fiz a Cama… foi regravada dezenas de vezes, por gente tão diferente quanto Nara Leão ou Inezita Barroso (além de mais de uma versão rock-balada, e até uma tradução de sucesso para o francês). Ovídio nunca repetiu o sucesso da primeira iniciativa, mas teve cerca de duas dezenas de músicas gravadas por artistas de alcance nacional – só Dilú gravaria mais cinco, até 1955. E nos mais variados estilos: de toadas de jangadeiros de nítida inspiração caymminiana, até uma gauchesca Meia-Canha.
Nos anos de 1950, foi dono de meia dúzia de casas noturnas, como o Clube da Música e o Piano Drink – que ficava sobre palafitas dentro do Guaíba, e cuja ponte se levantava quando a casa enchia… ou quando se aproximada um chato. Mas a mais famosa empreitada foi o mitológico Clube da Chave, frequentado por Lupicínio Rodrigues e João Gilberto, onde cada sócio tinha uma chave e só entrava com ela. Foi a primeira boate da cidade que não poderia ser confundida com um cabaré ou bordel. As pessoas iam ali para beber (sua própria bebida, que ficava num armário também chaveado), conversar, ouvir música e, no máximo, armar uma parada a ser resolvida em outro lugar.
Já com 51 anos de idade, mudou-se para o Rio, onde trabalhou como redator na Rádio Nacional, ficou algum tempo preso durante a ditadura militar, virou hippie já sessentão (daqueles que fazem e vendem artigos de couro em feirinhas) e morreu dia três de agosto de 1978 (dois anos antes, seu sexto de livro de poesia, ABC de Paquetá, lhe deu o prêmio de poesia Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras).
Seu irmão Hamilton Chaves também foi uma figura múltipla. Como jornalista, trabalhou na Revista do Globo, na Última Hora, n’O Clarim e na Rádio Gaúcha. Como compositor, além de parceiro de Lupicínio Rodrigues (falaremos mais sobre ele no capítulo de Lupi), chegou a ganhar alguns festivais de música. E ainda se arriscou no cinema, em diversos cargos públicos e até na diretoria do Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense.
E se falamos de músicos que, de uma forma ou de outra, chegam a se estabelecer com algum renome, também há o outro lado. Ao longo dos anos 1930 e 40, quem quisesse entrar na vida artística da capital – principalmente se viesse do interior –, tinha que, quase invariavelmente, pagar um pedágio: os cafés do Mercado Público. Era nas mesas de mármore de estabelecimentos como o Java e o Naval que conjuntos improvisados na hora sabatinavam os novatos. O processo era uma seleção natural de crueldade darwiniana: sempre que chegava alguém novo, chamavam pra roda e davam um jeito de puxar o tapete do sujeito. Se ele escapasse de errar feio, tinha alguma chance. “Tinha muito banditismo…”, lembrava em 1999 Zezinho Baptista: nos anos 1950 e 60, baterista da lendária Orquestra de Karl Faust; nos anos 40, um guri de Osório tentando a vida na capital com um pandeiro debaixo do braço.
Das três da tarde até as nove da noite, aquilo parecia um show de variedades. Tinha de tudo, com os músicos passando o pires ao final de cada apresentação e conseguindo pelo menos garantir a janta e, talvez, a pensão. A coisa durou até 1953, quando o último pires foi passado – pelo cantor e acordeonista Marino Coronel.
Se fossem aprovados nesse teste inicial, os aspirantes podiam até conseguir uma vaga nas rádios da cidade. Foi assim que apareceram figuras importantes como o notável arranjador e multi-instrumentista (tocava piano, guitarra, trompete, clarinete e todos os saxofones) Alcides Macedo, o futuro Maestro Macedinho.
Nascido em Tupanciretã (389 km a noroeste de Porto Alegre), Macedinho vai pra capital no começo da década de 1930, indo procurar adivinhem quem? O onipresente Octavio Dutra. Octavio o introduziu na roda do Café Gaúcho, uma das mais prestigiosas do Mercado. A partir daí, o tupanciretanense passa 20 anos de trabalho duro, fazendo um pouco de tudo, até conseguir o posto de diretor do Regional da Rádio Farroupilha – o que contava com feras como Arthur Elsner no acordeom e Antoninho Maciel no violão. Sairia dali no final da década de 1950, para integrar, com destaque, a Orquestra de Karl Faust, na Rádio Gaúcha (e quem assume a sua vaga no regional é um jovem flautista de assombroso talento: Plauto Cruz).
Com o fim das orquestras, Macedo só tem nova chance em 1979, quando é convidado para ser maestro da Banda Municipal de Porto Alegre. Ali, vai reger muitos dos melhores músicos de sua geração, todos já na terceira idade, mas ainda fazendo miséria. Para a banda, escreveu grande parte de seus melhores arranjos e músicas – nos mais variados ritmos, sempre com brilho, conhecimento de causa e originalidade (ainda que, a bem da verdade, não fosse exatamente o regente mais perfeccionista do mundo…) O único disco da Banda – lançado pela prefeitura em LP na década de 1990 – tem unicamente composições de Macedo, que morreu pouco depois.
(Surgida em 1926 por ordem do intendente Otávio Rocha, a Banda Municipal de Porto Alegre teve como primeiro maestro José Leonardi, e uma curiosa formação composta por sopros, percussão, violoncelos e contrabaixo. Chegou a ser Banda Sinfônica nos anos 40, teve até um maestro cego – Arthur Elsner, claro – e acabou esvaziada com a criação da OSPA, nos anos 50. Só bem mais tarde é que retomou o prumo, com uma formação que tinha figuras lendárias da música da capital como o baterista Natalício, o tubista Lola e o Maestro Lua no trompete. Hoje, com uma idade média bem mais jovem, segue garbosa e faceira, em projetos como o Encontrabanda.)
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Se falamos sobre a noite, falta descrever o dia na Porto Alegre dos anos 1930 a 50. O programa obrigatório era o footing na Rua da Praia, descrito à perfeição por um sujeito que nem era nascido na época, o jornalista e escritor Rafael Guimaraens. Tá lá no seu livro Rua da Praia – Um Passeio no Tempo:
Mulheres, homens e crianças, todos praticavam o footing. Mas o protagonismo é delas, das mocinhas sorridentes que desfilam pela passarela realçada de vitrines elegantes, coração palpitando sob os olhares e galanteios dos engravatados que se agrupam ao longo da Rua da Praia.
Recato e malícia marcam encontro. O flirt está no ar.
Elas saem em grupos ou se fazem acompanhar por senhoras vigilantes. A programação depende do dia. Se é sábado, as lojas estão abertas. (…) Uma boa parada na Krahe, (…) Casa Louro ou a Sloper (…) perfumes importados da Casa Lyra. (…) As joias e relógios da Masson cintilam. A vitrine da bombonière convida ao pecado da gula. Diante da Livraria do Globo, senhores circunspectos passam a limpo as vicissitudes do mundo.
(…)
Poucos passos adiante, os calçados finos da Casa Seabra complementam-se com o variado sortimento de meias da Casa Coelho. Quase grudadas, a Casa Victor e a Coates disputam quem oferece as últimas novidades em eletrodomésticos. Segue o footing rumo à Praça da Alfândega, para um sorvete no Café Colombo (às vezes era chamada de café, às vezes de confeitaria) ou alguma guloseima na Confeitaria Central.
É bom lembrar que, na administração Loureiro da Silva – final dos anos de 1930, começo dos 40 – Porto Alegre se remodelou. Loureiro ganhou o apelido de “O Poeta da Cidade”: abriu a Farrapos (ligando o Centro à Zona Norte), plantou jardins, ergueu monumentos, redesenhou ruas e avenidas. Tocou o redirecionamento e a canalização do Arroio Dilúvio, o Hospital de Pronto-Socorro, o Centro de Saúde Modelo e a Prefeitura Nova. Estreou as sinaleiras e quebrou o monopólio da luz e dos bondes, que era todo da Cia Brasileira de Força Elétrica, subsidiária da americana Electric Bond & Share.
Isso, pelo lado bom.
Pelo mau, o cara se aproveitou da ditadura do Estado Novo e usou as leis de exceção do momento para desapropriar sem dó mais de 900 casas de gente pobre. Quando um coitado era visitado por “João Macaco” – o funcionário público João Pereira Duarte – já sabia que em instantes chegaram as pás e picaretas pondo tudo abaixo, mesmo quando os moradores se recusavam a sair.
Resultado: cinco quilômetros de Farrapos custaram míseros 12 mil contos, incluindo obras, iluminação e desapropriações. Em 1935, o Viaduto da Borges, por exemplo, tinha custado 35 mil contos para os intendentes Otávio Rocha e Alberto Bins. Não era jeito, era força.
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Aqui o link pra um trabalho acadêmico sobre o que tamos falando.
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Aqui o link pra uma página superbacana sobre o Dyonélio Machado. E aqui o link pro acervo do Erico, que tá no Rio, no Instituto Moreira Salles >
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Sábado que vem seguimos na Era do Rádio em Porto Alegre. Já foi passear no nosso soundcloud do capítulo?
Comentários (2)
» Deixe seu comentárioBah, Franklin, nenhuma notícia disso! Que achado! E brigadíssimo por falar bem de mim, rererree. O Nelson é um dos meus mestres!













Arthur
Don Luis Perez Sucre, era um píanista clássico argentino, casado com a Arquiduqueza Mara Antonia Bourbon Habsburg ( prima do atual rei da Espanha).
Moraram em Poa, numa pensão na av. Independência dos quais fui vizinho de quarto. ( Nessa mesma pensão morava o Aderbal Dávila). Década de 50.
Estou tentando escrever a fantástica história de Maria Antonia e de Luis Perez Sucre. Tenho vasta documentação com fotos, resenhas biográficas, registros em jornais de Viena, B.Aires, Madri e Poa.
D.Luis, já com 70 anos, parece que tocava piano no clube da Chave ou naquela boite que ficava no trapiche do Guaiba ( Piano Drink). As vezes me pedia alguma grana para comprar pão e leite já que na pensão, cortaram-lhe as refeições por falta de pagamento.
Pergunto: acaso tens lembranças desse pianista argentino ?
Quem o conheceu superficialmente foi o Milton Mattos e o pai do Totonho Villeroi.
Obrigado por tua resposta
Abraço
Franklin Cunha
PS. Nelson Coelho de Castro e eu falamos ( bem ) de ti.