Geral
Repressão é marca de protestos contra aumento da passagem em Teresina
Samir Oliveira
A capital do Piauí, Teresina, assistiu nesta segunda-feira (9) ao sexto dia de manifestações populares contra o aumento na tarifa de ônibus da cidade. Estudantes protestam desde o dia 2 contra a elevação de R$ 1,90 para R$ 2,10, decretada pelo prefeito Elmano Férrer (PTB).
As manifestações chegaram ao ápice no final da semana passada, quando contaram com cerca de três mil pessoas nas ruas. O cenário é parecido com o de setembro do ano passado, quando estudantes foram às ruas contra o mesmo aumento para R$ 2,10.
Leia mais:
- Protestos são reprimidos com violência em Teresina. Veja fotos.
Na época, pressionado pelas mobilizações, o prefeito voltou atrás, revogou o reajuste e criou uma comissão formada por diversas entidades para auditar os cálculos utilizados para estabelecer o aumento. O estudo atestou que o valor era compatível com a elevação do preço dos insumos sofridos pelas empresas do setor de transportes e Elmano Férrer decidiu autorizar novamente o reajuste no primeiro dia deste ano.
O prefeito aproveitou para conceder o reajuste junto com a chamada integração, que faz com que, na segunda viagem em até 1h ou 1h30min, o cidadão pague metade do valor da passagem, no caso, R$ 1,05.
Os manifestantes esperam que, assim como ocorreu no ano passado, o prefeito Elmano Férrer desfaça o aumento concedido às empresas que cuidam do transporte público de Teresina. “Estamos mobilizados desde setembro do ano passado”, explica o estudante de História da Universidade Estadual do Piauí, Breno Cavalcante, que conversou com a reportagem do Sul21 na segunda-feira enquanto protestava no centro de Teresina.
Os manifestantes acusam o Sindicato das Empresas de Transportes Urbanos de Teresina (Setut) de retirar os ônibus de circulação em função dos protestos, deixando a população desassistida do serviço. Já o Setut alega que apenas obedece a recomendações da Polícia Militar, que orienta o sindicato a tomar a medida em função dos bloqueios realizados pelos estudantes.
Independentemente das versões que circulam sobre os protestos, a repressão policial na semana passada foi evidente. Registrada em fotos pelo próprio Breno, a ação da polícia ocorreu com extrema brutalidade contra manifestantes que estavam sentados na via pública. Nesta segunda-feira (9), manifestantes registravam nas redes sociais os movimentos da PM, que chegaram a deslocar as tropas da cavalaria para o local dos protestos.
“Foi um caos. Fomos acusados de vandalismo, mas estávamos numa mobilização pacífica e organizada e a polícia veio para cima”, comenta o aluno de História, que contou cinco viaturas policiais ao redor dos manifestantes na segunda-feira. Ele reconhece que houve reações por parte de alguns estudantes, mas diz que a PM iniciou o confronto.
O estudante de Comunicação Leonardo Maia, integrante à Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (Anel), ligada ao PSTU -, diz que a manifestação de sexta-feira ocorreu de forma pacífica. “Isso é prova de que a ação da polícia é que gera todas as reações mais radicais”, explica.
Sindicato das empresas contratou segurança privada para atuar nos protestos
Além dos efetivos da Polícia Militar, no primeiro dia de protestos, na semana passada, estudantes tiveram que enfrentar seguranças particulares contratados pelo Sindicato das Empresas de Transportes Urbanos de Teresina (Setut). De acordo com relatos de manifestantes, os agentes privados estavam armados e bateram em quem estava no local.
“Atuavam como polícia e estavam armados”, conta o estudante de História, Breno Cavalcante.
O próprio Setut, através de sua assessoria de imprensa, reconhece que contratou seguranças privados, mas justifica que foi apenas para cuidar da integridade física dos ônibus, que o sindicato alega estarem sendo depredados pelos manifestantes.
A assessoria do Setut diz que os estudantes danificaram cerca de 60 veículos nos protestos do ano passado e, por isso, quis se prevenir esse ano com a contratação de agentes particulares. Entretanto, o Setut precisou recuar da medida, pois a própria PM e a Polícia Federal teriam orientado o sindicato a não manter os seguranças em atividade.
“Não são estudantes, são vândalos”, afirma superintendente de trânsito da prefeitura
A chefe da Superintendência de Transportes e Trânsito de Teresina (Strans, equivalente à EPTC de Porto Alegre), Alzenir Porto, acompanha todos os protestos em sua sala através das câmeras. Indignada, ela qualifica os manifestantes de “vândalos”. “Não são estudantes, são vândalos, são pessoas extremamente perigosas, que cobrem o rosto e jogam coquetéis molotov dentro dos ônibus”, reage a dirigente municipal.
A superintendente garante que a prefeitura não irá recuar no aumento nem abrirá mão de colocar em prática a integração – também contestada pelos manifestantes, que exigem descontos maiores e extensão do benefício a todas as linhas. “De maneira nenhuma a prefeitura irá voltar atrás. Se (os manifestantes) tiverem fogo, podem passar o ano todinho protestando”, comenta.
Alzenir não considera violenta a repressão da Polícia Militar do Piauí aos protestos. “A polícia está totalmente de braços cruzados, não está havendo repressão. No primeiro dia a ação foi mais forte pra segurar o movimento, mas hoje (9) estão depredando ônibus e colocando a população em risco e a polícia está só acompanhando a movimentação”, critica a titular da Strans.
Nos bastidores, há especulações de todos os tipos. Uma delas, alimentada por quem defende uma ação mais forte da polícia, é a de que o interesse do governo estadual, comandado por Wilson Nunes Martins (PSB) e adversário do prefeito Elmano Férrer (PTB), é de que a PM deixe as manifestações ocorrerem para desestabilizar a gestão municipal.
Alzenir alega que o aumento de R$ 1,90 para R$ 2,10 foi aceito inclusive pelo Tribunal de Contas do Piauí e reitera que o processo passou por uma auditoria composta por diversas entidades, como o Ministério Público Estadual e a Ordem dos Advogados do Brasil. A superintendente diz que há possibilidade de a integração possibilitar a gratuidade da segunda passagem – como ocorre em Porto Alegre, caso o cidadão pegue o outro ônibus em até meia hora.
Aleznir se recusa a comentar a contratação de seguranças privados pelo Sindicato das Empresas de Transportes Urbanos de Teresina (Setut) para atuar nos protestos. “Isso não tem nada a ver com a gente”, esquiva-se.
Em nota, prefeito diz que a livre manifestação deve ser garantida, desde que não seja “contra nossa cidade”

Prefeito de Teresina, Elmano Férrer, inaugura integração entre linhas de ônibus | Foto: teresina.pi.gov.br
O prefeito de Teresina, Elmano Férrer (PTB), divulgou nota oficial nesta segunda-feira (9) na qual afirma que os órgãos estaduais de segurança irão agir “para assegurar o direito de ir e vir, assegurar a ordem e a livre manifestação, desde que não seja contra nossa cidade, o que não admitimos”.
O texto do petebista assinala ainda que não serão aceitos “atos de vandalismo e violência de quem teve a oportunidade de contribuir, mas preferiu aderir ao radicalismo”. O comunicado também acusou os manifestantes de possuírem “interesses políticos e eleitorais para atacar nossa Teresina”.
Comentários (8)
» Deixe seu comentárioVídeo de reportagem veiculada pelo portal SET Notícias com abordagem crítica, de fato, sobre as manifestações #contraoaumento em Teresina. Para maior visualização do ocorrido:
Parabéns pela cobertura, tem que protestar mesmo, os empresários ficando milhonários e o povo com um transporte coletivo horrível e pensar que o Brasil inteiro é assim passagens cada vez mais caras e os ônibus caindo aos pedaços.
Sou piauiense morando em Brasília e confesso que fiquei horizado com tanta violência policial, isto é a cara de políticos vendidos, que basta terem seus planos e conchavos ameaçados para mandarem a força policial reprimir e espancar.
Parabéns ao meu povo piauiense que não está permitindo esses abusos….
[...] Matéria publicada no sítio Sul 21 [...]
se isto nao foi repressau, entao o que e repressao estou muito admiirado dos polico do piaui, que fica contra o povao e a favor dos empresarios sera que estao levando algum. e a policia fiquei ennojado,de se presta a este tipo operaçao,e ainda dizer que isto e policia sao um bando de maginais introvestido de policia,issonaopolicia.e seta mulher ainda tem a coragem de iir a televisao dizer que nao houve violencia, e o coronel tem que aprender acomandar.
[...] E para cumprir tais ordens, manda-se a polícia militar. Seja em São Paulo ou em qualquer outra parte do Brasil (com raras exceções), quando se chama a PM para “reestabelecer a ordem” devido a alguma manifestação ou ocupação dita “ilegal” pela Justiça, pode ter certeza: lá vem truculência. Foi o que vimos nas últimas semanas na USP e também em Teresina, onde a PM não poupou brutalidade na repressão aos estudantes que protestavam contra o…. [...]




Muito boa cobertura, Sul 21. A imprensa piauiense anda tão vendida aos empresários do oligopólio de transportes – qual a Prefeitura de Teresina – que não tem nem como realizar jornalismo crítico e de denúncia, com exceção do portal Ai-5 Piauí, GP-1, Tv Canal 13, Vooz Piauí. Aliás, fica a dica para mais abastecimento de fontes. Além do mais a grande possibilidade de contato direto com os manifestantes segue no twitter com a hashtag #contraoaumento.