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Diretor do Psicotropicus defende regulamentação do uso e venda de drogas no Brasil
Rachel Duarte
Ao contrário do que se popularizou mundialmente sobre a descriminalização das drogas, particularmente a maconha, o país em que a legislação é mais liberal não é a Holanda. Segundo dados do Instituto Cato, de Massachusetts (EUA), a experiência de Portugal mostra-se mais bem sucedida. Além de ser o primeiro país europeu a abolir oficialmente todas as penas criminais para porte de maconha, cocaína, heroína e metanfetaminas, Portugal conseguiu reduzir em dez anos o consumo de drogas, o número de infectados pelo HIV e ampliar o número de dependentes em tratamento.
Na América Latina também tivemos avanços. Porém, no caso brasileiro há um atraso no tema e alguns retrocessos no período, na avaliação do psicólogo e diretor do Centro Brasileiro de Política de Drogas, Psicotropicus, Luiz Paulo Guanabara. Para ele, a atitude do governo federal deve ir além do enfrentamento da onda de crack do país.
Ele critica o programa ‘Crack, é possível vencer’, lançado no final de 2011 em parceria com a igreja evangélica e que irá destinar R$ 4 bilhões para tratamento de dependentes químicos, repressão do tráfico e crime organizado e prevenção ao consumo de drogas. “Está sendo uma inabilidade enfrentar o crack querendo curar as pessoas com Jesus. Não será lendo a bíblia todo dia que o usuário dependente de crack, porque nem todos que usam são dependentes, vai deixar de usar a droga”, critica.

Luiz Paulo Guanabara, diretor e fundador do Centro Brasileiro de Políticas de Drogas | Foto: Divulgação
Ele explica que o crack surgiu em substituição à cocaína e é a droga com menor consumo nos países da América Latina. “As pessoas não se injetam mais. Migraram da seringa de injeção de cocaína ou outras substâncias psicoativas para o crack, por ser uma droga com efeito imediato como a injeção na veia, mas sem o risco da seringa. Mas o nosso maior consumo são as drogas lícitas”, aponta.
Segundo o psicólogo, “o álcool e o tabaco são as drogas que mais causam problema de saúde pública e mortes, mas não são tratados com a mesma ênfase do que as drogas pesadas. Por outro lado, pessoas ainda estão sendo presas por porte de maconha como se fossem traficantes no Brasil”. Guanabara argumenta que o cárcere de usuários aumentou após a alteração da Lei de Drogas, no governo Lula. “Ela excluiu a pena ao usuário, mas permite a interpretação do policial sobre quem é usuário e quem é traficante”, afirma.
Diretor do Psicotropicus, que funciona há nove anos no Rio de Janeiro, Luiz Guanabara explica que a milícia é o principal elo da ‘cadeia alimentar’ das drogas. “Para o negócio ilícito de drogas existir, tem que haver a sociedade da política, se não, não há. Quem não é preso por uso de droga não dá dinheiro para a polícia, ela prende quem usa. Principalmente se ele for pobre, preto e de baixa escolaridade”, denuncia.

Pedro Abramovay teria sido demitido por pedir flexibilização na punição ao porte de drogas | Foto: Agência Brasil
O enfrentamento ao tráfico de drogas no Brasil é outro ponto criticado pelo psicólogo. Desde 2006, quando se alterou a Lei de Drogas, aumentou em mais de 60% o número de presos por tráfico. Favorável à adequação desta brecha da lei, o advogado Pedro Abramovay foi demitido da Secretaria Nacional de Política sobre Drogas (Senad) no começo do governo Dilma.
“Ele falou uma verdade. Ele defendia que pessoas que não são violentas e são pegas com pequenas quantias de drogas não fossem para a cadeia. Um morador da zona sul do RJ nunca vai para prisão por estar com a mesma quantidade de droga que o pobre negro da favela. No México, por exemplo, a lei estipula que até tantas gramas configura usuário. Como não há esta delimitação no Brasil, fica na mão do policial. Pessoas com menos de 100 gramas de maconha e desarmadas vão parar na cadeia”, argumenta.
Regulamentar pode ser a saída
No debate sobre as políticas de drogas, os profissionais do Psicotropicus separam o joio do trigo e defendem a regulamentação das drogas de forma global. Segundo o instituto, por mais fama que a Europa tenha levado no consumo de maconha em coffes e comercialização para fins medicinais, a droga não é liberada em nenhum lugar do mundo. “O que acontece é que os países driblam as organizações internacionais”, afirma o psicólogo Luiz Guanabara.
De acordo com a Convenção Internacional de 1988, as drogas são classificadas em substâncias controladas, substâncias proibidas e substâncias proibidas sem valor medicinal. “A maconha inclusive configura na lista das sem valor medicinal, embora se saiba do potencial da planta há milênios e ela seja utilizada para estes fins em países andinos, por exemplo”, ressalta o psicólogo.
A regulamentação das drogas poderia, na avaliação de Guanabara, render ao Brasil resultados parecidos como os de Portugal, que descriminalizou a maconha em 2001. “Discriminalizou o uso e o porte para uso medicinal. Se permite o porte até cinco gramas. A Europa achou que não ia dar certo quando se começou a experiência de Portugal. Mas, contrariando a sanha punitiva dos que defendem que qualquer pessoa que usa droga tem que ser punida, lá se fez um ensaio de legalização para o usuário. Os resultados na diminuição da criminalidade e de casos de contaminação de HIV e diminuição de consumo são impressionantes”, afirma.
Em Portugal descriminalizar a maconha reduziu o HIV, as mortes e o consumo da droga

Drogas injetáveis não mais tão usadas na América Latina. O maior consumo são as drogas licitas | Foto: Divulgação
Portugal teve alguns dos mais altos níveis de uso de drogas pesadas na Europa. No entanto, relatório do instituto norte-americano Cato, divulgado em 2010, sugere o contrário. De acordo com o estudo, cinco anos após o porte de drogas ser descriminalizado, o uso de drogas ilícitas entre os adolescentes em Portugal diminuiu, e as taxas de novas infecções por HIV causada por compartilhamento de seringas contaminadas caíram, enquanto o número de pessoas que procuram tratamento para dependência química mais do que duplicou.
Na sequência da descriminalização, Portugal teve a menor taxa de uso de maconha durante a vida em pessoas com mais de 15 anos (considerando a UE): 10%. O cenário mais próximo disso nos Estados Unidos é com pessoas acima de 12 anos: 39,8%. Proporcionalmente, mais norte-americanos usaram cocaína durante a vida do que portuguêses usaram maconha.
O relatório do Cato informa que entre 2001 e 2006, as taxas de uso durante a vida de qualquer droga ilegal entre os estudantes do ensino médio caiu de 14,1% para 10,6%, e a mesma queda se registrou entre os adolescentes mais velhos. O consumo de heroína entre 16 a 18 anos de idade caiu de 2,5% para 1,8% (embora tenha havido um ligeiro aumento no consumo de maconha nesta faixa etária). Novas infecções pelo HIV em usuários de drogas caíram 17% entre 1999 e 2003 e as mortes relacionadas com a heroína e drogas similares caíram pela metade. Além disso, após a descriminalização, o dinheiro economizado com as sanções aos usuários permitiu aumentar o financiamento do tratamento livre de drogas.
O estudo de caso em Portugal já desperta interesse aos parlamentares dos EUA. Quatro estados norte-americanos estão pressionando o governo de Barack Obama para mudar a política linha-dura de drogas do país. Hoje, os EUA apenas apoiam acordos internacionais que impõem a proibição das drogas e impõe aos seus cidadãos as mais duras sanções do mundo por posse e venda de drogas. “Não sabemos como será o mundo com a regulamentação das substâncias proibidas. A população fica com medo do que irá acontecer quando regulamentar. Será que vão todos correr atrás das drogas quando liberar? Pode haver um acréscimo na maconha, mas enquanto for novidade. Depois irá se equilibrar. Tem que haver restrições severas como com o tabaco e muita campanha educativa e de orientação sem relação ao consumo”, sugere.
Comentários (11)
» Deixe seu comentárioa picardia está na surreal indústria bélica, carro-chefe do pseudo-Governo Mundial.. no fomento por guerras entre quaisquer grupos antagônicos, impulsiona estratégias e lobbies políticos para que não permitam a paz.. e refrear a guerra pela disputa de pontos de tráfico, não é bem vista por banqueiros e narco-bélico-investidores.. ameaçam interferir com a atual política orçamentária.. o lucro das estatais pode deixar de financiar campanhas políticas..
A Politica de redução de danos conjugada com a descriminalização do usuário, já mostrou sua eficácia, porém continuamos a subordinar as politicas públicas(de saúde inclusive) aos interesses e moral de igrejas, por fim gastamos tempo e dinheiro(da policia inclusive) sem resultado efetivos com o problema do abuso de drogas. Haverá de chegar o dia em que discutiremos politicas públicas do ponto de vista de quem dela precisa, e talvez consigamos avançar.
O uso de substâncias entorpecentes já é quase descriminalizado. Embora seja tipificado, as penas são irrelevantes e não mais privativas de liberdade (reclusão ao cárcere).
O outdoor da Psicotropicus é elucidativo ” O tráfico é contra a legalização da maconha, e voce?
Acrescentaria, que policiais, politicos e empresários corruptos são conta a legalização da maconha, pois perderão muita grana, mas muita mesmo, portanto lutarão, para tudo permanecer como está.
Engraçado é que um monte de usuários que eu vejo pelas ruas dos bairros da classe média alta se parecem muito com filhos desses políticos, empresários, radicais de direita, políticos – os quais criaram esse engodo que foi a lei de entorpecentes 11.343 de 2006.
Sérgio: o problema da lei 11.343 é que ela deixa ao arbítrio do policial definir se a pessoa apanhada com drogas é usuária ou traficante. O que acaba acontecendo, normalmente, é um recorte de classe e raça, sendo trancafiados jovens pobres de pouco potencial ofensivo como “perigosos traficantes”. O resultado é o abarrotamento das cadeias. Cada um desses jovens acaba tendo, assim, como única alternativa de vida, a carreira criminosa.
É necessário regulamentar a produção e o consumo de drogas (cada substância conforme suas peculiaridades e periculosidade, o universo dos usuários e seus padrões de utilização), acabando com as penas e oferecendo canais lícitos de obtenção das substâncias. Uma vez isso feito, se torna possível aos agentes de saúde uma maior aproximação dos dependentes, que passam a confiar mais no Estado e, livres da perseguição policial e da ansiedade gerada pela ilicitude, podem ser alvo de políticas de prevenção, de redução de danos, enfim, de um Estado focado na saúde e não na repressão.
Então, ainda que as penas para uso hoje não sejam mais restritivas da liberdade, as penas para tráfico são pesadas e, não havendo instrumentos claros de distinção entre traficantes e usuários, o que acaba ocorrendo é um processo de hipercarcerização de jovens pouco perigosos (vendedores ou consumidores, invariavelmente, peixes pequenos nessa cadeia perversa). Esses jovens, uma vez presos, aí sim se tornarão, futuramente, perigosos para a sociedade.
Então, o que cabe fazer é abalar o tráfico por meio de uma regulamentação que preveja meios lícitos e controlados de produção e acesso às drogas, tornando possível o acesso aos usuários pela via da saúde e não mais pela via policial, que gera danos individuais e sociais maiores do que o próprio uso das substâncias.
Controle a raiva que você sente pelos usuários de drogas, sejam pobres ou de classe média, e procure enxergar essa questão de um modo mais racional e menos drogofóbico. Isso te ajudará a perceber que, gostemos ou não de drogas e usuários de drogas, a forma de reduzir os danos que causam à toda sociedade, é a regulamentação, pois só ela garante um maior grau de controle.
O bacana é liberar as drogas pesadas e exigir a apreensão da receita dos remédios que causam dependência, antidepressivos, moderadores de apetite, e pasmem ELIXIR PAREGÓRICO e MERCURIO CROMO.
Esqueci do thiner e da cola de sapateiro que não pode ser comprada livremente pelo cidadão decente, mas que a garotada de rua consegue na maior tranquilidade.
Elis Regina, cuja morte precoce completa hoje 30 anos, era e é a maior voz/interpretação brasileira.
A cocaína a matou e, assim como ela, muitas pessoas célebres ou não.
FATOS:-Verbas Publicas x drogas – Uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo , informa que, em 2011, a Previdência liberou 124.947 auxílios-doença a dependentes químicos.Dados do Ministério da Previdência mostram que o afastamento do trabalho pelo uso de drogas ilícitas, incluindo crack, cocaína, anfetaminas e maconha, é oito vezes maior do que pelo consumo de álcool e cigarro.R$ 861 de auxílio-doença-Estima-se que o governo tenha gasto, no mínimo, R$ 107,5 milhões no ano passado com essa despesa. Os dependentes químicos recebem, em média, R$ 861 de auxílio-doença.Desde 2009 a Previdência liberou mais de 350 mil auxílios-doença a usuários de drogas.14.05.2012-opiniao¬icia
Como ficam os cidadãos do SUS,aposentadorias,educação, se recursos são escassos?

Os argumentos estão aí. Os dados estão aí. Só é contra a regulamentação do uso de maconha quem está cego pela moral (ou quem ganha algum $ com a atual situação). Quem quer a redução do uso de drogas, quem quer recursos para prevenção e tratamento, quem quer redução da violência urbana e da corrupção, quem quer tudo isso é favorável à regulamentação da produção e do consumo da maconha.