Maria Amelia Bulhões
Quem se importa com a arte na cidade?
Arte pública ou arte urbana é um tema bem discutido no ambiente artístico, mas o que dizem ou pensam deles as pessoas em geral? Partindo do próprio conceito, pode-se afirmar que, em princípio, esse é um assunto que diz respeito a todos os moradores de uma cidade. Envolvendo diferentes tipos de ações, como os grafites, as intervenções efêmeras ou as obras realizadas especificamente para determinados espaços, quase sempre elas geram muita polêmica.
Estas ações criativas instauram um lugar para vôos da fantasia na mesmice da arquitetura moderna, pobre ou repetitiva que se costuma encontrar nas grandes cidades. São territórios para o olhar e a imaginação de cada transeunte. As propostas dos artistas, em temos de interferências urbanas, podem ser ao mesmo tempo poéticas e críticas, deixando perceber uma intenção de expandir a arte, fazendo da paisagem o ponto de partida. A movimentação, o debate e o interesse em conhecer devem ser os aspectos mais importantes desses projetos, pois envolver os transeuntes é a meta da arte pública. Em tese, ela diz respeito a todos os diferentes públicos que habitam as cidades. Mas como eles reagem a ela? A grande maioria nem percebe e desconhece as obras pelas quais passa cotidianamente. Costuma-se dizer “para amar é preciso conhecer”. Não será talvez o desinteresse da população uma das causas da pouca valorização e mesmo da depredação de muitas delas? Faz parte de um viver melhor ter uma relação de prazer, afeto e mesmo orgulho do lugar onde se mora. Quantas horas por dia se percorre ruas e avenidas? O que se vê? Com que se surpreende o olhar? O maravilhoso rio que banha a cidade, as exuberantes árvores nas ruas e os parques elogiados por visitantes ainda encantam seus moradores? As esculturas espalhadas por diferentes locais desperta seu interesse e curiosidade?
Sem entrar em reflexões teóricas nem cair em simplismos do tipo eu gosto ou não gosto, como pensar a arte pública, aqui e agora? Quem sabe se informando um pouco mais sobre o que se fez e continua fazendo em termos de arte contemporânea na cidade? O seminário Experiências em Arte Pública:Memória e Atualidade, realizado em Porto Alegre, em 2008, sob a coordenação de Francisco Alves, tem seus anais on-line. Uma boa leitura é o texto de Ana Luz Pettini Arte Pública Contemporânea: experiências de Porto Alegre. Claro e objetivo, ele oferece uma visão panorâmica, onde pode-se ver como algumas das obras colocadas na cidade tiveram sua própria história em termos de seleção e localização, bem como saber que artistas as criaram.

Escultura de ferro e pedras locais - Fernando Limberger 1992 - Pq Marinha do Brasil (Clique para ampliar) / Foto de José Francisco Alves
Mas, talvez seja interessante partir de dois acontecimentos que neste momento estão a pedir atenção em termos de arte na cidade em Porto Alegre: o projeto Artemosfera, e a regulamentação da lei municipal 10036, que estabelece a obrigatoriedade de colocação de obras de arte nos prédios com mais de 2000 metros quadrados.
O projeto Artemosfera, uma promoção da rede RBS, com curadoria de Cézar Prestes, iniciou em novembro, e propõe um olhar sobre o patrimônio artístico cultural da cidade, através de intervenções de artistas. No site, há vários vídeos, explicações da proposta, e apresentação de todos os artistas que participam, ainda que se sinta falta de informações mais precisas sobre os locais de cada obra, com as datas e imagens, para atrair e orientar o público para a visitação. Entre as propostas já executadas destaca-se a de Lendro Selister: uma vista das margens do Guaíba impressa em uma superfície de 20 metros de comprimento por 2 metros de altura colocada sobre o muro do cais do porto na avenida Mauá. Ao espectador que passa, parece que o muro se abriu para a cidade, deixando ver o rio, um paisagem há muito ocultada de seus moradores. Uma impactante surpresa para o olhar.
Alguns projetos de arte urbana não propõem a alocação de obras, mas envolvem a realização de intervenções efêmeras em determinados espaços. Conhecê-las pode ser uma foram de se conectar com este tipo de prática. Em sua maioria essas propostas dialogam com a visualidade das cidades, interferindo nas relações da população com seu cotidiano e propondo a criação de novos sentidos.
O projeto Estante pública, desenvolvido pelo Estúdio Nômade, propõe a colocação de estantes com livros em paradas de ônibus na cidade, estabelecendo uma interconexão entre os passageiros e sua estada cotidiana nestes pontos da cidade. Pensada como uma forma de conversar com a cidade, esta intervenção mobiliza um estímulo à cidadania e ao compartilhamento do conhecimento e do entretenimento.
Um grupo de professores e alunos da UFRGS, denominado Perdidos no Espaço, desenvolve formas de pensar a relação entre a arte e o espaço urbano. Seus projetos de intervenções artísticas na cidade podem ser vistos neste site, onde são disponibilizadas documentações de suas atividades. Visitas e caminhadas de reconhecimento fazem parte de um processo de trabalho que busca o acercamento da realidade para fomentar um olhar sensível, sem necessariamente produzir obras ou eventos.
Quanto à lei de obrigatoriedade de colocação de obras de arte em grandes prédios, ela já existe em Florianópolis, funcionando desde 1989, regulamentada, com uma história em seu desenvolvimento. Um relato dessa experiência foi apresentado por Cesar Floriano, no já citado seminário Experiências em Arte Pública:Memória e Atualidade, encontrando-se também disponível on-line. Atualmente vive-se em Porto Alegre o processo de regulamentação e implementação da lei, sobre a qual é importante ter informações e opinião. A organização da sociedade civil, necessária para tantas melhorias nos serviços públicos, também é decisiva para a definição das práticas artísticas desenvolvidas na cidade. Elas afetam a muitas pessoas e não devem ser definidas aleatoriamente.
Segundo Friedrich Nietzsche “A arte [...] é uma maior sensação da vida, é um estimulante da vida.” Como se apropriar desta possibilidade que se oferece a cada dia nos espaços da cidade, como buscá-las, como estimulá-las? Como abordar as transformações de sentido que os artistas processam através de suas interferências na paisagem urbana? Não se trata de estabelecer modelos a serem seguidos, mas de experienciar cada processo de forma crítica e aberta.
Comentários (6)
» Deixe seu comentárioParabéns Maria Amélia – gostamos muito.
Abraços,
Oscar Araripe
Maria Amelia,
Belo texto, como sempre!!!
Faz uns dois anos, acho, que Voltaire Schilling levantou uma questao muito pertinente em relacao as obras de arte publica na cidade, das quais algumas sao verdadeiros trofeus do mau gosto. Aquelas cuias cafonas do Saint Clair Cemin, eh um caso. A obra do Resende, cuja foto esta acima, ate eh bem interessante, mas a execucao foi tao mediocre que o acesso do publico nao durou nem um ano. Isto que foi gasto um milhao de reais ali, patrocinio das Lojas Renner.
Concordando com o Selister, acho essa discussao importantissima e deve ser feita, pois trata-se nao so do legado da producao da arte atual para futuras geracoes, mas tambem uma maneira de contribuir para o entendimento e construcao de um pensamento sobre o que eh arte.
Parabens pelo texto e desculpe a falta de acentos, ainda nao sei como acentuar nesse teclado.
Bjus
Nei
BElo e oportuno texto, quando todo mundo só se liga em ESPETACULOS. Parabéns. Seria bom comentar oportunamente, sobre alguns prédios antigos, algumas ruas, locais interessantes da cidade, mais além da GONÇALO DE CARVALHO.
Oi Maria Amélia!
assunto sério e antigas discussões!Novo momento, novas ações….. em 1996 e tb em 1998, fizemos dois seminário na SMC sobre arte e espaço públuco.(eu coordenei) A Pref. tinha um projeto “espaço urbano espaço arte” atualmente congelado. Tudo isso pra dizer que parece que andamos em circulo e a cidade incha as pessoas interessadas público e privado difícilmente conversam e se ajudam. Quem cuida, quem se responsabiliza por obras permanentes? sem falar em arte, seu papel para a sociedade…..e por aí vai. Muitas coisas estão acontecendo talvez contribua, valeu! muito bom texto. abração
Maria Amélia, parabéns pelo conteúdo, uma visão crítica de quem conhece e muito a aldeia.
bjs Edgar


Maria Amelia. Gostei do texto. Acho que é uma discussão necessária. Parabéns. Abs. Leandro