Economia
Economistas debatem integração latina no pós-neoliberalismo

Debate reuniu seis economistas de diferentes paÃses no auditório da FEE, em Porto Alegre | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Felipe Prestes
A década de 1990 foi talvez o perÃodo em que os paÃses latino-americanos estiveram mais integrados economicamente. As polÃticas macroeconômicas eram convergentes e o predomÃnio, das ideias neoliberais. Foi quando ocorreu, de fato, uma abertura dos mercados com o surgimento de blocos como o Mercosul. A derrocada deste modelo deu lugar à visão desenvolvimentista e a uma integração que ainda está sendo interpretada. “O avanço da integração hoje é dado pelo crescimento econômico dos paÃses sul-americanos. Há também um avanço dos investimentos, como os que o Brasil tem feito nos paÃses vizinhosâ€, explicou o assessor técnico da presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), André Calixtre, na tarde desta quinta-feira (6), em mesa-redonda que fez parte da série de debates “Perspectivas da América Latina frente ao Pós-Neoliberalismoâ€, organizada pela Fundação de Economia e EstatÃstica (FEE) do Rio Grande do Sul.
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Calixtre acrescentou que o viés da integração não é mais livrecambista, como era o paradigma dos anos 1990, mas sim de união aduaneira, de instrumentos comuns de defesa comercial frente a outros blocos ou paÃses. “Este tipo de integração deve se acentuar com a criseâ€, afirmou.
O economista ressaltou os desafios que a integração econômica traz. Um dos principais é a geração de desigualdades. “Toda a integração econômica gera desigualdades. O problema é como criar uma estrutura que reverta isto. Se não reverter, um dos problemas pode ser, por exemplo, a expansão do capital brasileiro que já tem gerado tensõesâ€, afirmou Calixtre.
Consolidar a União de Nações Sul-Americanas (UNASUR) deve ser outro desafio, bem como o Banco do Sul. A União foi ratificada há poucos meses pelo Congresso brasileiro, mas há resistências no paÃs quanto à adesão ao banco. “Uma parte do Estado brasileiro é contraâ€, disse o assessor técnico da presidência do IPEA.

Calixtre: “Vários diplomatas brasileiros que se tornaram contra a ALCA eram favoráveis. Era um paradigma†| Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Histórico da (não) integração
André Calixtre mostrou em seu painel um panorama histórico da integração econômica na América Latina. Após a independência das ex-colônias viveu-se um largo perÃodo em que a integração era impossibilitada pela visão agroexportadora. A economia dos paÃses latinoamericanos era voltada para fora, para os paÃses desenvolvidos. “O modelo não era próprio à integraçãoâ€, resumiu o economista.
A ruptura se deu com a ascensão de governos com viés desenvolvimentista no continente, em meados do século XX. “A integração passou a ser vista como um modo de superar o subdesenvolvimentoâ€, relatou Calixtre. Entretanto, os governos buscavam, antes de tudo, fortalecer suas indústrias nacionais, o que fez que a integração não se concretizasse na prática. Assim naufragou, por exemplo, a Associação Latino-Americana de Livre Comércio (ALALC), criada em 1960, em Montevidéu. “Havia um bloqueio material à integraçãoâ€.
A década de 1980 foi a que os paÃses latinoamericanos sofreram com a dÃvida pública e iniciaram a transição para a financeirização de sua economia. Nos anos 1990, houve o paradigma comum de globalização e neoliberalismo. E um sentimento de que a criação de blocos de livre comércio era inevitável. “Vários diplomatas brasileiros que se tornaram contra a ALCA eram favoráveis. Era um paradigmaâ€, afirmou Calixtre. Neste contexto, o Mercosul seria para o Brasil uma preparação para uma abertura maior.
Entretanto, a crise econômica que submeteu vários paÃses do América Latina levou à derrocada do modelo neoliberal e abortou a ALCA. Porém, o pós-neoliberalismo, ressaltou Calixtre, é uma superação do neoliberalismo que ainda dialoga com ele, ou seja, mantém algumas de suas caracterÃsticas. A mais sensÃvel delas é a preponderância do capital financeiro, que persiste no continente.
“Precisamos de modelos industriais complementaresâ€
Após a explanação de André Calixtre, quatro economistas que vieram do exterior para participar dos eventos da FEE debateram a crise econômica e a integração regional, em mesa presidida pelo presidente da entidade, Adalmir Marchetti. Veja o que eles disseram:

Musacchio: "Nossas matrizes tributárias permanecem taxando o consumo, não o lucro" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Andrés Musacchio – Universidad de Buenos Aires (UBA)
“Só pode haver integração se houver modelos industriais complementares. Não se faz integração por solidariedade, mas por interesses que se complementam. As relações Brasil-Argentina têm sido tensas por restrições comerciais, por não terem modelos complementares.â€
“Há dois tipos de neoliberalismo. Aquele de livre mercado, mas também o que faz a destruição do mercado interno para exportar, que reduz os custos salariais. Acho que não há um avanço decidido no processo de distribuição de renda na América Latina. O Brasil fez um pouco mais que a Argentina, mas sobre uma necessidade maior. Sintomático desta falta de distribuição é que as matrizes tributárias permanecem taxando o consumo, e não os lucros. Devemos fazer a integração pela redução das desigualdades dentro de cada paÃs e entre os paÃsesâ€
Gerard Duménil – Paris X
“A Grécia não pode e não deve pagar a dÃvida. Sair da Zona do Euro não resolveria em nada o problema, porque o paÃs teria uma moeda fraca e a dÃvida se tornaria muito mais difÃcil de ser paga. Então, o problema é como partilhar o bolo. A Grécia talvez possa pagar um pouco da dÃvida no futuro. Os governos das potências europeias devem colocar dinheiro no Fundo de Estabilização que criaram. O Banco Central Europeu vai comprar tÃtulos da dÃvida grega, mas os bancos também devem perderâ€
“O protecionismo vai aumentar com a crise, mas protecionismo não é crime. Ele não pode é se tornar um princÃpio, como foi o livre mercado para os neoliberais. Era quase uma religiãoâ€
Claudio Eduardo Lara Cortés – Universidad de Arte y Ciencias Sociales (ARCIS), do Chile
“Em um perÃodo de crise a integração pode ser forçada pela realidade, para que os paÃses se defendam de terceiros. A atual crise tem colocado em xeque instituições multilaterais como a Organização Mundial do Comércio (OMC). O protecionismo não é uma tendência com a crise, ele já está em marcha. E o maior dos protecionismos são os subsÃdios da Europa e dos Estados Unidos a sua atividade econômicaâ€
“Capitais de paÃses desenvolvidos buscam outros lugares. A pergunta é se estamos frente a capitais que vão desenvolver setores da economia de nossos paÃses ou se são meramente especulativos? O Chile teve U$ 15 bilhões de investimentos no ano passado, 80% disto eram reinvestimentos a partir dos lucros das mineradoras. PaÃses da América Latina estão deixando de comerciar com os Estados Unidos e Europa para comerciar com a China, e a América Latina está voltada novamente para o setor primárioâ€

"Temos que discutir se nossos paÃses vivem desindustrialização relativa, absoluta, ou se isto atinge apenas alguns ramos de nossa indústria" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Gabriel Mendonza Pichardo – Universidad Nacional Autónoma do México (UNAM)
“Minha visão é pessimista de que possa haver mudanças no processo neoliberal do México. Algumas coisas que passam no Brasil mostram que é possÃvelâ€
“Temos que discutir se nossos paÃses vivem desindustrialização relativa, absoluta, ou se isto atinge apenas alguns ramos de nossa indústria. E também se não estamos passando direto para o setor terciário, sem ter completado a industrializaçãoâ€
“Mexicanos precisam de visto para entrar nos Estados Unidos e no Canadá. A integração do NAFTA é reduzidaâ€
Comentários (3)
» Deixe seu comentárioVerdade, Sandro, porque se depender da mÃdia corporativa, voltaremos a barbárie.
hj tem “Esquerda e neoliberalismo na A. Latina: fracassos e sucessos” no auditório da FCE/UFRGS, à s 19h. Palestram Orlando Caputo, economista q esteve no governo Allende, e uma professora da UFRGS…


Ótimo debate. Salve o Sul 21 por nos brindar com ideias tão avançadas depois da longa noite do neoliberalismo. Sabe quando a grande mÃdia sulina vai cobrir um debate destes: NUNCA, pois o último BUNKER das teses neoliberais, digo, pilhagem, privataria da coisa pública, é a grande imprensa da américa latina e do mundo.