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Vinte anos depois, Web luta para manter espÃrito livre original

Aplicativos produzidos por corporações vão, aos poucos, restringindo o uso da World Wide Web | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Igor Natusch
Nascida para ser veÃculo da livre circulação de informações entre as pessoas, a World Wide Web (WWW) chega aos 20 anos lutando para escapar da prisão. O perigo, porém, não está exatamente na censura direta, e sim na força crescente de intermediários – que, se não sofrerem controle, podem condicionar o uso da internet aos próprios interesses.
No dia 6 de agosto de 1991, a internet tornou-se viável. Criada pelo cientista de computação Tim Berners-Lee, a World Wide Web recebeu nesta data sua primeira menção pública, quando um breve sumário do projeto foi publicado no alt.hypertext, um fórum de discussão da rede Usenet. Não foi a invenção da internet, que já existia em forma embrionária desde o final dos anos 60. Mas foi passo fundamental para que ela fosse além de alguns poucos (e gigantescos) computadores universitários e governamentais.
Marcelo Zuffo, professor do Laboratório de Sistemas Integráveis da USP, diz que o sistema WWW foi o grande passo para que a internet saÃsse do cÃrculo acadêmico e fosse incorporada por toda a sociedade. “Isso mudou tudo. Revolucionou a economia, a sociedade, acelerou a interação informacional, gerando essa impressão de que as distâncias diminuÃramâ€, enumera.
Web fez com que Internet se tornasse visÃvel
O sistema de hipertextos interligados que constitui a Web foi criado para ser uma ferramenta de troca de informações de todos os tipos. O WWW passou a permitir o acesso, por meio de browsers (navegadores), a conteúdo armazenado nos mais diferentes servidores ao redor do mundo, sempre partindo do próprio interesse dos usuários, sem restrições técnicas ou contratuais. A partir daà veio tudo que hoje conhecemos como internet – tanto que os dois conceitos, na cabeça de muitas pessoas, se misturam.
“A Web viabilizou e popularizou a internetâ€, resume Sérgio Amadeu, professor do Centro de Engenharia Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas da UFABC. Ele explica que conceitos hoje amplamente disseminados, como o comércio eletrônico e a criação de sites pessoais, só se tornaram possÃveis a partir da WWW. “A internet passou a ser visÃvel, as pessoas foram convidadas a entrarâ€, diz Amadeu.

No dia 6 de agosto de 1991, Tim Berners-Lee oficializou World Wide Web, que viabilizou a internet | Foto: Divulgação
Isso foi possÃvel, segundo ele, pelo espÃrito aberto que guiou a criação da World Wide Web. “Ela surge baseada na adoção de padrões abertos e na universalidade de usoâ€, explica. A construção de Berners-Lee, diz Sérgio Amadeu, parte da ideia que a Web seja acessÃvel a qualquer software que aceite os protocolos necessários. “Inovações tecnológicas como o YouTube e os sistemas BitTorrent (processo de compartilhamento de arquivos) surgiram motivadas pela ampla liberdade da rede, e são inconcebÃveis sem issoâ€.
O professor Eduardo Pellanda, da Faculdade de Comunicação da PUCRS, lembra que já estão surgindo aparelhos como o Chromebook, que permitem armazenamento em rede de todos os dados e aplicativos. “Fica tudo na nuvemâ€, diz Pellanda. “Se essa ideia se consolidar, morre o Windows, morre o Mac. A Web se torna uma janela, uma porta de entrada para todas as atividades digitaisâ€.
Aplicativos trazem restrições ao uso
Antes associado ao computador pessoal ou desktop, o acesso à internet está pulverizado em um grande número de aparelhos, que utilizam a rede em aplicativos (ou apps). A tendência, segundo dados da agência de consultoria financeira Morgan Stanley, é que os dispositivos móveis de acesso à internet ultrapassem os desktops entre 2013 e 2014. Esses aparelhos e aplicativos permitem navegar na Web de qualquer lugar, com grande mobilidade, mas podem estar compensando a liberdade que oferecem com outros tipos de restrição.
“Há um perigo, já que o acesso à informação fica sempre sujeito a algumas regrasâ€, admite Eduardo Pellanda, da PUCRS. Segundo ele, existem dois problemas básicos. Primeiro, a necessidade de preenchimento de formulários faz com que informações fiquem à disposição de quem oferece os mecanismos de acesso à Web. Por outro lado, são poucos grupos controlando o acesso de uma quantidade imensa de pessoas – o que prejudica a regulamentação e a fiscalização independente. “Fala-se em passar esse poder (de fiscalização) para a ONUâ€, lembra Pellanda, dizendo acreditar que seria uma solução “perfeita†para a situação.
Sérgio Amadeu, por sua vez, teme que empresas como a Apple e o Facebook estejam trabalhando na formação de “ilhas digitaisâ€, ainda que em sentidos diferentes. “Para usar o Facebook, é necessário aceitar o contrato de serviço e as regras para conexãoâ€, exemplifica. “Isso cria uma restrição, na medida em que o conteúdo só existe para quem aceitar as imposições do Facebook. Já a Apple e o iPhone vão contra a ideia de acesso livre à Web, já que os aplicativos só fazem o que o hardware permite. Ou seja, as pessoas só podem navegar dentro das regras que a Apple impõeâ€, critica.
Ainda que admita essas dificuldades, Marcelo Zuffo analisa a questão sob outra perspectiva. “O browser ainda é muito importante. Um aplicativo pouco mais é do que um browser empacotadoâ€, afirma o professor da USP. Segundo ele, há uma “confusão momentâneaâ€, que deve ser clareada com o passar do tempo. “Essa dinâmica comercial (dos aplicativos) corresponde apenas à primeira fase de um longo processo. Não sabemos nem mesmo se ainda existirá a Apple ou o Facebook no ano que vemâ€, diz Zuffo. “Mesmo os conglomerados que exploram a internet são bastante instáveis, os critérios de valoração variam muito. Ainda tem muito pano para manga nessa históriaâ€, acentua.

Sérgio Amadeu: "Talvez estejamos vivendo uma batalha derradeira pelo futuro da internet" | Foto: wilson Dias/ABr
“Batalha derradeira” pela internet
Eduardo Pellanda descreve o momento que se desenha como uma “era pós-PCâ€. A tendência, segundo ele, é de uma internet distribuÃda de forma cada vez mais generalizada, com o uso de diversos dispositivos e o barateamento das conexões e aparelhos. “Antes tudo isso parecia meio futurista, mas hoje em dia já está consolidadoâ€, diz o professor da Faculdade de Comunicação da PUCRS.
Marcelo Zuffo, da USP, prevê para os próximos anos o crescimento contÃnuo do uso da Web em dispositivos cada vez menores (“a internet mudando para as coisasâ€, descreve) e a ampliação das tecnologias tridimensionais (3D). Mas coloca um desafio extra para a World Wide Web: achar caminhos para ir ainda mais longe. “Dos atuais 7 bilhões de habitantes da Terra, pelo menos 1 bilhão jamais teve qualquer tipo de contato com a internetâ€, afirma. “São pessoas que moram em rincões, que nunca puderam desfrutar de nenhum dos benefÃcios da Web. Como lidar com essa situação? Quais as estratégias para que a internet consiga melhorar a situação de vida dessas pessoas?â€, questiona.
“Talvez estejamos vivendo uma batalha derradeira pelo futuro da internetâ€, acentua Sérgio Amadeu. O professor da UFABC acredita que existe o risco das corporações aprisionarem a internet do ponto de vista técnico, subvertendo seu espÃrito livre em nome dos próprios interesses. Uma crÃtica que também se aplica à s empresas responsáveis pelas conexões fÃsicas, como as operadoras de telefonia, que podem estabelecer filtros ao fluxo de informações e quebrar o princÃpio de neutralidade da rede. Caso isso ocorra, a facilidade de acesso aos sites não será a mesma – quem pagar mais terá carregamento mais rápido, o que ativistas sociais veem como uma restrição próxima da censura.