Especial Legalidade

Reportagem

Movimento dos sargentos da FAB foi reforçado pela figura de um capitão

Alfredo Daudt juntou-se à mobilização dos subalternos em 1961

Dóris Daudt: ". “Daudt tinha paixão por voar, ia ao aeroporto, dizia que era para sentir o cheiro de querosene e dos motores" l Foto: ab.mil.br

Lorena Paim

Um dos episódios mais conhecidos e dramáticos da Legalidade, em 1961, foi a ordem dada à Força Aérea Brasileira (FAB) para fazer sobrevoos rasantes sobre o Palácio Piratini, a fim de intimidar o governador Leonel Brizola, que resistia a uma tentativa de golpe contra a posse do vice-presidente, João Goulart. O “movimento dos sargentos da FAB”, como ficou conhecido, teve, entretanto, outros personagens de destaque, que ocupavam postos mais altos na Aeronáutica. É o caso do coronel reformado gaúcho Alfredo Ribeiro Daudt, na época capitão. Ele faleceu em 2007, aos 84 anos.

Na Base Aérea de Canoas, o clima era de extrema tensão quando os militares tomaram conhecimento da determinação dada aos pilotos dos caças para sobrevoarem a sede do Governo, em Porto Alegre, com voos rasantes. Conhecedores do sistema, a maioria se deu conta de que esses aviões, como estavam carregados com bombas, na verdade estariam preparados para um bombardeio. É que se aterrissassem portando as bombas, automaticamente, ocorreria uma explosão.

Na foto, que registra o retorno de Brizola, depois da anistia, Daudt está logo atrás do líder da Legalidade, à esquerda l Foto: pdt-rj.org.br

Logo começou a movimentação, majoritariamente por parte dos sargentos e suboficiais, para sabotar a operação. Quando recebeu a notícia sobre a ordem de bombardeio, o capitão Alfredo Daudt, procurado pelos sargentos, logo aderiu ao movimento dos subalternos. A viúva do oficial aviador, Dóris Daudt, conta o fato e lamenta que se dê pouco valor à atitude do grupo, tomada dentro da Base Aérea, que acabou evitando uma tragédia. “Daudt foi o oficial que se juntou aos demais, durante a madrugada, quando foram realizados atos de sabotagem que impediriam os aviões de decolar”, diz ela. Lembra que não havia tempo para pensar; “tudo tinha que ser feito naquela hora”. E, pela manhã, os caças Gloster Meteor, efetivamente, estavam com os pneus esvaziados e o sistema de bombas desativado.

Depois disso, afastado o perigo do bombardeio, acrescenta Dóris, o capitão Daudt foi ao Palácio Piratini, em Porto Alegre, para comunicar o fato ao governador. Leonel Brizola recebeu, também, outros emissários da Base Aérea de Canoas portadores da notícia, entre os quais o sargento Ney Calixto. A atitude foi elogiada pelo Exército, que, após a adesão do comandante do III Exército, general Machado Lopes, passou a comandar as operações militares durante a Legalidade. Apesar do elogio, houve detenções na Base Aérea, até que a situação fosse averiguada e o caso encerrado. O capitão Daudt ficou dois dias detido.

Atitude foi marcante

“A Legalidade foi o movimento político mais importante que já houve no país”, comenta Dóris. Ela diz que a atitude de seu marido, nessa ocasião, esteve de acordo com as ideias nas quais ele acreditava, muitas vezes desagradando seus superiores. Neste sentido, apoiava as teses nacionalistas, defendendo, por exemplo, a formação da Petrobras e da Eletrobras, as estatais do petróleo e da energia elétrica. “Ele fazia parte do grupo de militares legalistas da FAB que respeitavam a democracia e não queriam que a Constituição fosse rasgada”, afirma. Eles se aproximavam mais dos getulistas, em oposição aos eduardistas (partidários do brigadeiro Eduardo Gomes). Daudt, diz ela ainda, não votou em Jânio Quadros, mas não pregava que o presidente fosse derrubado. “Na Legalidade, ele estava agindo em defesa das leis do país, o que era coerente com sua atuação na Aeronáutica. Não titubeou no episódio dos aviões e nunca se arrependeu de sua posição”.

Dadut "nunca se arrependeu de sua posição” l Foto: cabospos64.blogspot.com

Quando pôde falar com o marido, depois de controlada a situação na Base Aérea, Dóris recorda que ele estava “preocupado com a rapaziada nova”, pois os pilotos dos caças eram jovens, e também se mostrava aliviado, pois tinham evitado uma calamidade. Ela, por sua vez, ficou em casa com os dois filhos, Alfredo (Dinho) e Nereida, acompanhando tudo atentamente pelo rádio.

Dóris destaca uma particularidade existente na Aeronáutica, onde a tradicional hierarquia militar não é tão rigorosa. “Os oficiais aviadores têm uma convivência maior com os sargentos, pois voam juntos e não existe uma distância tão grande entre eles”. Isso, acredita, contribuiu para uma aproximação na hora do perigo.

Mesmo com a atitude firme durante a Legalidade, diz Dóris, o coronel Daudt “ficou marcado por isso”. Tanto que em 1964 foi reformado, demitido e preso. A família acabou indo para Montevidéu e viveu quatro anos na capital uruguaia, onde mantinha contatos sociais e esporádicos com a família de Brizola. O mais grave dessa situação, segundo ela, foi o fato de 50 aviadores militares, também demitidos nas mesmas circunstâncias, terem sido proibidos de voar novamente. Ela diz que isso só ocorreu na Aeronáutica, pois os militares atingidos ficaram sem sua carteira de voo, documento profissional indispensável para exercer a atividade. Até hoje, os prejudicados tentam uma compensação em função dessa perda, informa Dóris.

Após a anistia, em 1979, Alfredo Daudt foi promovido a coronel. Profissionalmente, desempenhou várias atividades, não mais ligadas à aviação. Segundo a viúva, ele não se interessou em ocupar cargos políticos que lhe foram oferecidos pelo PDT. “Daudt tinha paixão por voar, ia ao aeroporto, dizia que era para sentir o cheiro de querosene e dos motores. Nunca perdoou por ter sido impossibilitado de voar”, diz Dóris.

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Comentários (8)
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Comentário de: Nereida Daudt | 3 de agosto de 2011 | 10:13

Esta sabotagem que evitou o bombardeio do Palácio Piratini em 1961 incomodou tanto os golpistas da Aeronáutica, alguns na ativa até hoje, que governo algum até hoje pode reparar tal injustiça, causada principalmente ao Capitão da Legalidade: Alfredo Ribeiro Daudt. Sem dúvida, ele é o caso mais emblemático de injustiça vigente causado pela ditadura.

Comentário de: LETICIA COIMBRA | 3 de agosto de 2011 | 11:42

Em vida, nunca foi feita justiça ao prejuízo moral e aos danos familiares que a perseguição poliítica trouxeram ao Capitão da Aeronaútica Alfredo Daudt. E é fato histórico reconhecido que a atitude do Capitão impediu um crime hediondo que mancharia ainda mais a história política do país, pois ali se iniciaria a ditadura de forma sangrenta e implacável.

Comentário de: LETICIA COIMBRA | 3 de agosto de 2011 | 11:50

Em vida, nunca foi feita justiça ao prejuízo moral e aos danos familiares que a perseguição poliítica trouxe ao Capitão da Aeronaútica Alfredo Daudt. E é fato histórico reconhecido que a atitude do Capitão impediu um crime hediondo que mancharia ainda mais a história política do país, pois ali se iniciaria a ditadura de forma sangrenta e implacável. O golpe militar veio em 1964, mas sem o banho de sangue inaugural que aconteceria em Porto Alegre, seifando a vida do governador gaúcho Leonel Brizola.

Como Brizola voltou do exílio nos braços do povo e foi eleito duas vezes governador do Rio de Janeiro, concluímos que tudo se deve aos que evitaram seu assassinato em 1961.

A pergunta que não quer calar é: quando a justiça reconhecerá este fato e ordenará a devida reparação aos familiares de Alfredo Daudt?

Comentário de: Renato Endres | 3 de agosto de 2011 | 14:36

Revi com alegria a foto da volta do Brizola do exílio.É de minha autoria e foi doada ao Daudt.
Um abraço.
Renato Endres

Comentário de: nivaldo cunha | 3 de agosto de 2011 | 15:29

Convivi e fui testemunha( tem mais um) de um depoimento de um velho camarada que transportou como motorista o Capitão Daudt ao Uruguai logo após ele ter sua fuga do quartel da PE em 64 facilitada pelo oficial de dia Carlos Lamarca. Realmente, é mais um de tantos heróis que necessitam ter seus gestos resgatados.

Comentário de: Alfredo Garopaba | 4 de agosto de 2011 | 9:37

Parabéns à Lorena pela reportagem. Com talento e experiência foi fiel ao escrever detalhes inéditos narrados, sobre o fato, pela entrevistada. Assim se faz notícia sobre a história. Conheço Lorena, de quem tenho o orgulho de ser colega, bem como Doris e Alfredo Daudt, meus pais. Por isso, como leitor, desde a criação de Sul21, blog que já colaborei, através da editora Vera Spolidoro, tenho o dever, desta vez, de interagir. Acrescentando, desta forma, à cômoda e atraente leitura, esta singela e sincera mensagem de agradecimento e admiração por este trabalho. Anistiado como oficial da Força Aérea, Alfredo Daudt jamais recobrou plenamente seu direito de voar. Perseguido, politicamente, ele foi proibido de exercer profissionalmente sua função de piloto, através de Portaria Secreta do Ministério da Aeronáutica que o impedia de voar no Brasil e no exterior. E amargou esta penalidade imposta pelo arbítrio, até a morte dele. Uma injustiça incapaz de ser revista até hoje, pela Comissão de Anistia, e que sobrou como herança amarga para Doris. att.Alfredo Dinho Daudt Junior.

Comentário de: Robson Nóbrega | 9 de agosto de 2011 | 11:25

Chegou a hora de repararmos todos os danos sofridos pelos agentes diretos envolvidos nesta resistência e também seus familiares.
Que a justiça seja feita.

Comentário de: ivone marques reis | 11 de setembro de 2011 | 22:42

O Brasil e lindo por causa das nobres pessoas que caminham em seu solo, que negociam sem custo liberdades e liberdades mesmo a custa de suas liberdades que protegem e evitam o caus mesmo quando avista o caus em suas próprias vidas.

EMOCIONEM-ME COM ESSA HISTÓRIA E COM O SOFRIMENTO DESSES AVIADORES IMPEDIDOS EM VIVER AQUILO QUE FAZIAM POR AMOR”VOAR”!!

NINGUÉM TEM O DIREITO DE TIRAR AS ASSAS DE UMA ÁGUIA.

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