Cultura

“A quem chega por indicação da Veja, peço que não me leiaâ€

Milton Ribeiro

O pernambucano Fernando Monteiro é poeta, romancista, dramaturgo, cineasta e crítico de arte. É autor, entre outros, dos romances Aspades, ETs., Etc., A Cabeça no Fundo do Entulho (ambos publicados pela Record) e O Grau Graumann (Globo). Aspades talvez seja seu livro mais importante. Premiado em Portugal — onde foi primeiramente lançado — e no Brasil, é um curioso romance que abarca vários gêneros para descrever a vida do imaginário cineasta português Vasco Aspades do Carmo. Já Grau Graumann tem como personagem principal Lúcio Graumann, um desconhecido gaúcho de Santa Cruz do Sul que foi o primeiro brasileiro laureado com o Prêmio Nobel de Literatura. Moribundo e ignorado, poucos o conhecem. A Academia Brasileira de Letras e os cadernos de cultura não têm o que dizer a respeito…

Muito mais conhecido é Monteiro. Ex-colunista da revista Bravo e atual colaborador do jornal literário Rascunho, da revista Continente, do Substantivo Plural e de outros veículos, costuma utilizar sua imensa erudição em comentários que discutem o Brasil e a produção cultural atual de uma perspectiva que foge ao usual e rotineiro.

É o que acontece nesta entrevista exclusiva concedida ao Sul21.

Sul21 – Uma vez tu disseste que os escritores de hoje escreviam para o passado. O que querias dizer com isso?

Fernando Monteiro – Uma vez que você não encontra mais tantos leitores que respondam com a mesma atenção dos de antes, os escritores passaram a escrever para um leitor que está morto, para um gênero de leitor que não mais existe. Porque, na verdade, o leitor é mais importante do que o autor. Como dizia Borges, o leitura e é uma atividade posterior e mais refinada do que a do escritor. Nós somos autores porque fomos e somos leitores. Borges, em sua zona de sombras, permanecia considerando-se um leitor. Uma vez, em Curitiba, participei de uma série de entrevistas onde o mote era “Por que você escreve?â€. Era uma série de longas entrevistas onde a gente podia se esbaldar. Mas o essencial da minha resposta era extremamente simples: eu escrevo porque li. Quando era um jovem e bom escritor, Fernando Sabino disse que, quando a gente escreve, acaba por perder a inocência como leitor. Descobrimos o caminho da mina, a estrutura, os truques. Eu sou também cineasta e o mesmo ocorre lá. Quando nos aprofundamos muito, a coisa da magia se esvai em parte. Há coisas que é melhor não saber como são feitas…

Sul21 – Tu estarias contaminado como leitor?

Fernando Monteiro – Sim, eu leio ainda, mas sem o mesmo encantamento, até porque tem se tornado cada vez mais complicado.

Sul21 – Por quê?

Fernando Monteiro – A nacional e a internacional vão bastante mal. Não há grandes autores. A literatura, principalmente a de ficção, está num péssimo momento. Pode parecer que não porque muita coisa é publicada, mas a produção é fraca. Vejamos. De onde surgiu este naturalismo tardio que é praticado? De onde veio? Isso é uma coisa superadíssima. E a violência urbana? Essa é uma vertente que permite uma linguagem mínima, que cria histórias lineares e com pouca ou nenhuma transcendência, coisa de imaginações menores.

Sul21 – Quem tu lês e gostas?

"A boa literatura brasileira foi abandonada no ponto onde Caio Fernando Abreu e João Antônio a deixaram".

Fernando Monteiro – Sob a apocalipse encontram-se ainda coisas boas. Por exemplo, o sergipano Francisco Dantas. Mas voltando à crise antes de avançar pelos bons autores, a boa literatura brasileira foi abandonada no ponto onde Caio Fernando Abreu e João Antônio a deixaram. Ambos eram excelentes. Duas figuras inteiramente diversas, dois espíritos férteis, cada um a seu modo. A mim parece é que a literatura não mais evoluiu após o desaparecimento de ambos. O Caio estava num ponto admirável, mas lamentavelmente faleceu muito cedo. Ele teria muito a contribuir. Peço desculpas a teus conterrâneos leitores do Sul21 que são admiradores do Moacyr Scliar, mas ele nunca teve a qualidade de Caio.

Sul21 – Acho que a maioria concordaria.

Fernando Monteiro – Sendo cabotino, diria que o Caio estava sinalizando, para a literatura brasileira, coisas que tentei retomar em meus livros. Ao menos eu me esforcei. E João Antônio, num ambiente completamente diferente, paulista e interessado pelo submundo em contos maravilhosos, era um escritor notável.

Sul21 – E os outros brasileiros?

Fernando Monteiro – Eu não estou criticando por ser ranzinza, critico pelo fato de que praticamente não encontro autores para ler. No Brasil e também lá fora. O prazer de ler está sendo obstaculizado pela falta de bons autores. Então, aos 62 anos, estou relendo, porque não vou perder tempo lendo autores novos como Franzen. Melhor reler Moby Dick. Sobre os brasileiros, a jovem poeta Mariana Ianelli é muito interessante, dá prazer de ler. É uma jovem de 20 poucos anos, muito talentosa. Ah, sim, tem a Elvira Vigna também, que trafega no campo da ficção. É paulista, foi editora e escreve romances. Hoje é publicada pela Companhia das Letras. Ela tem uma produção muito interessante, de grande modernidade, sua ficção é muito delicada, muito bem construída.

Sul21 – O naturalismo deve ser evitado?

"Se você me devolve o real, eu estou assistindo o real de novo".

Fernando Monteiro – A arte transfigura o real, se não, não é arte. Se você me devolve o real, por exemplo, no cinema, eu estou assistindo o real de novo. Agora, se o autor aborda o real, mas transfigurado de algum modo, eu posso começar a ter arte. Essa é a base de tudo. Essa coisa de escritores que escrevem bem, mas me devolvem o real, o dia a dia, é pobre. Por exemplo, o trabalho do Bernardo de Carvalho é diferente, é excelente. Sem duvida alguma, ele esta atento ao que está acontecendo na literatura porque tem se manifestado em relação a esse “apagãoâ€, tem se expressado como extremamente desencantado com o horizonte literário atual. É uma pessoa que tem batido nessa tecla da afunilação da literatura pelo mundo pop-rock. Ele está fora desse percurso.

Sul21 – A situação altera-se fora do Brasil? McEwan, Bolaño, Franzen…

Fernando Monteiro – McEwan é um escritor bem interessante. O Jardim de Cimento e Reparação são ótimos. Já Franzen é um engodo, faz uma falsa literatura profunda, comparável ao filme A Ãrvore da Vida. Tristeza não é necessariamente profundidade, tristeza pode ser apenas enfadonha. Tão enfadonha quanto a tuiteratura de Marcelino Freire.

Sul21 – E a tua produção?

Fernando Monteiro – Estou em vias de publicar um outro poema longo nos moldes de Vi uma foto de Anna Akhmátova [texto completo aqui] chamado Mattinata. É sobre um casal que se separa.

Sul21 – O tema do amor.

Fernando Monteiro – Sim, um dos grandes temas, assim como o amor, há a morte, a busca de Deus, o significado da vida, essas coisas abandonadas… (risos) As pessoas não parecem fazer a si mesmas este gênero de questionamento. A Montanha Mágica foi escrita, por Mann, assim como Luz de Agosto, por Faulkner, a fim de responder questões muito altas de angústia. Como as pessoas não pensam em significados mais profundos, mas sim num bom emprego, elas querem algo mais simples. Então, talvez livros assim não tenham o que fazer nas cabeceiras. Mas o livro da Lya Luft tem. O medo da morte é substituído por como é que eu faço para perder o medo do dentista.

Sul21 – Lya Luft escrevia romances. Depois ela passou a escrever crônicas e agora ela está na auto-ajuda.

Fernando Monteiro – Pois é, ela deslizou para a auto-ajuda sob as bençãos da Record. A Record ficou felicíssima. Ela teve uma síncope num programa de televisão. Tentou se retirar enquanto as pessoas a questionavam por escrever auto-ajuda. E ela disse no ar “Mas meu livro não é de auto-ajuda!!!†e foi embora. Mas é. O jornalista estava chamando de auto-ajuda o que era auto-ajuda.

Sul21 – Tu chegaste a manter contato com a literatura dela?

Fernando Monteiro – Eu olhei, mas é aquilo. Se você não tem o hábito… Ela é uma escritora de talento perdido, lançado às moscas, sob a benção da editora.

Sul21 – O que tu achas do João Gilberto Noll?

Fernando Monteiro – Ah, é ótimo, embora realize uma literatura um pouco pessoal demais. Na literatura você trabalha sempre com a sua vida, você não vai falar daquilo que não conhece, mas o Noll está ou esteve enredado num material muito autobiográfico. Me parece que está meio afastado, o que é ótimo, porque assim ele terá tempo para recriar-se, porque os últimos livros dele estavam saindo com sinais muito próximos da insistência, estava se tornando repetitivo. Acho que ele precisa de tempo.

Sul21 – Dizem que os pernambucanos são os gaúchos do nordeste. Assim como nós, os pernambucanos se acham (risos), cultuam tradições, etc. Tu utilizaste num livro a expressão “mitologias de emergênciaâ€, pra caracterizar o que faz o Suassuna em Pernambuco e o MTG no Rio Grande do Sul.

Fernando Monteiro – Bem, eu usei a expressão com absoluta segurança para o Ariano Suassuna, mas não sei se vocês poderiam usar para o MTG, porque vocês fazem uma coisa diferente, embora também com ranço conservador. O MTG quer conservar suas manifestações no âmbito do Rio Grande do Sul e dos gaúchos. O Ariano não, ele tem isso como um modelo brasileiro. A diferença grave, para o caso do Suassuna, é essa. Vocês querem conservar para que o próprio Rio Grande do Sul não perca o contato com o passado, mesmo com uma boa dose de ficção e de insularidade. Quando eu estive aí, vi que o Rio Grande do Sul vive em grande parte olhando apenas para si.

"O Suassuna é muito ambicioso. Ele pretende que a cultura brasileira abrace suas causas, ele argumenta com grande competência e sem razão".

Sul21 – Tu disseste “insularidade”.

Fernando Monteiro – Eu, como pernambucano, sinto essa insularidade. Você sente aí no extremo sul uma coisa autocentrada, o que é de certa forma interessante, porque vocês leem seus próprios autores, vão à livraria e conferem a produção de vocês. Mas aqui, o Ariano é muito mais grave, porque ele quer ter um programa estético para o Brasil, daí a “mitologia de emergênciaâ€. E é mitologia de emergência porque nós não temos mitologia. Nós não temos uma civilização como a inca ou a asteca na retaguarda. Então eu costumo dizer que o Brasil tem a alma em branco. A Europa não tem uma alma em branco, tem um passado que nós herdamos, em parte. Acontece que Ariano Suassuna gostaria de aplicar a mitologia de emergência no lugar dessa alma. Ele tenta criar o que seria uma cultura utópica brasileira. Seria uma cultura de origem sertaneja, uma coisa sobre a qual ele trabalhou literariamente, criando o movimento Armorial e outras coisas… E isso, visto de longe, é um pouco semelhante ao que vocês fazem aí. Mas é necessário reconhecer, que isso no Rio Grande do Sul é uma coisa para o próprio Rio Grande do Sul, enquanto o Suassuna é muito mais ambicioso. Ele pretende que a cultura brasileira abrace suas causas, ele argumenta com grande competência e sem razão.

Sul21 – Ele também é uma estrela da mídia.

Fernando Monteiro – Exatamente. Mas isso veio tardiamente. Ele não se lançou na mídia. À diferença dos outros, desses jovens dos quais eu estava falando anteriormente e que vão em busca da mídia, o Ariano foi buscado pela mídia por suas opiniões, por suas manifestações. Ele criou o movimento Armorial, porque ele é um daqueles intelectuais que aspiram… Deixa eu contar uma história: eu convivi com ele ainda jovem, quando fui assistente do filme “A Compadecida†em 68. Eu tinha 18 anos e convivia com Ariano. Desde aquela época, nós tínhamos longas discussões sobre isso, porque ele tentava me ensinar a respeito das coisas – eu era um garoto e ele é uma pessoa muito sedutora, muito engraçada, todo mundo ri, todo mundo acha graça e eu também. Me lembro de uma vez em que estávamos na casa dele e a gente falava de arte moderna, coisa que ele recusa. Ele tentava me explicar algumas coisas que não passavam pelo filtro dele. Por exemplo, sobre o Boi de Picasso, que remonta ao Boi de Altamira, mas que é um avanço, ele dizia: (imita a voz de Ariano) “Não Fernando, não é não um avanço, vou lhe mostrar…â€. Aí ele voltava com um livro e dizia: “Olhe, repare esse boi aqui, não é melhor que o de Picasso?†Era o Boi de Altamira… E eu dizia: “Realmente, é muito bom. Claro que esse boi que tu estás me mostrando é admirabilíssimo, da idade da pedra, mostrando o boi em movimento e coisa e tal. Mas desde então, Ariano, muita coisa aconteceu. Houve um avanço enorme desde a idade da pedra, Arianoâ€. E ele dizia: “Não, eu gosto muito mais desse boiâ€. E, só pra constar, eu estava com meus 18 anos e ele com 40 e poucos e nós já tínhamos essas discussões amigáveis. Hoje eu não sei, acho que não teria a mesma atitude amigável para a coisa programática da cabeça dele, para a cultura brasileira que ele propõe. Eu acho isso muito perigoso, pois se aproxima de um fascismo, um tipo de fascismo que vem na contramão de tudo.

Sul21 – Não seria bom ter a “alma em branco†para projetar um futuro?

O boi da discórdia: Imagem da caverna de Altamira

Fernando Monteiro – Mas é claro! Quando tudo esta conectado com tudo, aí é que vem a importância de ter a tal da alma em branco. O que é que caracteriza isso? A capacidade para compreender o outro. É impressionante no Brasil, como as pessoas estão atualizadas com o que está acontecendo lá fora. Quer dizer, o brasileiro pode adquirir culturas, várias. E essa é a vantagem da alma em branco, porque as vezes o fato de você ter uma vasta cultura comum não deixa de ser um obstáculo. Quer dizer, se você viver na Inglaterra, há Shakespeare mas há também a família real. Agora, essa disponibilidade de compreender o outro nos torna estratégicos nesse terceiro milênio. O Brasil é um país de pessoas com percepções muito rápidas, exatamente por estarem livres e conectadas de alguma maneira. Honestamente, vejo isso como uma vantagem. Não quero remontar a velha imagem do país do futuro, mas, ao menos nesse quesito, o fato de não ter uma cultura antiga que nos engesse é uma vantagem pra nós. Temos uma cultura europeia que nos foi deixada como herança, a cultura do índio e a cultura do afro. Dessas três influências é que nós fazemos a cultura brasileira. E o Ariano rejeita tudo isso. Ele, em sala de aula, dizia que era muito mais importante ler José de Alencar do que Joyce. Isso a alunos. É uma coisa de imensa irresponsabilidade passar para alunos esse tipo de ideário estético.

Sul21 – Sim, porque não se trata apenas de Joyce.

Bois de Picasso: sequência de 1 a 11

Fernando Monteiro – Trata-se de quase todo mundo! E ele diz que é muito mais importante ler Iracema do que ler Joyce, porque ele via seus alunos muito mais conectados com isso. E ele dizia: “Joyce é estrangeiro, não interessa. José de Alencar é muito mais importanteâ€. E, se na sala tiver um garoto inocente, fascinado pelos encantamentos do professor Ariano, ia atrás da conversa. Isso é grave e ele faz o tempo todo. Baseado nisso, ele criou o movimento Armorial, que é a estética de Ariano Suassuna em movimento. Ali, ele defende a coisa do sertão e rejeita a modernidade. Além de amar Alencar, ele não reconhece a obra do Tom Jobim, detesta a Bossa Nova, a tropicália. Ele chama o Chico Science de Francisco Ciência, ele não admite o inglês, o uso do inglês. Eu me lembro do Sérgio Buarque de Hollanda no prefácio de um livro de Jorge de Lima. Ele dizia que não via com simpatia os esforços em busca por essa identidade nacional, que nos fornecessem uma mitologia qualquer, mas Ariano é tão apressado que quer criar logo uma mitologia. E Sérgio dizia: “A cultura brasileira se formará muito mais da nossa indiferença do que do nosso esforço deliberadoâ€. O Ariano não concorda, rejeita. E aí você pode dizer: “Mas Fernando, você fica no pé do Arianoâ€, só que Ariano foi por oito anos Secretário da Cultura de Pernambuco. E do governo municipal também. E, como administrador oficial, ele só contemplou o que dizia respeito ao mundo estético dele. Eu não estou reclamando de nada subjetivo, nem de algo do campo puramente teórico. Eu estou reclamando de um administrador cultural que durante oito anos não deu seguimento ao Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, que é dos anos 40. E ele não editou livro algum que fosse de outra linhagem. Entendeu? Ele se voltou para a orquestra Romançal porque brigou com um maestro da orquestra Armorial. Sempre incentivou as coisas do seu programa estético e isso está errado do ponto de vista da administração da cultura. Ele não queria — e não aconteceu — o Salão de Artes Plástícas porque provavelmente não tinha o Boi de Altamira (risos) e sim a arte contemporânea da qual não gosta. Mas…

Sul21 – Ele é admirado.

"“Houve um avanço enorme desde a idade da pedra, Arianoâ€.

Fernando Monteiro – Sim, apesar disso tudo, todo mundo gosta de Ariano. Claro, ele é muito simpático, muito sorridente, está sempre contando piada. Ele vai no Jô e o Jô dá risada dele. Só que Ariano a quatro mil quilômetros de distância e não sendo secretário de cultura é muito fácil de se gostar. Mas com ele como secretário e você como um artista de outra “linhagemâ€, como ele costuma dizer, você não tem vez de trabalhar com o Estado. Isso é terrível. Ele é um coronel da cultura.

Sul21 – Há outros “gurus” por aí?

Fernando Monteiro – Quando Luciana Villas-Boas diz na revista da Livraria Cultura que os jovens autores não devem escrever nem contos nem poesias, mas romances, é uma fatia dessa mesma coisa de adequar-se ao espetáculo, do que aquilo que interessa é a exposição, a mesmice. O motivo é simplesmente que “não vende†e não vendendo o autor fica com o estigma de afastar público. À princípio a gente não percebe o tamanho deste absurdo porque tendemos a respeitar uma pessoa que trabalha há 20 anos como uma das maiores editoras do país. Porém, sem o conto, não teríamos João Antônio.

Sul21 — Nem Dalton Trevisan, Rubem Fonseca…

Fernando Monteiro – Sim. Acho que o problema de não vender contos é um problema do editor. Quem acaba vendendo são os de comportamento espetacular, como o poeta Fabrício Carpinejar e outros, que se curvaram às necessidades do mercado, agindo como artistas de pop-rock. É o artista expondo a si próprio como espetáculo. O Carpinejar fez sua escolha. Não li seus livros mais recentes, mas era um bom poeta.

Sul21 – Hoje não mais, mas você escreveu romances.

"O mercado parece não estar preparado para obras fora de seu padrão".

Fernando Monteiro – Sim, ainda sou convidado para debater romances e para escrevê-los, além de andar na companhia de romancistas, muitos dos quais são meros reflexos do mercado. Abandonei o romance por várias razões, mas a principal é a de que o mercado parece não estar preparado para o que inquieta, para as obras fora de seu padrão, que era o que eu produzia. A nova forma de pensar acha que o leitor incomodado ou inquietado desistirá ou não recomendará o livro. Eu ajo como kamikaze e digo que não tenho interesse em ser lido pelo leitor médio brasileiro, não quero nem que ele goste! Eu peço educadamente a este senhor e a esta senhora, que vêm indicados pela Veja, que não me leiam. Esse leitor médio, que as grandes editoras como a Record, a Rocco e a Cia das Letras procuram satisfazer, não me interessa. Eu fui dizer isso num encontro literário nacional e um autor muito conhecido se indignou. É notável como os grandes editores parecem desinteressados em editar qualidade como a ex-editora Globo fez em Porto Alegre nos anos 50 e 60 com excelentes resultados mercadológicos. Esta nobre função não seria também das editoras?

Sul21 – E a poesia?

Fernando Monteiro – Eu voltei para a poesia porque ela está abandonada, deixada no esquecimento. Ela não é objeto de nenhuma sanha, de nenhum apetite, então está em paz. Eu voltei para ela desde a publicação de Vi uma foto de Anna Akhmátova. Nenhuma grande editora publicaria aquele poema longo de cento e tantas páginas. É um formato no qual eu ainda acredito, apesar da crise da poesia que, na verdade, é a crise do leitor da poesia, o qual não está mais acostumado a decifrá-la. É o leitor como consumidor é quem passou a regular bisonhamente o mercado, pois não se abrem caminhos novos, é sempre mais do mesmo.

Sul21 – São livros que apenas avalizam o senso comum do leitor?

Fernando Monteiro – Exato. Eles vão ao encontro do leitor. Este não quer surpresas e muito menos pensar muito. Desde os livros de vampiros – que são entretenimento vagabundo – até o livro aparentemente profundo, mas que na verdade são uma diluição semelhante a grande parte do cinema de Woody Allen. Allen não me engana nas suas aparentes profundidades psicológicas mal imitadas de Bergman. Foi excelente comediante, apenas. Outros cineastas empenhados de outra forma, como Angelopoulos, não tem a menor facilidade de produção. Woody Allen fabrica produtos análogos ao do escritor que desenvolve produtos ao encontro do que o leitor e o expectador deseja.

Sul21 – Allen tornou-se ultimamente turístico, há odes à Barcelona, Paris, Londres.

Fernando Monteiro – Sim, o financiamento dos filmes por parte destas cidades já é um desdobramento natural de um produto que é voltado para o bem estar. Para onde ele vai agora? Sugiro Beirute, Trípoli, mas não, antes ele acabará no Rio de Janeiro.

Sul21 – Falar mal de Woody Allen gera problemas com grande parte das pessoas, não?

Fernando Monteiro – É mais ou menos como falar mal do Corinthians. Os admiradores de Allen não suportam a ideia de que ele se apropriou das características menos inquietantes do cinema moderno para criar um produto que varia muito pouco de um ano para outro. Um Fellini, um Visconti, um Antonioni que viesse expor suas angústias seriam rejeitados. Eles não encontrariam os produtores que encontraram nos anos 50 e 60.

Comentários (10)
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Comentário de: flávio | 28 de agosto de 2011 | 13:18

Super interessante, embora não concorde com tudo.

Comentário de: Geraldo Hasse | 28 de agosto de 2011 | 13:24

Milton Ribeiro e Fernando Monteiro, excelente ping-pong.

Comentário de: charlles campos | 28 de agosto de 2011 | 14:45

Gostei muito da entrevista, mas faço sérias ressalvas. Primeiro, vou nos pontos que concordo com o Fernando: a literatura atual brasileira é um lixo. Fiz uma crítica ameníssima em meu blog ao Daniel Galera, e apareceu comentaristas fulos da vida dizendo quem eu era pra falar aquelas sandícies sobre um autor tão profundo e magnânimo. Fernando acerta precisamente onde eu aponto os defeitos e impropriedade da produção ficcional contemporânea brasileira: os autores estão afundados numa estúpida estética “pop-rock†(essa é a palavra, creio ter usado uma variação muito próxima em minha meia-resenha), uma literatura que o mercado escolheu como alvo o universo adolescente, e os autores com menos de 40 anos (para qualquer padrão de qualidade internacional já seriam escritores maduros, mas para o Brasil, autores “jovensâ€) se adaptam a produzir para esse nicho. Daí Galera, Terron, Xerxenesky e vizinhanças. Isso não é literatura, mas revistas de tendências editoriadas no formato de livros, sempre com o mínimo de páginas possível e uma capa descolada para não assustar. Livros feitos para pessoas que não gostam de ler. O que o Fernando bem aponta: antes de se ser um escritor, deve-se ser um leitor profissional.

Acho as mesmas coisas sobre o Bernardo de Carvalho, pra mim o melhor escritor nacional dessa “nova geraçãoâ€, vamos dizer assim. Gostava muito do Noll, como já tive oportunidade de dizer aqui antes, mas, novamente, divido a mesm impressão dita pelo Fernando: ele se tornou idiossincrático demais, repetitivo. Há muito que torço para que desponte de um vez com sua grande obra, coisa que está demorando.

Suassuna dizer que José de Alencar é mais importante que Joyce. Que dizer disso? A social-democracia do gosto? Não só comete a estupidez de se mostrar o quanto é limitado nas leituras, como retira o Alencar de sua posição confortavelmente mediana no cânone das letras atuais e o afunda no relativismo fatal diante um dos maiores criadores dos últimos cem anos.

Minhas discordâncias: não vejo a literatura atual em crise, sem bons escritores. Há muitos bons autores vivos ou recém falecidos que fazem a escrita mundial sensacional. Poderia citar muitos aqui, vinte nomes vamos dizer, mas para não ficar chato, cito um grupo específico, a tríade de romancistas de lingua espanhola que despontou nessa última década: Javier Marías, Enrique Vila-Matas e Roberto Bolaño (esse último, o entrevistado se esquivou de comentar). A literatura está em alta, o que vemos pela repercussão na internet.

Segundo: por mais que eu próprio tenha desprezado Liberdade, Franzen está longe de ser um autor medíocre. Penso que as próximas produções dele tem muita chance de progredirem para o rumo certo. As Correções está entre os melhores dez livros dos últimos 20 anos. E quando Fernando diz que “aquele choro todo só pelo choro†nas páginas de Franzen, demonstra que talvez ele não tenha lido bem o americano, o fze de mal a mal apenas as piores partes de Liberdade. Quase não há drama algum nos livros de Franzen, mesmo em As Correções. As partes trágicas se suportam em bases picarescas ou propositadamente cheias da amenidade da classe media norte-americana para passarem essa sensação chorosa que Fernando alude. E choro em Liberdade só ocorre, em um romance de 600 páginas, em três páginas no desenlace da trama.

Por final: ele desmerece Nélida Piñon ao não citar seu nome, assim como outros, que são mais substanciais do que os nomes citados.

Mas essas são só observações pessoais. Achei ótima a entrevista e vou atrás dos livros do entrevistado.

Abraço.

Comentário de: Felipe X | 28 de agosto de 2011 | 17:56

Pena o titulo ser a referencia a Veja, pois foi apenas um pequeno comentario de uma entrevista muito mais interessante do que essa birra boba. Sem falar que eh engracado um site que faz o extremo oposto da Veja critica-la tanto asism.

Comentário de: Oswald | 29 de agosto de 2011 | 9:57

Perde cuidado, não vou te ler…

Comentário de: valter ferraz | 29 de agosto de 2011 | 18:19

O chamariz citando a revista amada/odiada foi uma coisa “experta”. Surtiu o efeito desejado, pois até eu cuidadoso com minhas leituras caí aqui.
Gosto/não gosto não pode ser utilizado como a palavra final. Se o entrevistado é uma sumidade que faça bom proveito, se tem uma idiossincrasia qualquer com Suassuna, problema pessoal dele. Ninguém é dono da verdade. Nem eu, claro. Só concordo numa coisa: devemos ler mais. Somos todos escritores.Escritores demais e leitores de menos.

Comentário de: Walker Lima | 29 de agosto de 2011 | 22:51

Fernando, se da sua literatura você fizesse medicina, seria um cirurgião robótico, pela precisão dos argumentos, não em meias palavras mas de pavio curto. É bem verdade que o bom emprego; o pop-rock e a autoajuda galopam na multidão que prefere pensar com a barriga. É preciso ter coragem para falar da verdade com independência, e isto é sua lâmina mais afiada, falar do MTG; Lya; Ariano; Veja, e até mesmo lançar um comparativo com o ilustre médico Scliar, é necessário ter aquilo rôxo especialmente quando se pronuncia o nome de Allen e palavras perfuro-cortantes como fascismo e “coronel da cultura”. Afora as referências ao mercado editorial e sua co-responsabilidade. Tudo feito, não sem razão.

Pingback de: Por uma desmitificação do pensamento filosófico | 12 de outubro de 2011 | 14:06

[...] de Suassuna, por exemplo, quando afirma-se que o seu projeto é ingênuo, ou até mesmo que beira o fascismo, que procuremos entendê-las e aproveitar o que há de ser aproveitado nelas. Sabemos, por exemplo, [...]

Comentário de: Miriam Maria da Silva | 27 de janeiro de 2012 | 14:13

Gostei muito do bate papo, alguem poderia me fornecer um contato de Fernando Monteiro? Telefone ou email.. preciso falar com ele com urgência! Desde já, obrigado!

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