PolÃtica
Hildebrando Pontes: “Direito de autor não é matéria para amadorâ€

Hildebrando revela ter sido convidado para trabalhar no MinC: "Deixei claro que não seria uma boa escolha" (Foto: Museu do Clube da Esquina)
Felipe Prestes
Nas últimas semanas, o advogado Hildebrando Pontes se tornou um dos alvos preferenciais dos que criticam a atuação da ministra da Cultura, Ana de Hollanda, e defendem a reforma da Lei de Direitos Autorais. Pontes, que advoga para o ECAD em Minas Gerais, além de escrever e lecionar sobre direito autoral, seria, para os crÃticos, responsável direto pela indicação de Márcia Regina Barbosa, nova diretora de Direitos Intelectuais do Ministério da Cultura, e ligado demais ao ECAD, o que seria mais um indÃcio de uma guinada no entendimento do ministério quanto aos direitos autorais.
A verdade é que Pontes pode ter mesmo influência no órgão. Ele nega que tenha indicado Márcia Regina, mas revela que ele mesmo fora sondado pessoalmente pela ministra Ana de Hollanda para assumir o órgão. O próprio Hildebrando julgou que não seria prudente aceitar o convite. “Deixei claro que não seria uma boa escolha, porque ficaria estigmatizado como advogado do ECADâ€, conta.
Pontes critica o modo como a discussão vinha sendo conduzida, tanto por ativistas que defendem a reforma da LDA, quanto pela gestão anterior do MinC. “Fui atacado, chamado de dinossauro. Essa discussão precisa ser feita com muita seriedadeâ€, diz sobre internautas que debatem o tema, e aproveita para alfinetá-los. “Direito de autor não é matéria para amador. O assunto tem que ser discutido por quem conhece a matéria. Para dar pitaco em blog tem muitosâ€.
Quanto ao ministério, Pontes conta que foi convidado pela gestão anterior para opinar sobre treze artigos da reforma. O restante do projeto não lhe deixaram ver. O advogado se recusou a comentar apenas parte do projeto sem saber o que poderia estar referendando indiretamente. “Perguntei pela Ãntegra do projeto e disseram que havia ordens para não revelá-lo. O projeto é um sistema, tem inÃcio, meio e fim. Discutir assim não é democráticoâ€. Além disso, o advogado diz ter a informação de que o projeto enviado pela gestão anterior seria diferente da que fora apresentada, ou seja, uma versão totalmente desconhecida.
Hildebrando Pontes também considera antidemocráticas as crÃticas pela indicação de Márcia Regina Barbosa. “Porque é que uma ministra que está entrando agora não tem o direito de montar a sua equipe?â€, questiona.
Leia também: Discussão sobre direitos autorais coloca ministra da Cultura em xeque
“O ECAD deve ser aperfeiçoadoâ€
Hildebrando Pontes não é se mostra contra mudanças no ECAD. Ele reconhece que a instituição tem problemas. A maior preocupação do advogado é de que a estrutura de cobrança dos direitos autorais — que ele frisa ter começado a ser montada em 1916, com a criação da primeira associação com esta finalidade — não seja desmontada, e com crÃticas que ele considera exageradas. “A classe musical tem todo o direito de criticar, mas não se pode destruir essa construção. (O ECAD) não pode ser algo que você não pode dizer na sala de sua casa que trabalha para eleâ€, diz.
Para o advogado, o ECAD tem “dificuldadesâ€, precisa ser aperfeiçoado. Pontes diz que, à primeira vista, considerou “boa†a proposta dos músicos que apresentam uma terceira via. “A proposta parece boa, tem que ser discutidaâ€.
Hildebrando dispara contra os parlamentares, e aponta o que pode causar uma suposta “perseguição†ao ECAD. Ele afirma que 50% do setor de radiodifusão é inadimplente com o escritório de arrecadação, e que este setor é controlado por parlamentares. “Quem domina a radiodifusão no paÃs é o Parlamentoâ€, diz. Uma das evidências seria uma Ação de Inconstitucionalidade que fora proposta pelo Partido Social Trabalhista (PST), em 1999, questionando o monopólio da entidade.
“Acho Creative Commons de uma pobreza totalâ€
Hildebrando Pontes afirma que a ministra Ana de Hollanda acertou ao retirar o selo da licença Creative Commons (CC) do site do MinC – o que causou celeuma na internet. “O site é de uma instituição pública, não tem que ter licença. O ministério não produz conteúdo, é para fomentar a produção de conteúdoâ€.
Pontes afirma que respeita quem acha a licença CC uma boa alternativa, mas ele não tem a mesma opinião. “Existe um grupo de pessoas que acha interessante esse sistema. É um ponto de vista que respeito, mas acho de uma pobreza totalâ€, diz.
Hildebrando critica também a forma como o conteúdo tem sido produzido e difundido na internet atualmente. Para ele, isso tem beneficiado apenas grandes empresas de internet. “O Google pagou R$ 1,6 bi pelo Youtube. Quem recebeu esse dinheiro? Dois proprietários. Quem colocou o conteúdo ali não recebeu nadaâ€. O advogado acredita ainda que, para um futuro próximo, a tendência é que os conteúdos sejam liberados pelos autores na internet, a preços módicos.
Comentários (3)
» Deixe seu comentário[...] ser corrigida com a ajuda da tecnologia. Uma visão que vem a calhar nesses tempos de reforma e contra-reforma da Lei dos Direitos [...]
VEJA A PILANTRAGEM ATÉ QUE PONTO CHEGOU, ESTE ADVOGADO SUPER INTERESSADO NOS ASSUNTO DO ECAD, PORQUE NA VERDADE ELE NÃO VÊ O INTERESSE DOS VERDADEIROS DONOS DA MUSICA, ESTES FICAM EM SEGUNDO PLANO, POIS O TAL ECAD SE TORNA O PATRONO DE TODAS AS ARTES,
DESTA FORMA ITIMIDA OS USUARIOS A EFETUAR O PAGAMENTO DOS DIREITOS AUTORAIS
ATÉ QUE NA VERDADE ESTà CORRETO, SÕ QUE ELES AGEM DE UMA OUTRA FORMA, EM NOME DOS AUTORES ELES ESTÃO CADA VEZ AUMENTANDO SUAS GORDAS CONTAS BANCARIA, ENQUANTO ISTO O COITADO DO COMPOSITOR QUE FAIS SUAS OBRAS TRABALHAM EM CIMA DAS MESMAS SÃO DESCLASSIFICADOS E O TAL ECAD DIZ QUE EXISTE MANIPULAÇÃO E POR ESTA RAZÃO DEIXA DE EFETUAR O PAGAMENTO QUE ASSIM É DE DIREITO, SE TORNA UMA VERDADEIRA ARAPUCA E SE APROPRIANDO DAQUILO QUE NÃO LHE PERTENCE, PORQUE NA VERDADE TODAS AS OBRAS QUE ELES DIZEM MANIPULAÇÃO ESTÃO DENTRO DO PROPRIO ECAD, ELES NÃO PAGAM OQ. ESTà REGISTRADO DENTRO DA SUA PROPRIA EMPRESA QUANTO MAIS NESTE CASO SE NÃO HA NEM UMA OBRA QUE NÃO ESTEJA FEITA A TAL INCLUSÃO.
Quando esse senhor diz que o assunto não é para amadores ele está querendo dizer que nem mesmo os principais interessados, os autores, podem opinar? Os “profissionais” são só os advogados? E ele, o advogado do ECAD seria o “super profissional”, especialiozado, professor do assunto e por isso, talvez, o único com autoridade para falar? Mas vejamos os seus argumentos, por exemplo, sobre o CC:
Pontes afirma que respeita quem acha a licença CC uma boa alternativa, mas ele não tem a mesma opinião. “Existe um grupo de pessoas que acha interessante esse sistema. É um ponto de vista que respeito, mas acho de uma pobreza totalâ€, diz.
Pois é, para mim, “pobreza total” é um argumento desse tipo. Não preciso ser profissional de direitos autorais para compreender que o senhor Pontes tem argumentos de uma pobreza total. Para ele e para os defensores do ECAD em geral vale o ditado popular que nos alerta para não deixar a raposa (o ECAD) tomando conta do galinheiro (o dinheiro dos autores, que o ECAD arrecada e não distribui. Repito: e não distribui, pois se o fizesse não teria ttanta resistência a abrir as suas contas e mostrar os números. Como eles podem distribuir o dinheiro arrecadado se eles nem sabem o repertório que foi tocado? Como eles podem arrecadar sobre direitos que não são deles?
Vai ter cara de pau assim no quinto dos infernos.
Penso que o Sul21 deveria fazer um contraponto, publicando, por exemplo, o texto do Jorge Furtado sobre o tema, que foi publicado no blog do Nassif (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-imoralidade-legal-do-ecad-nas-trilhas-de-filmes):
A imoralidade legal do ECAD nas trilhas de filmes
Enviado por luisnassif, seg, 14/03/2011 – 19:38
Por Jorge Furtado
Cobrança do ECAD por música no cinema é uma imoralidade legal.
O que há de comum entre os filmes “Os pássaros†(Alfred Hitchcock), “Onde os fracos não tem vez†(irmãos Cohen), “Pauline na praia” (Eric Rohmer), “Um dia de cão†(Sidney Lumet), “Dez”, de Abbas Kiarostami e “A Bruxa de Blair†(Daniel Myrick e Eduardo Sánchez) é que eles não têm música.
Pois acreditem: se qualquer um destes filmes for exibido em qualquer cinema brasileiro, o dono da sala tem que pagar ao ECAD – uma entidade privada – 2,5% do bruto da bilheteria. O dinheiro, supostamente arrecadado para pagar direitos autorais dos músicos inexistentes nestes filmes estrangeiros, sai do bolso do espectador e do dono da sala e vai direto para o ECAD. Este é um exemplo extremo do absurdo em vigor no paÃs, graças a uma lei bizarra nascida na ditadura militar e ratificada em 1998, possivelmente com as melhores intenções, por Fernando Henrique Cardoso e seu Ministro da Cultura, Francisco Wefort.
Quando uma produtora de cinema contrata um músico para fazer a trilha de um filme, ou compra fonogramas ou direitos autorais de uma música já existente, paga aos músicos, aos autores e proprietários dos direitos musicais ou fonográficos, o valor por eles estipulado. Os contratos prevêem a exibição sincronizada da música com o filme, em várias mÃdias e suportes. Não há justificativa razoável para que apenas os músicos – e não o diretor do filme, o autor do roteiro, o produtor, os atores, fotógrafo, montador, cenógrafos, figurinistas, maquiadores – voltem a receber qualquer pagamento na exibição do filme, sob o pretexto de pagamento de direitos autorais.
Mesmo que a cobrança da taxa do ECAD sobre os ingressos de cinema fosse eticamente aceitável, não é possÃvel que este dinheiro vá parar nas mãos de algum músico autor ou intérprete da trilha do filme, pelo simples fato de que o ECAD não tem a mÃnima idéia de quem são os autores das trilhas, se é que o filme tem alguma trilha.
Para onde vai o dinheiro que o ECAD arrecada por ano no achaque legalizado aos espectadores (que pagam ingressos cada vez mais caros) e aos proprietários das salas de cinema (que enfrentam todas as dificuldades do mundo para manterem seus negócios), é segredo não revelado pelo site da entidade, mas o valor desta pilhagem amparada em lei pode ser calculado. A Ancine (Agência Nacional de Cinema) divulgou os dados parciais de 2010, foram 136 milhões de ingressos de cinema vendidos no paÃs, com faturamento bruto de 1,3 bilhão de reais. Se não me falha a calculadora, 2,5% disso dá 32 milhões e 500 mil reais.
Filmes são criações coletivas. Os defensores do sistema cartorial do ECAD – uma entidade privada – alegam que falta aos diretores, autores, montadores, atores, organizarem-se para pleitear sua parte do butim. É um argumento que transforma em lema o sarcasmo da frase do Millôr: “Se é para locupletar-se, então que nos locupletemos todosâ€. Se a tese fosse levada a sério, a atividade de exibição pública de filmes no Brasil seria extinta.
É mais do que justo que os compositores recebam direitos autorais pela execução de suas músicas no rádio, em shows ou mesmo em salões de baile que cobram ingressos (onde as pessoas vão para dançar e ouvir música), mas a lei em vigor, que obriga os espectadores e os proprietários das salas de cinema a entregar seu dinheiro a uma entidade privada que não presta contas a ninguém é uma excrescência jurÃdica, que se mantém de pé graças ao lobby das grandes gravadoras, ao exército de advogados do ECAD e a leniência, covardia, má intenção ou pura ignorância da sólida maioria dos nossos congressistas.
PELA TRANSPARÊNCIA TOTAL DAS CONTAS DO ECAD. PELO FIM IMEDIATO DO PAGAMENTO AO ECAD DA INDEFENSÃVEL E IMORAL TAXA SOBRE OS INGRESSOS DE CINEMA.
http://www.casacinepoa.com.br/o-blog/jorge-furtado/cobran%C3%A7-do-ecad-…
Ou então o texto do Pablo Ortellado e do Allan Rocha de Souza, publicado no Cultura e Mercado (http://www.culturaemercado.com.br/conversacao/pontos-de-vista/neste-carnaval-minc-veste-a-fantasia-errada/ )e que mostra o tipo de profissionais que operam e defendem o ECAD:
Neste Carnaval, MinC veste a fantasia errada!
Pablo Ortellado | quinta-feira, 10 março 201110 Comentários
Nesta terça-feira gorda, a Ministra da Cultura deu depoimento ao O Globo no qual tentava justificar o abandono do anteprojeto de reforma da lei de Direitos Autorais que tem em mãos. Como de outras vezes, as razões são vagas e românticas, nos remetendo a carnavais passados, mas que continuam a nos assombrar.
Na matéria, afirmava que “A insatisfação estava muito grande. O que estava no site (do MinC) teve cerca de 70% de avaliações negativas. Não posso endossar uma polÃtica que ninguém conheceu. Foi um trabalho feito e temos que ouvir melhor. Porque tem muitos questionamentos sobre o assunto. Eu não vou endossar uma proposta em que não haja um mÃnimo de consenso.â€
É, porém, mais uma avaliação equivocada desta incontrolável administração, pois uma leitura mais isenta, ainda que rápida, do conjunto de contribuições ao anteprojeto disponibilizado para consulta pública traz outra fotografia.
Sem adentrar no exame qualitativo das contribuições, para começar, basta selecionar os cinco maiores participantes individuais e chegamos a incrÃveis 652 contribuições, 644 discordando da proposta e apenas 08 concordando, sendo responsáveis por 8,29 % das 7.863 contribuições feitas diretamente na plataforma.
E, ainda mais interessante, certas frases eram repetidas ao infinito por estas pessoas. O vencedor, por exemplo, em 165 das 172 contribuições, opôs à sua justificativa que “apenas o autor poderá mudar o que já está consolidadoâ€. O segundo, mais sucinto, repetiu em suas 153 contribuições que “só o autor poderá mudarâ€.
O terceiro afirmou em suas 119 contribuições que “a obra dos autores é bem protegida pela lei atualâ€. E o próximo, mais prolixo, disse, em 103 das 112 vezes, que “concorda com a lei atualâ€, em 05 vezes que “a lei atual não necessita de revisão†e em 04 ocasiões que “a lei atual não carece de reformaâ€.
E isto não é o mais revelador. Uma análise inicial quantitativa indica 339 (4,31%) aportes diretamente dos computadores do ECAD, realizados por 70 pessoas diferentes. A Abramus, associação lÃder no ECAD, por sua vez, contribuiu 231 vezes (2,94%). A Abramus discordou sempre, enquanto o ECAD em 98,52% das vezes.
Somando apenas estes dois grupos, que não se sobrepõem, chegamos a 15,54% das contribuições. Tudo indica que o ECAD mobilizou dezenas de pessoas – talvez funcionários – para atacar diretamente a reforma.
E mais ainda, um provedor vinculado a um diretor das associações componentes do sistema ECAD comportou 47 contribuições, todas discordando da reforma. Ao mesmo tempo, outro provedor apresenta-se com 263 contribuições discordantes e uma solitária concordância. Acrescentando mais 3,95% de discordâncias.
São 11,2% de quatro organizações, sendo três comprovadamente vinculadas ao ECAD. Aos quais se somam os 8,29% dos cinco indivÃduos insatisfeitos, mas com idêntica retórica. Juntos, chegam a praticamente um quinto das contribuições (19,49%).
Seguramente uma análise mais detida de outras contribuições em massa, sempre negativas à reforma e vindas dos mesmos endereços IP (que identificam pontos de acesso à Internet) aumentariam esses números para percentuais ainda mais altos.
Está claro que setores insatisfeitos com a reforma tentaram sabotar o processo, contribuindo, de maneira orquestrada, para dar a entender que a reforma incomodava muita gente e não apenas alguns poucos privilegiados pelas distorções do sistema atual. É impossÃvel não notar que o ECAD é o insatisfeito, o interessado em interromper a reforma da lei de direitos autorais vigente (9.610/98), que, nas interpretações propostas por este mesmo grupo, é ofensiva ao equilÃbrio, à razoabilidade, à ponderação e ao próprio ordenamento jurÃdico.
O que a fala da Ministra expõe são os vÃcios de um grupo enfatuado com os privilégios e excepcionalidades incrustados no sistema de gestão coletiva, que age contra os interesses de muitos artistas, associações, empresas e cidadãos. Atestam essa proximidade as manifestações ministeriais alinhadas ao ECAD, ainda antes da nomeação, a reunião privilegiada em seu gabinete com um dos principais advogados do ECAD, Hidelbrando Pontes, a nomeação para a Diretoria de Direitos Intelectuais de uma integrante visceral do Conselho Nacional de Direito Autoral, então comandada por este advogado, com o qual escreveu inclusive artigo publicado.
E se torna cada vez mais difÃcil desvincular a Ministra Ana de Hollanda, sua equipe e seu suporte polÃtico dos desejos e meios ilegÃtimos do ECAD e sua corte, talvez os maiores opositores locais à liberdade, cidadania, democracia e inclusão culturais.
A continuidade deste processo de retrocesso no Ministério da Cultura representará a maior fraude eleitoral do governo Dilma até o momento. A ver!
* Allan Rocha de Souza, Coordenador do Curso de Direito da UFRRJ/ITR, Professor e Pesquisador de Direitos Autorais do PPED/UFRJ.
** Pablo Ortellado, Professor e Pesquisador do curso de Gestão de PolÃticas Públicas e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais da EACH-USP.