Política

Beto Grill afirma que aproximação das esquerdas é tendência para eleições municipais

Bruno Alencastro/Sul21

Foto: Bruno Alencastro/Sul21

Rachel Duarte

Cumprindo agendas de reuniões e entrevistas à imprensa desde que foi eleito no primeiro turno, o vice-governador eleito no Rio Grande do Sul, Beto Grill (PSB) reservou um tempo para conversar com o Sul21. Ele recebeu a equipe no mesmo local em que conversou durante a campanha: o comitê estadual do PSB, no Centro de Porto Alegre. Alegando que a última entrevista ao Sul21 deu sorte, Beto Grill projetou um governo exitoso ao lado de Tarso Genro (PT) e agradeceu o voto dos gaúchos. Ele avaliou o crescimento do partido nestas eleições, defendeu seu protagonismo como vice e disse estar confiante nas negociações para atrair o PDT e o PTB para o governo Tarso.

Sul21 – Qual a sua avaliação desta eleição para o PSB e para a coligação Unidade Popular pelo Rio Grande?

Beto Grill (BG) – O PSB tanto no âmbito estadual quanto nacional teve resultados muito favoráveis nesta eleição. Aqui no RS, conseguimos triplicar nossa bancada federal e aumentamos mais uma cadeira na Assembleia Legislativa, junto com os dois que nós já tínhamos que conseguimos também manter. Atribuímos este feito a diversas questões. A primeira foi o protagonismo do deputado Beto Albuquerque durante um ano defendendo uma candidatura alternativa para o governo do estado, foi o primeiro fator a alavancar os bons resultados que tivemos. Outro fator, que também levou crescer a nossa nominata foi a aliança que fizemos com o PCdoB na proporcional, que nos possibilitou o nosso partido aumentar o número de deputados estaduais e federais. E a terceira questão é o contexto da aliança majoritária, Unidade Popular pelo Rio Grande, que sintonizou efetivamente com os anseios da população gaúcha. Tanto que pela primeira vez desde que foram instituídos os dois turnos, um candidato se elegeu no primeiro turno. Temos ai o governador eleito Tarso Genro que está pronto para começar um trabalho novo pelo Rio Grande. Então, todos estes fatores nos levaram a atingir este resultado positivo no estado e refletiu em todo o país. Fomos o partido que mais cresceu em percentual no número de deputados federais. Elegemos três governadores e temos a possibilidade de eleger mais três no segundo turno. Mesmo ficando com os números atuais já nos tormos o quinto maior partido no Brasil. E podemos nos tornar o terceiro caso mude o cenário no segundo turno. Então vamos aproveitar esse cenário favorável para nos fortalecer ainda mais para disputar as próximas eleições municipais.

Sul21 – O PSB se igualou ao PT no número de governadores por estado?

BG- O PT elegeu quatro e pode aumentar para sete, assim como o PSDB que também pode aumentar. Mas, dependendo do resultado do segundo turno, eles podem tirar o lugar um dos outros e nós ficarmos com a maioria dos governos estaduais no país. Mas de qualquer maneira, já estamos muito satisfeitos. E a história nos aponta com uma condição muito boa nas próximas disputas eleitorais.

Sul21 – Já aconteceram as conversas para demarcar espaço nas próximas eleições municipais? A coligação para esta eleição foi convencionada a algum acordo?

BG – Essa é outra situação muito favorável para o PSB. Quando nós construímos esta aliança, ficou bem definido que ela não deveria ser formada apenas para esta disputa eleitoral. Foi uma combinação que possibilitasse nosso entendimento também em outras contendas políticas. Que se tornasse um processo mais permanente de aproximação das esquerdas, no sentindo de u projeto a médio e longo prazo. Não existe nenhuma preliminar em relação a isso. Não se estabeleceu nenhum critério que pudesse dar vantagem para a próxima eleição, aqui em Porto Alegre, que é o mais importante. Todos os partidos da coligação começaram esta discussão buscando refazer e manter esta unidade, sem protagonismo para um ou outro partido. Vamos sentar todos, com igualdades de condições, podendo tirar o candidato do PSB, do PT ou do PCdoB ou até mesmo de outro partido de fora da coligação. A aliança mais satisfatória dentro do quadro de disputa será o melhor. Não existe partido favorito, nem nome. Todos irão sentar à mesa e discutir a melhor chapa para retornarmos ao governo da capital.

Sul21 – Quais as chances de a deputada federal Manuela D´Ãvila (PCdoB) e do deputado federal Beto Albuquerque (PSB) nesta disputa? Ambos fizeram uma boa votação, são quadros qualificados e integram a mesma coligação, é possível que surja algum conflito interno?

BG- Todos nós estamos credenciados. Se o contexto apontar o Beto como melhor, ele estará legitimado pelas urnas. Se for apontado que o melhor é a Manuela, será a legitimada a Manuela. O mesmo para se o contexto apontar um candidato dos outros partidos ou do PT. Então por isso que digo que todos estaremos em pé de igualdade. E, a montagem da chapa se dará em cima da nossa experiência com a esta eleição, com os nossos próximos dois anos de governo até a eleição, daí poderemos perceber o quadro e escolher o candidato para manter a unidade.

Sul21 – E como fica a relação com o PDT, uma vez que há possibilidade de ele compor o governo do estado? É declarado o interesse antes mesmo da votação pelo Tarso, e atualmente o PDT está com a prefeitura de Porto Alegre e certamente José Fortunati irá se candidatar a reeleição?

BG- Quanto mais interesses jogados na discussão, mais difícil se torna compor. Mas isso não irá diminuir em nada a nossa intenção de chegar a um denominador comum. Nós queremos o PDT do nosso lado. O Tarso tem dito isso e eu concordo plenamente. Respeitamos a decisão do partido, mas entendemos que ele tem muito mais a ver com a nossa coligação do que com a que ele se colocou. Então nós queremos buscar o PDT para que ele nos ajude a governar o estado. Sendo assim. O PDT também estará a mesa para fazer a discussão da prefeitura de Porto Alegre. Vamos examinar todos os prós e os contras para a composição ser definida e vamos tirar a nossa decisão.

Sul21 – O senhor falou em proximidade ideológica. Este é um critério para a composição do governo, pois o PTB, que também é do interesse da sua coligação, qual a proximidade que o PTB tem com os partidos de esquerda?

BG- Eu estou animado com esta possibilidade. Já estão avançando bem as conversações. E acho que será tranquilo e legitimo se o PTB estiver do nosso lado. Formaríamos então um bloco político com valores semelhantes. Todos somos partidos com visões sociais. Com este bloco governando o estado, teríamos mais proximidade durante o governo e uma relação mais próxima e de confiança e certamente isso ia desaguar na discussão sobre a prefeitura de Porto Alegre. Seria mais uma dificuldade para o debate e mais um desafio para enfrentarmos. Mas o que importa, é que não existe preconceito partidário ou preliminar. Nós zeramos a discussão da eleição ao governo do estado e vamos fazer uma nova conversa com este episódio da Prefeitura de Porto Alegre, para ver como mantermos a harmonia da nossa aliança e de que forma podemos ganhar a eleição. Disso sairá o nosso candidato, a nossa composição.

Sul21 – Os critérios para composição do governo estão ligados à formação da chapa para prefeitura de Porto Alegre ou o critério de qualificação técnica prevalecerá?

BG- Eu até aprofundaria este pensamento. Teve um momento na história da redemocratização, nas diretas já, que era fundamental definir projeto, definir campo. Mesmo se daqui a pouco isso fosse prejudicar um pouco o debate. Era preciso defender o que se pensava e confrontar um projeto com outro com valores completamente diferentes. Para legitimar a democracia que estava começando. Hoje o Brasil é um país com as suas instituições fortalecidas, um Congresso que tem estabilidade, um governo legitimado pelo voto, avançou. Todos sabem o que pensam os partidos, PT, PSB, DEM, PSDB, PMDB. Já estão bem demarcadas as posições ideológicas de cada partido. Então o que nós precisamos hoje é conseguir as condições para governabilidade, e isso nós temos convicção que vamos obter ampliando esta aliança que fizemos. Porque é evidente que em todos os partidos tem pessoas de boa vontade, que querem o interesse público. E que dos seus pontos de vista, dos seus princípios, daquilo incorporaram ao longo da sua vida, entendem que isso se faz com um estado mais interventor, com mais iniciativa privada, mais capital. E isso não está impedido de buscarmos quadros de centro, de direita, pessoas que pela sua capacidade técnica, possam ser úteis e disciplinadas nas suas tarefas priorizam o bem público. Sendo assim, nós não teremos nenhum problema em convidar personalidades políticas para estar conosco na administração do estado. Agora, o eixo é o eixo desta aliança. Com o pensamento na questão social, que tem que crescer, mas com distribuição de renda, geração de emprego e melhoria da qualidade de vida das pessoas. E isso vai nortear qualquer aliança que nós estivermos comandando.

Sul21 – A expectativa de ter êxito nas negociações com o PTB, PDT e até mesmo o PP, que está sendo cogitado para apoio a candidatura da Dilma no estado, é positiva?

BG – Nós estamos conversando permanentemente e eu estou otimista. Eu acredito que quinta-feira, 14, vamos contar com o apoio de personalidades políticas importantes e até mesmo dos partidos. Eles vão somar no trabalho pró-Dilma, reforçar um apoio que não estava claro no primeiro turno. Então que acredito que quinta feita o cenário será muito favorável, porque o Rio Grande optou pela nossa coligação, entre outros fatores, mas também para se alinhar com o governo federal. Agora que conquistamos isso estamos muito mais motivados a trabalhar no segundo turno para eleger a Dilma, para não inverter a nossa posição. Sair de uma posição contrária ao governo federal aqui, mas agora perder todo o nosso trabalho de campanha.

Sul21 – Mas pelo histórico do RS isso não seria incomum. Como será a relação entre o governo Tarso e o governo federal, seja ele de Dilma Rousseff (PT) ou de José Serra (PSDB)?

BG- Eu estou convencido que a Dilma vai ganhar a eleição. Sinceramente eu não vejo outra hipótese, mas, nós estamos preparados para qualquer intercorrência. O Tarso tem experiência e já esteve no governo federal, conhece os caminhos. Têm relações internacionais nos diversos setores, empresarial, cultural, político, tem toda a condição de representar bem o nosso estado por todo o mundo. E eu sei que o nosso conjunto, aquilo que começou a se formar lá na formação da aliança, veio crescendo durante a campanha e nos torna preparados para lidar com qualquer situação. O RS está em um momento preparado para crescer é a hora do RS desenvolver. Existem recursos na União e um ambiente internacional favorável para buscar financiamento externo. E nós teremos diálogo com qualquer corrente política que comande o Brasil. Vamos negociar com os EUA, com a China, independente da posição políticas que eles tenham desde que seja em prol do estado e por meio de uma relação ética.

Sul21 – O Brasil está preparado para ter uma presidenta?

BG- Eu acho que sim. Os números mostram isso. Somando os votos da Marina Silva com os da Dilma no primeiro turno, tu tens uma esmagadora maioria optando por mulheres. Embora, eu pense que a questão de gênero não é o que deve pautar. A importância é a competência. Mas, evidente, se formos examinar a  capacitação das mulheres de antigamente e de hoje, as mulheres hoje ocupam mais frentes de trabalho e se credenciam cada vez mais e hoje estão em pé de igualdade para disputar qualquer espaço, tanto público como privado. Aqui no RS temos o exemplo de uma mulher no comando do governo que não atingiu os resultados que nós esperávamos para o estado.

Sul21 – O senhor já tem noção de como estará o governo que a sua coligação irá assumir?

BG- O momento agora é de uma transição tranquila é de respeitar a governadora na sua figura institucional e como pessoa. Eu entendo que ela se esforçou para fazer o melhor e se não atingiu os resultados foi por circunstâncias, das atitudes que tomou ou da aliança que ela formou. Nós queremos ter uma boa transição e poder, o quanto antes, saber daquilo que nos espera, do ponto de vista estrutural e financeiro, para poder planejar as nossas ações e em janeiro poder começar a trabalhar de imediato.

Sul21 – A sua coligação não vê problema em acolher o vice-governador Paulo Feijó que além de estar solicito com a transição já cogitou deixar o DEM?

BG- Este é um tema prematuro. Eu conheço o vice-governador de algumas ações desenvolvidas na Assembleia Legislativa, quando eu trabalhei na coordenação da bancada do PSB. Recebi uma ligação dele agora e ele foi muito cordial, muito solícito. Colocou a nossa disposição toda a estrutura para que possamos fazer a transição adequada. Agora, quanto ao futuro político dele eu não tenho condição de avaliar.

Sul21 – Então os contatos para a transição estão se dando por ele, não pela governadora?

BG- A governadora não sei se ligou para o Tarso. Mas já iniciaram contatos da assessoria do governador eleito com a assessoria da governadora. Eu recebi a ligação do Paulo Feijó que também ligou para o Tarso colocando à disposição a estrutura para obtermos informações pelo Palacinho, pelo vice-governador.

Sul21 – O conflito que existiu no governo atual entre governador e vice não lhe assombra?

BG- Nós temos sintonia e pensamentos parecidos, além de estarmos ligados a um projeto que construímos. Embora seja assim, nós somos seres humanos independentes e podemos divergir. Mas, nenhuma divergência nossa irá trazer problemas para o estado. Nosso primeiro compromisso é com a função que estamos assumindo. E isso vamos executar na plenitude. Mas, quaisquer eventuais divergências que possam surgir, nós vamos sentar, vamos conversar e vamos resolver para tocar o barco. Sempre priorizaremos acima de qualquer outra coisa os interesses do RS. Durante a campanha eu me legitimei como figura pública, porque no começo eu andava muito com o Tarso. Então eu devo agora ter agendas minhas, independentes da do Tarso.

Sul21 – Quais as principais mudanças de curto prazo que a população vai sentir no governo Tarso?

BG- A primeira coisa que nós vamos fazer é a instituição do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, que será um órgão máximo de deliberação política. Estamos com isso bem encaminhado para que em janeiro já atuar de maneira plena nele, tanto na figura do governador, como na do vice-governador. Eu estarei atuando com proximidade física ao governador, no Palácio, para partilharmos pensamentos e assessorias e agilizar ao máximo os processos administrativos. Este conselho vai se encarregar de tirar um consenso para encaminhar as ações e leis que pretendemos implantar já no início do governo.

Sul21 – A estruturação do governo já está sendo desenhada?

BG- Pelo menos uma secretaria nós vamos criar, que é a de Desenvolvimento Rural e cooperativismo, para atender melhor a agricultura familiar e as cooperativas. Teremos possivelmente uma espécie de gabinete para atender as demandas da metade sul do estado, que estará sob minha responsabilidade de executar. Vou coordenar esta estrutura. O restante da estrutura do governo está sendo discutida com os partidos e uma equipe de alta capacidade técnica, para diagnosticar como está o estado para que então possamos fazer as definições do secretariado em novembro. Nossa prioridade neste mês de outubro é ouvir, não é definir nada. Discutir internamente com os partidos, colher informações sobre a estrutura do governo atual e nos aproximarmos das instituições, dos prefeitos, dos empresários, dos sindicatos e depois disso vamos definir melhor as estruturações do governo. E a Dilma né, que é a principal preocupação neste momento.

Sul21 – A última vez que o Sul21 falou com o senhor, o senhor era candidato. Agora esta situação mudou. O que o vice-governador tem a dizer a nossos leitores?

BG- Estamos conscientes da responsabilidade que assumimos. Somos depositários da esperança do povo. O povo gaúcho tem tentado o mesmo modelo ou posição ideológica e não tem ficado satisfeito e vem sistematicamente tentando mudar. E agora nos deu uma oportunidade e isso é muito importante, as pessoas querem mudar de vida e nos deram a oportunidade de fazer as ações necessárias. Eu tenho convicção que nós podemos mudar o Rio Grande para melhor. Nós vamos trabalhar muito para retribuir esta confiança e fazer com que as pessoas possam ser mais felizes aqui. Ter uma saúde melhor, mais segurança, mais emprego. Seria impossível nós desempenharmos essas tarefas que nos achamos aptos, se não fosse o povo gaúcho votar em nós. Então fica o nosso agradecimento à militância e às pessoas que acreditaram. E fica a certeza de que nós vamos melhorar o Rio Grande.

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