Editorial

Cortina de fumaça ou a guerra continua

Reuniram-se em São Paulo, ontem, intelectuais ditos democratas, de um lado, para divulgar um manifesto auto denominado “pela democraciaâ€. Reunir-se-ão em São Paulo, hoje, entidades sindicais, movimentos populares e partidos políticos, ditos todos democratas, para realizar um auto denominado “ato público contra a imprensa golpista†e, portanto, também pela democracia. Trate-se, aqui e agora, dos primeiros, e reserve-se o editorial de amanhã para tratar dos segundos.

De onde saíram, na última hora, tantos democratas e por que motivos organizam-se em lados opostos? Claro que a democracia comporta divergências e posicionamentos contrários, mas, para que ela seja efetiva, um rol de requisitos mínimos precisa ser observado por quaisquer que sejam os contendores. O primeiro e mais fundamental deles é o respeito e a aceitação da divergência e dos adversários. O segundo, a explicitação dos objetivos visados.

Dito isto, algumas perguntas se impõe. Por quais motivos esses intelectuais não se assumem publicamente como peessedebistas? Se, como tentam fazer crer os manifestantes, não existem intelectuais democratas no PT, eles não existirão, ao menos, no PV e estes não se mobilizariam em prol da democracia, caso a avaliassem sob ameaça?

Da nominata divulgada de signatários do manifesto dito dos “intelectuais democratasâ€, apenas três integrantes não são peessedebistas de carteirinha ou não assumidos, a saber: d. Paulo Evaristo Arns, Carlos Velloso e Hélio Bicudo. Este último foi fundador, vice-prefeito e deputado federal petista, antes de romper com o PT. Além dele, também são ex-fundadores do PT e hoje quadros do PSDB os cientistas políticos Leôncio Martins Rodrigues, José Ãlvaro Moisés e Jose Arthur Gianotti. O primeiro, assessora FHC, o penúltimo, rompeu com o PT para assumir a diretoria de cinema do Ministério da Cultura na gestão FHC e, o último, foi o mentor intelectual da primeira candidatura FHC. Será a alta plumagem tucana que os tornou, enfim, democratas ou trata-se de mais uma das muitas coincidências desta campanha eleitoral? Compõem, ainda, a lista, dentre outros, Celso Lafer e Carlos Gregory, ex-ministros de FHC e, como todos os demais, integrantes do seu círculo íntimo de relações.

Ao que parece, o tucanato acaba de inventar a democracia peessedebista: excludente e oportunista. Não por acaso, a leitura do manifesto ocorreu às portas da Faculdade do Largo do São Francisco, de gloriosa história, ainda que reduto do elitismo quatrocentão paulista.

Há que se perguntar, também, onde estavam estes mesmo “intelectuais democratas†tucanos quando o governo FHC cooptou deputados para compor supermaioria no Congresso, aviltou a Constituição Federal e implantou a reeleição em seu autobenefício? Onde estavam esses mesmos “intelectuais democratas” tucanos quando o governo Lula tentou reavaliar a anistia concedida pela própria ditadura aos torturadores que a serviram e se viu obrigado a recuar a fim de evitar um confronto desastroso com a direita raivosa e golpista? Onde estavam esses mesmos “intelectuais democratas” tucanos durante a mobilização popular pela aprovação da lei da ficha limpa?

Triste sina a da democracia brasileira, se tiver que depender de democratas deste jaez para defendê-la.

Comentários (7)
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Comentário de: Remindo Sauim | 23 de setembro de 2010 | 9:24

Parece que na manifestação do PSDB o mais novo tucano tinha 79 anos e pediam a volta a 1964. Sobrou lugares e foram distribuído chazinho com bolachas. Chá frio e bolacha chocha.

Comentário de: Valdir | 23 de setembro de 2010 | 10:09

Uma sugestão de pauta: os vídeos produzidos pela campanha do PSDB, os editoriais do PIG, posts em blogs construindo uma imagem do PT com uma retórica bem parecida com a de 1964. Basta ver as primeiras capas da ZH em maio de 1964, basta ver a retórica anti-comunista de O Globo etc. Há manchetes desses jornais dizendo que, com o golpe, a democracia estava restaurada contra o perigo comunista etc. Acho que seria interessante para todos, caso a comparação fosse feita.

Comentário de: carlos a kfouri | 23 de setembro de 2010 | 11:43

Para dizer o mínimo, o editorial está perfeito e demonstra o amadurecimeento do Sul21, que vai encontrando seu rumo e superando as dificuldades naturais de todo novo projeto. Clap, clap,clap

Comentário de: Armando P. Silva Jr. | 23 de setembro de 2010 | 11:46

O sr. Leôncio Martins Rodrigues, passou boa parte da vida, estudando os sindicatos.
Logicamente, na visão da direita raivosa. O que ele sempre foi, ligado a direta raivosa.
O cinismo dessa gente não tem limites.
Obs: Muita gente esta estranhando com nome do sr. Hélio Bicudo no manifesto. O sr. Bicudo vem manifestando suas posições de direita, faz muito tempo.

Comentário de: Paulo Marques | 23 de setembro de 2010 | 11:50

Não ha novidade quanto a maioria dos signatários do “manifesto em defesa das Oligarquias”, todos figurinhas carimbadas com longas fichas de serviços prestados ao tucanato. Não faltaram as presenças sempre rocambolescas de Roberto Freire e Ferreira Gullar. O mais lamentável, no entanto, é ver Hélio Bicudo e Dom Paulo Evaristo Arns corroborando com mais esse espetáculo circense dos neoudenistas de plantão.

Pingback de: Tweets that mention Sul 21 » Cortina de fumaça ou a guerra continua -- Topsy.com | 24 de setembro de 2010 | 13:26

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Comentário de: Julio César Guimarães | 24 de setembro de 2010 | 17:57

O que está em questão é a Liberdade de imprensa meus caros e não quem a está defendendo. É a instituição e não as “pessoa” como fala o nosso bravo presidente, que se vangloria de não ler. Todos perdem porque a Imprensa não tem dono e os jornalistas, coitados, são como bois que não sabem o tamanho da sua força. E depois quem está produzindo fatos e notícias em séries é o governo. Conteúdo de domínio público, de conhecimento geral, da esfera policial. Não tem como não publicar. Ninguém inventou nada.

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